7 min de leitura
Ex-piloto de F1, Mario Haberfeld troca as pistas pela selva e cria ONG que conecta mais de 2 milhões de hectares, protegendo a onça-pintada e outras 33 espécies ameaçadas em quatro biomas brasileiros contra devastação e incêndios florestais
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 17/08/2026 às 18:27
Curiosidades
Canal
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Chamado de ex-piloto de F1, Mario Haberfeld foi piloto de testes da categoria e encerrou as competições em 2008. Três anos depois, fundou o Onçafari, hoje presente no Pantanal, Cerrado, Amazônia e Mata Atlântica, com ciência, ecoturismo, reintrodução de animais e prevenção de incêndios em áreas naturais brasileiras sob proteção.
Segundo a revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios, o ex-piloto de F1 Mario Haberfeld atuou como piloto de testes da categoria, sem disputar um Grande Prêmio do Mundial. Depois de deixar as competições em 2008, o brasileiro direcionou a experiência acumulada no automobilismo para um projeto de conservação da fauna.
Em 2011, Haberfeld fundou o Onçafari no Pantanal de Mato Grosso do Sul. A iniciativa começou com a onça-pintada, ampliou a atuação para quatro biomas e passou a combinar pesquisa científica, proteção de áreas, ecoturismo, educação, reintrodução de animais e prevenção de incêndios. A mudança de carreira criou uma organização com presença muito além de sua primeira base.
Haberfeld foi piloto de testes da F1 e campeão da Fórmula 3
Mario Haberfeld construiu uma trajetória internacional no automobilismo e conquistou o Campeonato Britânico de Fórmula 3 em 1998. Depois, passou pela Fórmula 3000, integrou a estrutura de desenvolvimento da McLaren e realizou testes com carros de Fórmula 1, além de ter experiências relacionadas às equipes Stewart e Jordan.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
O brasileiro não largou em corridas válidas pelo Mundial de Fórmula 1. Também competiu na CART, posteriormente chamada de Champ Car, na Grand-Am e na Le Mans Series. A ligação com a principal categoria do automobilismo ocorreu nos testes, não em Grandes Prêmios.
Encerramento das corridas abriu espaço para um plano ambiental
Haberfeld interrompeu a carreira regular nas pistas em 2008, quando tinha 32 anos. Naquele momento, já pensava em trabalhar com conservação, mas reconhecia que não possuía formação como biólogo, veterinário ou cientista e ainda não havia definido como transformaria a intenção em uma iniciativa concreta.
Haberfeld passou a visitar projetos de vida selvagem em diferentes países, especialmente na África e na Ásia, observando formas de aproximar turismo, pesquisa e proteção ambiental. O objetivo era adaptar o aprendizado à realidade brasileira. As viagens funcionaram como uma etapa de pesquisa antes da criação da ONG.
Onçafari começou no Pantanal em agosto de 2011
O Onçafari iniciou as atividades no Refúgio Ecológico Caiman, em Miranda, no Pantanal sul-mato-grossense. O nome une a onça-pintada ao conceito de safári, refletindo a estratégia inicial de tornar a observação responsável da fauna uma ferramenta para financiar conservação e gerar atividade econômica associada aos animais vivos.
De acordo com a linha do tempo oficial do Onçafari, ainda em 2011 a equipe colocou o primeiro rádio-colar com GPS em uma onça-pintada. No ano seguinte, uma armadilha fotográfica captou o primeiro filhote acompanhado pelo projeto. O trabalho nasceu no ecoturismo, mas incorporou monitoramento científico desde os primeiros meses.
Monitoramento transformou encontros com onças em dados científicos
As equipes acompanham animais por meio de câmeras automáticas, colares de localização e observação de campo. Os registros ajudam a identificar indivíduos, deslocamentos, reprodução, uso do território e convivência com outras espécies, criando uma base de informações que orienta decisões de conservação.
Na Caiman Pantanal, a organização contabilizou 1.131 avistamentos durante 2025. A maior parte envolveu fêmeas, muitas acompanhadas por filhotes. A observação turística também produz séries contínuas de dados sobre o comportamento da onça-pintada.
Ecoturismo mudou o valor atribuído à onça-pintada
No contexto da pecuária pantaneira, a presença do felino foi tratada durante décadas principalmente como ameaça aos rebanhos. O modelo desenvolvido pelo Onçafari procura reduzir esse conflito ao demonstrar que a onça-pintada pode movimentar hospedagem, guias, transporte e outros serviços ligados ao turismo de natureza.
Essa lógica depende do envolvimento de proprietários rurais e comunidades locais. A organização forma profissionais, apoia atividades educativas e trabalha para que parte do retorno econômico permaneça nas regiões atendidas. Quando o animal vivo gera renda recorrente, produtores e moradores ganham um incentivo adicional para conservar o habitat.
Organização administra 115 mil hectares e influencia área maior
O Onçafari administra cerca de 115 mil hectares em sete reservas próprias e participa da construção de corredores ecológicos que conectam áreas protegidas, propriedades privadas e fragmentos de vegetação. Esse modelo amplia o espaço disponível para a fauna sem concentrar toda a extensão sob uma única propriedade.
Três grandes corredores mantidos no Brasil somam mais de 2 milhões de hectares em áreas de influência protegidas entre a Amazônia e o Pantanal. Dentro desse conjunto, 430 mil hectares estão ligados ao corredor da Aliança 5P. A extensão de 2 milhões de hectares corresponde à conectividade e à influência conservacionista criada entre diferentes territórios.
Quatro biomas ampliaram o alcance iniciado no Pantanal
Depois da primeira base, a atuação alcançou Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica, além do Pantanal. Nos quatro biomas, as ações são adaptadas às características de cada região e incluem oito frentes: ecoturismo, ciência, educação, reintrodução, desenvolvimento social, florestas, prevenção de incêndios e participação em debates sobre políticas ambientais.
O trabalho não se restringe ao maior felino das Américas. O modelo ajuda a proteger a onça-pintada e mais de 33 espécies ameaçadas, com métodos ajustados às paisagens, às comunidades e aos riscos ambientais de cada região. A conservação de um predador do topo da cadeia exige a manutenção das presas, da vegetação, da água e dos corredores usados por toda a fauna.
Reintrodução devolveu animais reabilitados à natureza
A frente de reintrodução prepara animais resgatados para viver novamente em ambiente natural quando existem condições técnicas e veterinárias. O processo procura preservar comportamentos silvestres, avaliar capacidade de sobrevivência e acompanhar os indivíduos depois da soltura, evitando tratar cada liberação como um ato isolado.
O macho Xamã foi solto na Amazônia em 2024 após aproximadamente dois anos de preparação. Monitorado por GPS, percorreu mais de 14 mil hectares nos primeiros meses. Antes dele, as fêmeas Vivara e Pandora haviam sido reintroduzidas no bioma em 2019. O acompanhamento posterior transforma cada soltura em conhecimento para operações futuras.
Frente anti-incêndio ganhou estrutura depois dos grandes incêndios
O Onçafari criou uma frente específica de prevenção e resposta a incêndios no início de 2024. A estrutura inclui formação de brigadas comunitárias e privadas, planos de manejo integrado, equipamentos, monitoramento e medidas preventivas conduzidas por equipes capacitadas e dentro das normas aplicáveis.
Depois dos incêndios registrados no Pantanal entre julho e setembro daquele ano, a campanha Recupera Pantanal arrecadou recursos para reconstruir instalações, manter brigadas, ampliar pontos de água e atender animais afetados. A atuação passou a combinar resposta emergencial com preparação permanente para novos períodos de seca e fogo.
Corredor internacional pretende conectar quatro países
O Onçafari representa o Brasil na Jaguar Rivers Initiative, parceria com Rewilding Argentina, Nativa, da Bolívia, e Fundación Moisés Bertoni, do Paraguai. O projeto pretende criar um corredor de vida selvagem ao longo da Bacia do Rio Paraná, conectando territórios naturais que ultrapassam fronteiras nacionais.
A área de referência da iniciativa se aproxima de 2,5 milhões de quilômetros quadrados, dimensão diferente dos 2 milhões de hectares associados aos corredores brasileiros. O projeto busca permitir deslocamento de animais, intercâmbio técnico e coordenação entre organizações. A proposta leva a conectividade ecológica do nível regional para uma escala continental.
Reconhecimento em Davos ampliou a visibilidade internacional
Em janeiro de 2026, Mario Haberfeld recebeu o prêmio de Empreendedor Social do Ano da Fundação Schwab durante a reunião anual do Fórum Econômico Mundial, em Davos. Ele foi o único brasileiro entre os líderes premiados naquela edição, reconhecimento que aumentou a exposição internacional do Onçafari.
A cerimônia realizada em 20 de janeiro reuniu lideranças reconhecidas por soluções sociais e ambientais. A projeção internacional também abre portas para captação fora do Brasil, enquanto o financiamento do Onçafari se apoia em ecoturismo, projetos educacionais, programas de doação e mais de 20 parceiros. O prêmio reconheceu a combinação entre conservação, economia local e expansão territorial.
Ex-piloto de F1 transformou velocidade em conservação de longo prazo
A trajetória do ex-piloto de F1 começou nas equipes de testes e em categorias internacionais antes de seguir para a conservação. Quinze anos depois da criação do Onçafari, o projeto atua em quatro biomas, mantém reservas, conecta corredores e trabalha com comunidades, pesquisadores e proprietários.
O alcance depende de continuidade, financiamento, ciência e cooperação entre diferentes setores; não apenas da trajetória pessoal do fundador. Na sua opinião, qual frente deveria receber mais investimento para proteger a biodiversidade brasileira: corredores ecológicos, brigadas anti-incêndio, pesquisa científica, ecoturismo ou educação ambiental? Conte nos comentários qual delas produziria o maior impacto.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

