Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

Faxineira que passou 10 anos varrendo as salas da escola onde estudou retomou o ensino médio após duas décadas, conquistou bolsa integral em Pedagogia, virou professora no mesmo prédio e, aos 49 anos, assumiu a cadeira de diretora em Juiz de Fora

Faxineira que passou 10 anos varrendo as salas da escola onde estudou retomou o ensino médio após duas décadas, conquistou bolsa integral em Pedagogia, virou professora no mesmo prédio e, aos 49 anos, assumiu a cadeira de diretora em Juiz de Fora

7 min de leitura

Faxineira que passou 10 anos varrendo as salas da escola onde estudou retomou o ensino médio após duas décadas, conquistou bolsa integral em Pedagogia, virou professora no mesmo prédio e, aos 49 anos, assumiu a cadeira de diretora em Juiz de Fora

Escrito por Alisson Ficher

Publicado em 02/08/2026 às 01:18

Atualizado em 02/08/2026 às 01:25

Curiosidades

Seja o primeiro a reagir!

Prefira o CPG no Google

Trajetória construída dentro da mesma escola reúne trabalho na limpeza, retorno aos estudos, formação universitária e ascensão profissional, em um percurso marcado por obstáculos sociais, esforço contínuo e mudanças de função que transformaram a relação de Cátia Rosa com a educação pública em Juiz de Fora.

Durante dez anos, Cátia Luciana Rosa Marcelo entrou nas salas da Escola Estadual Teodorico Ribeiro de Assis, em Juiz de Fora, para realizar serviços gerais, no mesmo prédio onde havia estudado durante a infância e onde começaria a reconstruir sua trajetória.

Enquanto varria as salas e acompanhava de perto a rotina dos professores, ela alimentava um desejo que ainda parecia distante: retomar os estudos interrompidos, concluir uma formação superior e trabalhar como educadora justamente naquele ambiente que conhecia por diferentes funções.

A mudança começou depois que Cátia perdeu o emprego de faxineira e encontrou, na Educação de Jovens e Adultos, a oportunidade de concluir o ensino médio, etapa que permanecera interrompida por cerca de duas décadas em razão do trabalho e das responsabilidades familiares.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

Nesse período afastada da escola, ela passou por malharias, fábricas de jeans, atividades de corte e costura e serviços de limpeza, sempre contribuindo para o sustento da família enquanto o projeto de voltar a estudar permanecia adiado, mas não abandonado.

Retorno aos estudos pela Educação de Jovens e Adultos

Segundo reportagem da RCWTV, Cátia frequentava as aulas entre 18h30 e 22h30 e fazia a pé o caminho até o local de estudo, enfrentando diariamente o trajeto depois de cumprir a jornada profissional e reorganizar a rotina adulta em torno da formação.

Mais do que concluir uma etapa escolar, o retorno representava a possibilidade concreta de disputar espaço na educação, área que ela observava havia anos do lado de quem cuidava da estrutura física, sem participar diretamente das decisões pedagógicas e da sala de aula.

Na formatura do ensino médio, uma instituição de ensino superior ligada ao projeto educacional anunciou dez bolsas integrais para os estudantes mais bem colocados, e Cátia ficou entre os contemplados, garantindo uma vaga no curso de Pedagogia sem pagar mensalidades.

Mesmo com a bolsa, a graduação exigiu novos sacrifícios, porque a falta de dinheiro para transporte fazia com que ela também percorresse a pé parte da distância até a faculdade, instalada na região central de Juiz de Fora.

Bolsa integral em Pedagogia abriu caminho para a carreira

Faxineira retoma os estudos, conquista bolsa em Pedagogia, vira professora e assume a direção da escola onde trabalhou em Juiz de Fora.

A oportunidade de cursar Pedagogia abriu uma nova etapa, mas não eliminou os obstáculos sociais que atravessavam sua experiência, especialmente porque Cátia, negra, pobre e moradora de uma comunidade periférica, relatou episódios de racismo entre colegas durante a graduação.

Em trabalhos acadêmicos, algumas estudantes se recusavam a dividir atividades com alunas negras, situação que provocou humilhação, desgaste emocional e chegou a fazê-la considerar a desistência, embora o objetivo de atuar na educação permanecesse mais forte do que a pressão sofrida.

O tema vivido na universidade também orientou sua formação acadêmica, já que Cátia escolheu abordar a educação para a igualdade étnico-racial no trabalho de conclusão do curso e recebeu nota máxima pela pesquisa apresentada ao final da graduação.

Ao conquistar o diploma, ela tornou-se a primeira pessoa da família a concluir uma universidade, rompendo uma sequência em que os estudos haviam sido interrompidos cedo pela necessidade de trabalhar e abrindo uma referência diferente para as gerações seguintes.

Da secretaria escolar para a sala de aula

Antes de assumir uma turma, Cátia passou por uma função administrativa na Escola Estadual Teodorico Ribeiro de Assis, onde trabalhou durante cinco anos na secretaria da unidade enquanto concluía a graduação e ampliava sua experiência com o funcionamento interno da escola.

O vínculo iniciado como aluna e retomado nos serviços gerais ganhava, naquele momento, uma nova dimensão, porque ela passou a acompanhar mais de perto os processos administrativos e pedagógicos que sustentavam a rotina escolar e preparavam o caminho para a docência.

Depois de concluir a formação, Cátia deixou o cargo de serviços gerais e foi designada para lecionar na mesma escola onde havia estudado e trabalhado como faxineira, mudando de posição dentro de um prédio que conhecia por perspectivas muito diferentes.

As salas que antes varria passaram a ser o espaço onde ensinava, acompanhava estudantes e colocava em prática a formação conquistada com a bolsa integral, transformando uma experiência de trabalho invisibilizado em participação direta no processo educacional.

Faxineira virou professora na mesma escola

A chegada ao magistério, porém, não encerrou sua progressão profissional, pois, depois de três anos como professora, surgiu uma vaga para a direção da escola e integrantes da comunidade escolar passaram a incentivá-la a disputar a função.

Para exercer o cargo, Cátia participou da certificação exigida e obteve aprovação máxima, resultado que lhe permitiu assumir, aos 49 anos, a direção da mesma unidade onde havia estudado, trabalhado na limpeza, atuado na secretaria e lecionado.

A cadeira de diretora representava o último degrau de uma trajetória construída dentro do mesmo espaço público, sem mudança repentina, mas por meio de etapas sucessivas de escolarização, trabalho, qualificação profissional e experiência acumulada em diferentes setores da instituição.

Direção escolar ampliou projetos e atividades

Na gestão, uma das ações registradas foi a retomada de cinco turmas em período integral e a manutenção de outras oito turmas regulares, ampliando o atendimento da escola e reorganizando atividades destinadas aos estudantes e à comunidade do entorno.

Além da estrutura regular, Cátia direcionou parte do trabalho para projetos de educação antirracista, valorização da identidade de crianças negras e ampliação das atividades oferecidas fora do horário convencional, aproximando a escola de experiências culturais e formativas mais diversas.

Entre as iniciativas desenvolvidas estavam capoeira, dança, teatro, práticas circenses, balé, percussão e samba, além de visitas a piscinas, cinemas, teatros, museus e parques, com o objetivo de ampliar o repertório dos estudantes atendidos pela unidade.

Essas atividades buscavam apresentar experiências que não faziam parte da rotina de muitas famílias do bairro, fortalecendo a relação entre escola e comunidade e oferecendo aos alunos oportunidades de aprendizagem que ultrapassavam o conteúdo tradicional das disciplinas.

O trabalho com referências negras também ganhou espaço, e profissionais de diferentes áreas, incluindo ex-alunos, foram convidados a conversar com estudantes e familiares sobre suas trajetórias, apresentando exemplos concretos de formação, carreira e presença social.

Advogados, policiais, professores, dentistas, contadores, religiosos, engenheiros e artistas participaram dos encontros, ampliando o repertório profissional dos estudantes e mostrando caminhos ligados à educação, ao trabalho qualificado e à valorização de identidades historicamente pouco representadas.

Incentivo familiar acompanhou a mudança de vida

A história familiar acompanhou cada mudança, porque o pai de Cátia, auxiliar de serviços e copeiro, incentivava a leitura e levava livros e revistas para os filhos, embora ele e a mãe não tivessem concluído o ensino fundamental.

Já adulta, ela viu a própria mãe retomar o ensino médio aos 70 anos, movimento que repetia, em outra etapa da vida, a decisão tomada pela filha ao retornar à escola depois de cerca de duas décadas afastada dos estudos.

O reconhecimento pela atuação na educação ultrapassou os limites da unidade, e Cátia recebeu uma moção de aplauso da Câmara Municipal de Juiz de Fora por sua carreira e pelo trabalho realizado como diretora da Escola Estadual Teodorico Ribeiro de Assis.

Para a mãe, a transformação mais marcante continuava visível dentro do mesmo prédio, porque a filha que havia trabalhado na faxina, enfrentado dificuldades para estudar e começado pela base agora comandava a escola onde construiu toda a trajetória profissional.

Quantas pessoas que hoje cuidam da limpeza, da cozinha ou da manutenção de uma escola poderiam chegar à sala de aula e à direção se encontrassem oportunidades semelhantes de formação, apoio institucional e acesso contínuo à educação?


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

Sair da versão mobile