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Europa removeu 603 barragens, diques e barreiras antigas em um único ano, reconectou mais de 3.740 km de rios e transformou a demolição de estruturas obsoletas em uma ferramenta para recuperar ecossistemas, reabrir rotas de peixes e devolver cursos d’água ao fluxo natural

Europa removeu 603 barragens, diques e barreiras antigas em um único ano, reconectou mais de 3.740 km de rios e transformou a demolição de estruturas obsoletas em uma ferramenta para recuperar ecossistemas, reabrir rotas de peixes e devolver cursos d’água ao fluxo natural

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Europa removeu 603 barragens, diques e barreiras antigas em um único ano, reconectou mais de 3.740 km de rios e transformou a demolição de estruturas obsoletas em uma ferramenta para recuperar ecossistemas, reabrir rotas de peixes e devolver cursos d’água ao fluxo natural

Escrito por Carla Teles

Publicado em 11/08/2026 às 11:00

Atualizado em 11/08/2026 às 11:01

Ciência e Tecnologia

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Barragens e barreiras fluviais mudam rios europeus: estruturas obsoletas são removidas e impulsionam a restauração de rios. Imagem: Reprodução. Antes e depois.

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Ao longo de 2025, 21 países europeus removeram ao menos 603 estruturas fluviais, um recorde que superou o resultado de 2024 em 11%. As intervenções reabriram trechos de rios, favoreceram a passagem de peixes e reforçaram uma política de restauração baseada na retirada de barreiras sem função atual na Europa.

A Europa encerrou 2025 com um novo recorde na retirada de barragens, açudes, bueiros e outras estruturas que interrompiam a continuidade de rios e córregos. Pelo menos 603 barreiras foram removidas em 21 países, permitindo a reconexão de mais de 3.740 quilômetros de cursos d’água e ampliando uma estratégia que busca recuperar processos naturais, melhorar a circulação de espécies e reduzir a fragmentação dos ecossistemas de água doce.

Os números constam do relatório Dam Removal Progress 2025, publicado pela coalizão Dam Removal Europe em maio de 2026, e foram destacados pela Wetlands International Europe em 20 de maio de 2026. O total representa crescimento de 11% sobre as 542 remoções registradas em 2024 e estabelece um novo recorde europeu, embora a própria coalizão ressalte que o levantamento pode subestimar a quantidade real de projetos executados.

Recorde de 603 remoções mostra mudança na forma de restaurar rios

Imagem: Reprodução

O levantamento da Dam Removal Europe indica que a remoção de estruturas fluviais ganhou escala suficiente para deixar de ser uma intervenção isolada em determinados rios e passar a integrar políticas mais amplas de restauração. Das 603 barreiras contabilizadas em 2025, metade era formada por bueiros e 31% por açudes ou pequenas represas, enquanto as barragens representaram aproximadamente 10% das estruturas cujo tipo pôde ser identificado.

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A maior parte das intervenções não envolveu grandes barragens monumentais, mas obstáculos pequenos e antigos espalhados pelas bacias hidrográficas. Entre as estruturas com altura conhecida, 78% tinham menos de dois metros, 20% mediam entre dois e cinco metros e apenas 2% ultrapassavam cinco metros. O perfil ajuda a explicar por que uma grande quantidade de projetos pode ser executada em diferentes regiões sem necessariamente envolver obras de dimensões comparáveis às grandes usinas hidrelétricas.

Suécia liderou as remoções e dois países fizeram suas primeiras intervenções

A Suécia assumiu a liderança europeia em 2025, com pelo menos 173 barreiras removidas, seguida pela Finlândia e pela Espanha. O avanço sueco ocorreu, entre outros fatores, com a retirada de antigas estruturas de madeira relacionadas à histórica atividade florestal do país, que utilizava rios modificados para facilitar o transporte de troncos durante períodos anteriores de exploração industrial.

O ano também marcou uma mudança simbólica no mapa europeu da restauração fluvial. Islândia e Macedônia do Norte realizaram oficialmente suas primeiras remoções de barreiras, ampliando o grupo de países envolvidos nesse tipo de intervenção. Mesmo com dois países a menos relatando projetos em comparação com 2024, a quantidade total de estruturas retiradas aumentou, reforçando a concentração de ações em determinadas regiões.

Mais de 3.740 quilômetros de rios voltaram a ficar conectados

Imagem: Reprodução

A retirada das barreiras contabilizadas em 2025 permitiu reconectar mais de 3.740 quilômetros de trechos fluviais, segundo os dados disponíveis para 198 das 603 intervenções analisadas. A Dam Removal Europe calcula essa extensão considerando os quilômetros existentes entre a estrutura removida e as primeiras barreiras localizadas rio acima e rio abaixo, quando presentes.

Na prática, a abertura desses corredores pode devolver continuidade física a áreas que permaneceram separadas durante décadas. Barragens, açudes e bueiros podem interromper a passagem de peixes, o transporte de sedimentos, a circulação de nutrientes e outros processos naturais dos rios, razão pela qual a retirada de estruturas consideradas obsoletas passou a ser adotada como ferramenta de recuperação de conectividade.

Pequena barragem na Islândia bloqueava peixes desde a década de 1950

Um dos exemplos destacados pelo relatório ocorreu no rio Melsá, em Ytri-Hraundalur, na Islândia. Uma pequena barragem hidrelétrica construída em 1958 para fornecer eletricidade a uma propriedade rural permanecia no rio mesmo depois de perder sua função original. A estrutura foi completamente retirada em dezembro de 2025, no primeiro projeto oficialmente documentado desse tipo no país.

A remoção reconectou aproximadamente 2,55 quilômetros de habitat a montante e deixou o Melsá novamente livre de barreiras entre sua nascente e o mar. Levantamentos realizados antes da intervenção não encontraram peixes juvenis acima da antiga barragem, situação considerada relevante para espécies migratórias como a truta-marinha e o salmão-do-atlântico.

Macedônia do Norte reabriu 72 quilômetros de habitat

Na Macedônia do Norte, duas estruturas foram removidas das bacias dos rios Kriva e Pčinja durante 2025, nas primeiras intervenções oficialmente registradas no país. A região possuía 46 barreiras identificadas, que fragmentavam habitats utilizados por diferentes espécies nativas de peixes e dificultavam sua movimentação ao longo da rede fluvial.

Uma estrutura de 1,6 metro de altura e dez metros de comprimento no rio Kriva foi retirada em apenas um dia, em agosto de 2025. Já a remoção da barreira Shuplji Kamen, com 5,3 metros de altura e 52 metros de extensão, ocorreu entre outubro e dezembro. Os dois projetos permitiram reabrir aproximadamente 72 quilômetros de habitat fluvial, segundo a Dam Removal Europe.

Na Noruega, explosivos foram usados para demolir uma barragem de seis metros

Um caso de maior porte ocorreu no rio Vinstra, na região de Innlandet, na Noruega. Uma barragem obsoleta com aproximadamente seis metros de altura, construída para fins industriais há mais de um século, foi demolida em dezembro de 2025 com utilização controlada de explosivos e equipamentos pesados.

A estrutura dificultava o deslocamento de trutas e outras espécies até áreas de reprodução situadas rio acima. Sua retirada reconectou cerca de 30 quilômetros de trechos fluviais considerados adequados para desova e desenvolvimento de peixes juvenis. O projeto também foi planejado para reduzir níveis de água próximos a uma antiga estrutura de moinho vulnerável durante episódios de maior vazão.

Europa ainda possui mais de 1,2 milhão de barreiras nos rios

Apesar do recorde, a escala das remoções permanece pequena diante da quantidade de obstáculos existentes. Segundo os dados reunidos pelas organizações envolvidas, os rios europeus continuam fragmentados por mais de 1,2 milhão de barragens, açudes, bueiros e outras estruturas artificiais, sendo que mais de 150 mil delas são consideradas obsoletas.

Essa fragmentação altera a dinâmica natural dos cursos d’água e restringe a movimentação de espécies. A retirada das estruturas sem função atual é apresentada pelas organizações ambientais como uma das formas de restaurar conectividade sem necessariamente construir novas infraestruturas, embora cada projeto exija avaliação das condições ambientais, técnicas e sociais existentes no local.

Meta europeia prevê recuperar pelo menos 25 mil quilômetros de rios até 2030

O movimento ocorre em paralelo à implementação do Regulamento de Restauração da Natureza da União Europeia, que estabelece como uma de suas metas a restauração de pelo menos 25 mil quilômetros de rios de fluxo livre até 2030. Nesse contexto, a remoção de barreiras aparece entre as medidas previstas para recuperar a conectividade dos sistemas fluviais.

Áustria, por exemplo, apresentou em março de 2026 seu primeiro plano nacional voltado à recuperação dessa conectividade. Apenas cerca de 12% dos rios austríacos permanecem atualmente classificados como livres de barreiras, e mais de 2.500 quilômetros de trechos foram identificados como potencialmente recuperáveis. O planejamento prevê aproximadamente 450 quilômetros restaurados até 2030.

Remover uma barreira também exige avaliação de riscos ambientais

A abertura de rios não é apresentada pelas próprias fontes como uma intervenção automática ou livre de desafios. Os projetos podem exigir estudos sobre sedimentos, qualidade da água, espécies presentes, estabilidade das margens e possíveis contaminações acumuladas ao redor das estruturas durante décadas.

Na Macedônia do Norte, por exemplo, o projeto do rio Kriva precisou considerar contaminação por chumbo, cádmio e arsênio. A experiência mostra que a demolição física da estrutura é apenas uma etapa de um processo que pode envolver licenciamento, levantamento ecológico, consulta às comunidades, monitoramento e acompanhamento posterior do rio.

Demolição de barragens antigas ganha espaço como política de restauração

Depois de passar de pouco mais de uma centena de remoções anuais na primeira contagem continental, em 2020, para mais de 600 em 2025, a retirada de barreiras se tornou uma frente cada vez mais presente na restauração dos rios europeus. O novo recorde demonstra que pequenas intervenções distribuídas por diferentes bacias podem, somadas, reconectar milhares de quilômetros de cursos d’água.

Ao mesmo tempo, os mais de 1,2 milhão de obstáculos ainda existentes mostram a dimensão do desafio. A discussão agora envolve decidir quais barragens e outras estruturas continuam desempenhando funções necessárias e quais permaneceram nos rios apenas como legado de atividades que deixaram de existir. Para você, estruturas antigas e sem uso deveriam ser removidas sempre que estudos demonstrarem benefícios ambientais, ou parte delas deveria permanecer por razões históricas e paisagísticas? Deixe sua opinião nos comentários.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Carla Teles.

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