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Família de desertores percorreu 3 mil km para fugir da Coreia do Norte e chegar à Coreia do Sul após travessia pela China
Escrito por Caio Aviz
Publicado em 05/08/2026 às 21:11
Geopolítica
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Família Park atravessou montanhas, dependeu de uma rede clandestina de apoio e chegou ao Laos após uma fuga marcada pelo frio extremo e graves ferimentos.
Em 2014, uma mulher identificada como senhora Park deixou a Coreia do Norte acompanhada do filho Andy e iniciou uma jornada de aproximadamente 3 mil quilômetros pela China. O objetivo era chegar à Coreia do Sul, onde suas duas filhas já viviam após terem conseguido deixar o país alguns anos antes.
A decisão colocou mãe e filho diante de uma travessia extremamente arriscada. Sem documentos para permanecer na China, eles precisavam evitar autoridades, encontrar intermediários e percorrer uma rota clandestina até o Laos. Durante o caminho, enfrentaram temperaturas próximas de 30 graus negativos e passaram dias perdidos nas montanhas.
A fuga provocou consequências permanentes. Depois de permanecer três noites sob frio intenso e continuar caminhando mesmo com graves ferimentos, Park desenvolveu necrose nos pés. Ao chegar ao Laos, recebeu atendimento médico e descobriu que todos os dedos dos pés precisariam ser amputados.
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Fuga da Coreia do Norte começou depois que duas filhas da senhora Park conseguiram chegar ao Sul
A história da família havia começado a mudar antes da travessia de 2014. As duas filhas da senhora Park conseguiram deixar a Coreia do Norte e seguir para a Coreia do Sul, enquanto a mãe permaneceu no país com Andy. Alguns anos depois, os dois decidiram seguir o mesmo caminho.
A primeira etapa envolveu atravessar um rio e alcançar território chinês. Ao olhar novamente para a Coreia do Norte depois da travessia, Park percebeu que provavelmente nunca retornaria ao país. A prioridade passou a ser desaparecer rapidamente da região de fronteira.
Mãe e filho seguiram para as montanhas, onde deveriam encontrar um intermediário responsável pela próxima etapa. A pessoa, porém, não apareceu no ponto combinado. Sem orientação e impossibilitados de circular livremente pelas estradas, eles começaram a procurar sozinhos uma saída.
Park e Andy ficaram três dias perdidos nas montanhas sob temperatura de -30 °C
O percurso pelas montanhas transformou rapidamente a fuga em uma luta pela sobrevivência. Park e Andy passaram duas noites e três dias caminhando sem conseguir encontrar uma saída, enquanto as condições climáticas se tornavam cada vez mais severas.
Durante a noite, a temperatura chegou a aproximadamente 30 graus negativos. Os dois também ouviam lobos nas proximidades e temiam ser atacados enquanto avançavam pelo terreno desconhecido. O frio, entretanto, logo se tornou o maior problema.
Park chegou a acreditar que não sobreviveria e pediu que Andy continuasse sozinho. O filho recusou abandonar a mãe. Sem outra alternativa, os dois desceram até um vilarejo, bateram à porta de uma residência e conseguiram abrigo com moradores locais.
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Três noites na neve provocaram necrose nos pés durante travessia pela China
A exposição prolongada ao frio já havia causado danos quando Park e Andy conseguiram deixar as montanhas. Depois de três noites na neve, as lesões começaram a evoluir para necrose, enquanto mãe e filho ainda tinham milhares de quilômetros pela frente.
O problema era ainda mais delicado porque eles estavam na China sem documentos ou vistos. Procurar livremente autoridades ou serviços públicos poderia expor a presença dos dois e interromper a fuga.
Moradores chineses e integrantes de uma rede secreta de apoio a desertores ajudaram com transporte e atendimento médico. A família conseguiu continuar avançando, embora os ferimentos nos pés permanecessem graves.
A rota exigia atravessar aproximadamente 3 mil quilômetros pela China até chegar ao Laos. Mesmo lesionados, Park e Andy continuaram viajando e caminhando por áreas montanhosas para completar o percurso.
Jornada de 3 mil quilômetros levou mãe e filho da China até o Laos
A travessia exigia discrição constante. Qualquer encontro com autoridades poderia comprometer a viagem, por isso as paradas eram rápidas e os deslocamentos precisavam acontecer sem chamar atenção.
Andy tinha 29 anos naquele período. Durante uma parada em um posto de combustível com loja de conveniência, ele se surpreendeu com brinquedos e produtos que nunca havia encontrado anteriormente. A passagem pelo local durou pouco porque era necessário retornar rapidamente à estrada.
Os ferimentos, ao mesmo tempo, continuavam avançando. Mesmo com os pés feridos, mãe e filho caminharam durante muitas horas em terreno montanhoso até finalmente conseguirem atravessar a fronteira e alcançar o Laos.
A chegada permitiu que eles se hospedassem temporariamente em um pequeno hotel. Foi naquele momento que a verdadeira extensão dos danos provocados pelo frio se tornou evidente.
Médicos determinaram amputação de todos os dedos dos pés da senhora Park
Park e Andy foram levados para uma clínica depois de chegarem ao Laos. A avaliação médica revelou que os ferimentos da mulher haviam atingido um estágio grave e que os dedos dos pés não poderiam ser preservados.
Todos precisaram ser amputados. Park encarou a notícia considerando que havia conseguido sobreviver à jornada, embora a perda tenha provocado limitações permanentes de mobilidade.
Dez anos depois, ela já havia aprendido a conviver com as consequências da amputação e continuava realizando exercícios físicos. A experiência da fuga, entretanto, permaneceu presente em sua nova vida.
Andy também carregou a história para sua trajetória profissional. Depois de se estabelecer na Coreia do Sul, tornou-se artista e passou a produzir trabalhos relacionados à divisão da Península Coreana.
Andy virou artista e passou a retratar as diferenças entre as duas Coreias
As obras de Andy abordam a Coreia do Norte, a Coreia do Sul e a Zona Desmilitarizada existente entre os dois países. O artista trabalha especialmente com as diferentes percepções construídas em torno da fronteira.
Seu conceito busca apresentar a Zona Desmilitarizada sob perspectivas distintas. A experiência de quem observa a região a partir do Norte não seria necessariamente igual à interpretação construída no Sul ou fora da península.
A arte passou, dessa maneira, a reunir elementos diretamente ligados à trajetória vivida pelo próprio Andy. A divisão territorial que marcou sua infância e posteriormente sua fuga ganhou uma nova representação em seu trabalho.
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Caio Aviz
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Senhora Park reencontrou as duas filhas e construiu um novo lar em Seul
A senhora Park conseguiu estabelecer sua nova vida em Seul, capital da Coreia do Sul. Depois da longa separação, ela finalmente reencontrou as duas filhas que haviam conseguido deixar a Coreia do Norte antes dela.
O encontro reuniu novamente uma família separada pela fronteira entre os dois países. Park abraçou as filhas e afirmou que não queria voltar a se separar delas, encerrando uma trajetória iniciada anos antes com a saída das jovens.
As lembranças da Coreia do Norte e da travessia, contudo, permaneceram presentes. Mesmo depois de construir uma nova rotina em Seul, Park continuou convivendo com as consequências físicas deixadas pelo frio e com as memórias da fuga.
Dez anos depois, travessia continuava deixando marcas na família Park
A jornada iniciada em 2014 mudou definitivamente a trajetória de mãe e filho. Cerca de uma década depois, Park havia reconstruído sua vida na Coreia do Sul, enquanto Andy transformava parte das experiências entre os dois países em produção artística.
A fuga também ocorreu em um período de forte atenção internacional sobre a situação dos direitos humanos na Coreia do Norte. Em fevereiro de 2014, uma comissão de investigação das Nações Unidas apresentou conclusões sobre graves violações ocorridas no país.
Para a família Park, a dimensão concreta daquela realidade esteve nos milhares de quilômetros percorridos, nas noites enfrentadas sob temperaturas extremas e nas consequências físicas deixadas pela jornada.
A travessia terminou com a família reunida na Coreia do Sul. Dez anos depois, a senhora Park continuava convivendo com a amputação, enquanto ela e Andy construíam uma vida distante do lugar que haviam deixado para trás.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Caio Aviz.

