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Família transformou 957 hectares da Fazenda Montes Claros em reserva permanente em Minas Gerais, preserva Mata Atlântica, recebe pesquisas e protege a maior população conhecida de muriquis-do-norte
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 15/08/2026 às 18:30
Atualizado em 15/08/2026 às 18:31
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Propriedade mineira concentra um dos remanescentes mais importantes de Mata Atlântica da região, reúne centenas de espécies de vertebrados e sustenta pesquisas científicas de longa duração, enquanto proteção permanente, regeneração florestal e conservação de primatas ameaçados ajudam a explicar a relevância ambiental alcançada pelo território.
Uma área de 957 hectares da Fazenda Montes Claros, em Caratinga, no leste de Minas Gerais, permanece protegida de forma permanente como Reserva Particular do Patrimônio Natural e abriga um dos remanescentes mais importantes de Mata Atlântica da região.
Dentro da RPPN Feliciano Miguel Abdala, floresta conservada, trechos em regeneração, dezenas de espécies de mamíferos e um núcleo de pesquisa convivem no mesmo território, que se tornou referência para estudos sobre o muriqui-do-norte e a conservação da biodiversidade.
Segundo a organização Preserve Muriqui, responsável pela administração da reserva, os 957 hectares protegidos correspondem a 72% da Fazenda Montes Claros, sendo que 80% desse território são formados por matas em bom estado de conservação.
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Os 20% restantes incluem pastos abandonados e florestas em processo de regeneração, enquanto pequenos fragmentos mantidos em propriedades vizinhas se conectam à área protegida e ampliam a continuidade da vegetação nativa em uma paisagem marcada pela fragmentação.
Mata Atlântica protegida ocupa quase mil hectares
Somados esses fragmentos, a extensão de Mata Atlântica original existente naquele conjunto de propriedades chega a aproximadamente 1.450 hectares, ampliando o espaço disponível para fauna e flora em uma região historicamente marcada pela redução da cobertura florestal.
Classificada pela Preserve Muriqui como uma das áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade na Mata Atlântica, a reserva concentra plantas endêmicas e espécies ameaçadas de aves e mamíferos, além de manter relevância ambiental para o Vale do Rio Doce.
Levantamentos reunidos pela entidade registram, ao todo, cerca de 362 espécies de vertebrados na reserva, considerando mamíferos, aves, peixes, répteis e anfíbios, enquanto o número de mamíferos identificados chega a 79 espécies dentro da área protegida.
Esse total coloca a reserva, ao lado do Parque Nacional do Caparaó, entre os locais de maior riqueza de mamíferos na região do Vale do Rio Doce e reforça a importância do remanescente para diferentes grupos da fauna.
Maior população conhecida de muriquis-do-norte vive na reserva
Entre os animais que mais chamam atenção está o muriqui-do-norte, maior primata das Américas e espécie fortemente associada aos remanescentes de Mata Atlântica, cuja população na RPPN reúne cerca de 170 indivíduos, segundo a Preserve Muriqui.
De acordo com a organização, essa é a maior população conhecida da espécie e também a única considerada viável entre os grupos acompanhados, condição que transformou a propriedade em um ponto estratégico para estudos de primatologia e conservação.
Além dos muriquis, pesquisadores registraram sagui-da-cara-amarela, bugio-ruivo e macaco-prego na mesma área protegida, formando uma comunidade de primatas que despertou interesse científico antes mesmo da criação formal da RPPN e contribuiu para consolidar a proteção da floresta.
Pesquisas científicas acompanham primatas há décadas
Os primeiros estudos sistemáticos com muriquis começaram na região na década de 1970, e posteriormente pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais, além de especialistas brasileiros e estrangeiros, ampliaram as investigações sobre comportamento, ecologia e conservação desses primatas.
Ao oferecer uma base dentro da propriedade para equipes que precisavam permanecer próximas à floresta durante observações prolongadas, a criação da Estação Biológica de Caratinga fortaleceu a estrutura de pesquisa de campo desenvolvida na área.
Esse modelo tornou possível acompanhar reprodução, relações sociais, deslocamento, alimentação e respostas à fragmentação do habitat durante períodos extensos, algo especialmente relevante para estudos de longo prazo envolvendo uma espécie ameaçada que vive em fragmentos florestais isolados.
Proteção permanente foi oficializada pelo Ibama
O reconhecimento oficial como RPPN ocorreu por meio de portaria do Ibama em 2001, estabelecendo proteção permanente sobre a parcela de Mata Atlântica destinada à conservação, sem retirar da área sua condição de propriedade privada.
Por iniciativa da família Abdala, a formalização separou da Fazenda Montes Claros as áreas de pasto e lavoura e destinou a porção florestal à reserva, que posteriormente passou a ser administrada com apoio da Preserve Muriqui.
Criada para cuidar da propriedade, desenvolver o manejo e articular parcerias com instituições de ensino, pesquisa, organizações ambientais e órgãos públicos, a entidade também passou a sustentar uma estrutura científica associada diretamente à conservação da área.
Reserva concentra projetos, dissertações e teses
Conforme os dados divulgados pela Preserve Muriqui, a reserva recebeu 22 projetos de pesquisa independentes, quatro monografias de graduação, 24 dissertações de mestrado, dez teses de doutorado e um trabalho de pós-doutorado ao longo de sua trajetória científica.
Mais de 80 estudantes brasileiros também foram treinados em atividades de campo na área, enquanto parte deles seguiu desenvolvendo projetos de conservação em outros locais, ampliando o alcance acadêmico e técnico das experiências realizadas dentro da reserva.
Principal eixo dessas pesquisas, o Projeto Muriquis de Caratinga ultrapassou quatro décadas de atuação, permitindo observar mudanças populacionais e aspectos do comportamento que dificilmente seriam identificados com a mesma precisão em estudos de curta duração.
Ao longo dos anos, entre os temas acompanhados estão ecologia, comportamento social e sistema reprodutivo dos muriquis, enquanto o monitoramento também passou a incorporar estudos sobre vegetação, produtividade da floresta e variabilidade genética da população presente na reserva.
Fragmentação da Mata Atlântica também é objeto de estudo
Cercada por uma paisagem bastante modificada, a RPPN funciona praticamente como uma grande ilha de Mata Atlântica, condição que permite analisar os efeitos da fragmentação sobre diferentes grupos de animais e plantas ao longo do tempo.
Pesquisas de longa duração ajudam a documentar alterações populacionais e ecológicas que poderiam passar despercebidas em levantamentos pontuais, reforçando o valor científico de uma área onde conservação, monitoramento e formação de pesquisadores permanecem diretamente conectados.
As aves formam outro grupo expressivo dentro da propriedade, com 204 espécies registradas pela organização, número equivalente a mais da metade das espécies citadas para o Vale do Rio Doce no levantamento utilizado pela entidade.
Nos levantamentos realizados na área protegida, também foram catalogadas 37 espécies de anfíbios e 38 de répteis, incluindo 21 espécies de serpentes, enquanto entre os répteis presentes aparece a surucucu, associada a áreas de Mata Atlântica preservada.
Nos rios e afluentes relacionados à reserva, os registros reunidos pela entidade indicam 25 espécies de peixes, das quais 19 aparecem na região diretamente ligada à RPPN, ampliando a diversidade de grupos animais documentados na propriedade.
Essa variedade mostra que o território funciona como abrigo para diferentes componentes da fauna, e não apenas para os primatas que deram projeção científica ao local e ajudaram a transformar a reserva em referência para conservação.
Relevo, córregos e floresta formam diferentes ambientes
Em Minas Gerais, o relevo montanhoso contribui para a formação de diferentes ambientes dentro da propriedade, onde as altitudes variam de 318 a 628 metros e a reserva abriga trechos das sub-bacias dos córregos Jaó e Matão.
Predomina na área a Floresta Estacional Semidecidual, marcada por períodos secos e chuvosos bem definidos, enquanto nos vales dos córregos permanecem matas em melhor estado de conservação e, nas áreas mais altas, aparecem trechos de vegetação secundária.
Também existem setores de floresta jovem em regeneração e áreas dominadas por arbustos, ao passo que, nos pontos de dossel contínuo, árvores chegam a aproximadamente 25 metros de altura e exemplares emergentes podem superar 35 metros.
O que mais chama sua atenção nesse caso: a decisão de manter quase mil hectares sob proteção permanente ou o fato de uma única reserva abrigar a maior população conhecida de um dos primatas mais ameaçados da Mata Atlântica?
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

