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Ex-gari recolhia lixo, entulho, animais mortos e limpava esgoto por pouco mais de R$ 400 até decidir mudar de vida, juntou dinheiro para entrar na faculdade, chegou ao mestrado e doutorado em Ciência da Computação pela UFPE e, anos depois, concluiu pós-doutorado em cibersegurança
Escrito por Geovane Souza
Publicado em 10/08/2026 às 15:58
Atualizado em 10/08/2026 às 15:59
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Com salário pouco acima de R$ 400, Milton Vinicius Morais de Lima juntou dinheiro para pagar seis meses de faculdade, deixou o trabalho de gari e iniciou uma trajetória acadêmica que o levaria da graduação à pesquisa avançada em segurança digital e ao Comitê Nacional de Cibersegurança
Houve um período em que a Carteira de Trabalho de Milton Vinicius Morais de Lima trazia a função de “gari caçamba”. Em Rondônia, onde estava desempregado e precisava de uma fonte de renda, ele passou a recolher lixo e entulho, retirar animais mortos e participar da limpeza de esgoto.
O trabalho rendia pouco mais de R$ 400 por mês, segundo relato publicado pela Folha de Pernambuco. Milton observava colegas que estavam havia cinco, sete ou até 12 anos naquela atividade e começou a planejar outro caminho para a própria vida.
Ele economizou durante meses até reunir dinheiro suficiente para aproximadamente seis mensalidades de uma faculdade. Deixou o emprego, começou a estudar tecnologia e iniciou uma trajetória que, naquele momento, dificilmente poderia ser prevista a partir do cargo registrado em sua carteira.
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O que em 2017 já chamava atenção pelo mestrado na Universidade Federal de Pernambuco ganhou novos capítulos. Milton concluiu o doutorado em Ciência da Computação pela UFPE em 2022 e, em 2026, teve oficialmente anunciada a conclusão de seu estágio de pós-doutorado na UFRPE, com pesquisas voltadas à cibersegurança, inteligência de ameaças e Internet das Coisas.
Antes da universidade, o trabalho pesado e a falta de dinheiro faziam parte da rotina
A passagem de Milton pelo serviço de limpeza ocorreu depois de uma sequência de dificuldades pessoais. Aos 20 anos, ele perdeu a mãe e, algum tempo depois, foi morar em Rondônia, onde enfrentou desemprego até encontrar a vaga de gari.
A atividade estava longe de se resumir à coleta convencional. Ele relatou contato com lixo, entulho, animais mortos e esgoto, além da necessidade de correr atrás do caminhão durante o serviço e conviver com os riscos encontrados nos locais de descarte.
A estratégia para sair dali foi financeira e simples. Milton guardou o que conseguiu durante aproximadamente seis meses, acumulou o equivalente a mais seis meses de mensalidades e decidiu trocar o trabalho pela faculdade, mesmo sem ter garantia de como financiaria toda a formação posteriormente.
O caminho até a UFPE incluiu falta de dinheiro e quilômetros percorridos a pé
A entrada na pós-graduação também teve obstáculos bastante concretos. Quando marcou uma conversa com aquele que poderia se tornar seu orientador na UFPE, Recife enfrentava uma greve de ônibus e Milton precisou conseguir uma carona para chegar à universidade.
Depois do encontro, precisava retornar com documentos necessários para a inscrição, mas não tinha dinheiro suficiente para o deslocamento. Ele então percorreu a pé parte do caminho entre a região da Várzea, onde fica o campus da UFPE, e o Derby, na área central do Recife.
O esforço acabou levando ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Computação do Centro de Informática. Em 20 de julho de 2017, Milton teve aprovada sua dissertação de mestrado, intitulada “Uma Metodologia para Avaliar a Maturidade das Configurações de Segurança em Ambientes de Data Center: Uma Estrutura Sistemática com Multiperspectiva”. O documento oficial da UFPE registra Ricardo Massa Ferreira Lima como orientador.
A pesquisa já mostrava a direção que a carreira assumiria nos anos seguintes. Em vez de abandonar o ambiente acadêmico depois de obter o título de mestre, Milton continuou investigando segurança da informação e avançou para o doutorado na mesma universidade.
Na época em que sua história ganhou repercussão, ele tinha 33 anos e o doutorado ainda era um projeto que estava começando. Cinco anos depois, o título que aparecia como próximo objetivo já havia se transformado em uma tese concluída.
No doutorado, o ex-gari passou a pesquisar ataques contra dispositivos conectados
Em 13 de dezembro de 2022, Milton defendeu no Centro de Informática da UFPE a tese “Beholder: Um Sistema de Detecção e Prevenção Contra Intrusão em Ambientes da Internet das Coisas Baseado em Processamento de Eventos Complexos”. O trabalho foi desenvolvido sob orientação de Ricardo Massa Ferreira Lima e coorientação de Fernando Antônio Aires Lins, da UFRPE.
A pesquisa tratava de um problema bastante diferente daquele enfrentado por Milton quando corria atrás de caminhões de coleta. O sistema Beholder foi criado para identificar e prevenir ataques em ambientes de Internet das Coisas, categoria que envolve dispositivos conectados capazes de trocar dados pela rede, como sensores, equipamentos domésticos inteligentes e sistemas industriais.
O repositório institucional da UFPE registra oficialmente o trabalho como tese de Doutorado em Ciência da Computação, publicada em 2022. Nos experimentos descritos pela universidade, a solução foi testada inclusive em um cenário de casa inteligente, avaliando ataques relacionados a protocolos usados por dispositivos IoT.
Depois do doutorado veio o pós-doutorado em cibersegurança
A trajetória acadêmica não terminou com a defesa na UFPE. Em fevereiro de 2026, o Programa de Pós-Graduação em Informática Aplicada da Universidade Federal Rural de Pernambuco, UFRPE, anunciou a conclusão do estágio de pós-doutorado de Milton, desenvolvido sob supervisão do professor Fernando Aires.
Durante esse período, o pesquisador trabalhou com cibersegurança, Cyber Threat Intelligence, conhecida pela sigla CTI, e Internet das Coisas. A CTI reúne métodos de obtenção e análise de informações sobre ameaças digitais para compreender ataques, identificar padrões e apoiar decisões de prevenção e resposta.
Segundo a UFRPE, o período de pós-doutorado também resultou em pesquisa publicada no periódico científico Journal of Supercomputing. Milton participou ainda da orientação de estudantes de mestrado e da aproximação entre o Departamento de Computação da universidade e o Centro Integrado de Segurança de Sistemas Avançados, o CISSA.
A própria instituição informa que ele seguiu a carreira no CISSA, unidade EMBRAPII especializada em cibersegurança, como pesquisador líder na área de inteligência de ameaças cibernéticas. A mudança de trajetória fica evidente quando se compara essa atuação com o antigo registro profissional de gari.
Da coleta de lixo à participação nas discussões nacionais sobre segurança cibernética
O avanço profissional de Milton ultrapassou os títulos acadêmicos. Em fevereiro de 2024, o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República publicou a composição do Comitê Nacional de Cibersegurança, o CNCiber, criado para reunir governo, setor empresarial, comunidade científica e sociedade civil em discussões relacionadas à segurança digital do país.
Milton Vinicius Morais de Lima aparece na relação oficial como titular de uma das representações das entidades do setor empresarial ligado à segurança cibernética. A nomeação foi formalizada pela Portaria GSI/PR nº 6/2024, publicada no Diário Oficial da União.
A sequência documentada ajuda a dimensionar a mudança ocorrida desde o período em que recebia pouco mais de R$ 400 recolhendo resíduos. Vieram a graduação, especializações, o mestrado em 2017, o doutorado concluído em 2022, o pós-doutorado finalizado na UFRPE e a atuação profissional diretamente ligada à pesquisa em cibersegurança.
A história de Milton chamou sua atenção? Você acredita que acesso à educação e oportunidades profissionais podem mudar trajetórias como essa? Deixe sua opinião nos comentários e conte se conhece alguém que também conseguiu mudar de profissão depois de voltar aos estudos.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Geovane Souza.

