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Filha de agricultores e caçula de oito irmãos da zona rural, uma jovem de 18 anos passou em Enfermagem numa universidade federal sem fazer cursinho, seguindo o caminho dos irmãos mais velhos que também entraram em universidades públicas
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 03/08/2026 às 07:52
Atualizado em 03/08/2026 às 07:53
Curiosidades
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Lara Soares de Sousa nasceu no Sítio São José, em Cascavel, e se mudou para Fortaleza para cursar o ensino médio na Escola Adauto Bezerra, morando com um irmão. Ela conciliou o curso técnico com a preparação para o Enem e não teve segunda opção de curso.
A aprovação em Enfermagem na Universidade Federal do Ceará foi conquistada por Lara Soares de Sousa, de 18 anos, egressa da Escola de Ensino Médio Adauto Bezerra, em Fortaleza, conforme reportagem publicada em 5 de março de 2026 pelo jornal O Povo. Ela é filha de agricultores e nasceu no Sítio São José, na zona rural de Cascavel, no Ceará.
O resultado dela integra um conjunto maior. Mais de 300 estudantes da turma de 2025 da mesma escola foram aprovados em universidades públicas e particulares, e as conquistas foram celebradas em solenidade realizada no sábado, 28 de fevereiro de 2026, na capital cearense.
Sete irmãos mais velhos e um mesmo caminho
O ambiente familiar aparece no relato dela como o primeiro fator de estímulo. São oito filhos ao todo, e ela é a caçula, o que significa que cresceu observando o percurso de sete irmãos mais velhos.
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O exemplo veio de dentro de casa e de forma consistente. Segundo o relato dela, houve influência permanente para que todos estudassem e tentassem a universidade, e o irmão mais velho abriu esse caminho ao entrar na Universidade Estadual do Ceará. Outra irmã ingressou na federal, e há ainda uma que segue fazendo cursos e estudando.
Ela resume esse ambiente de forma direta: são vários exemplos dentro de casa que acabam despertando a mesma vontade em quem vem depois. Quando o ensino superior deixa de ser abstração e vira rotina de irmão que já passou, a distância entre querer e tentar diminui muito.
A escolha da escola e a mudança para a capital
A primeira decisão importante veio ao final do 9º ano do ensino fundamental, quando ela precisou definir onde faria o ensino médio.
Ela chegou a considerar instituições com ensino técnico, mas preferiu não arriscar, porque ainda não tinha definido qual carreira seguir. Foi então que recebeu do irmão a indicação da escola na capital.
A mudança exigiu deslocamento e reorganização familiar. Selecionada pela unidade escolar, ela deixou a zona rural de Cascavel e passou a morar em Fortaleza, na casa do irmão. Sair de casa aos 15 anos para estudar em outra cidade é uma decisão que envolve a família inteira, e não apenas a estudante.
O choque de chegar e não saber o que era o Sisu
O relato mais revelador sobre desigualdade educacional está na descrição da chegada à nova escola. Ela conta que aquilo era outro mundo, com colegas que já pensavam em faculdade havia muito tempo, já sabiam qual profissão queriam e conheciam os cursos disponíveis.
O ponto que ela destaca é o próprio desconhecimento sobre o sistema de ingresso. Ela não sabia sequer como funcionava o Sistema de Seleção Unificada, mecanismo que distribui vagas em universidades públicas a partir da nota do Exame Nacional do Ensino Médio.
Quem preencheu essa lacuna foram os colegas. Foram os amigos feitos ali que lhe explicaram o funcionamento do processo. Informação sobre como se inscrever é uma barreira concreta e pouco discutida, porque quem não conhece o mecanismo pode ter nota suficiente e ainda assim ficar de fora por não saber usar o sistema.
Enfermagem ou Enfermagem
A definição do curso aconteceu logo no primeiro ano do ensino médio, e ela descreve o processo como uma convergência de fatores.
O contato com colegas que compartilhavam o interesse pela área de saúde e o incentivo dos professores consolidaram a escolha. A partir daí, não houve dúvida: ela afirma que fechou a decisão por Enfermagem e não chegou a considerar nenhuma segunda opção.
Essa determinação teve consequência prática no planejamento. Antes mesmo de iniciar a graduação, ela passou a cursar o técnico na área dois dias por semana, conciliando com os estudos regulares. Escolher cedo permite construir repertório antes do vestibular, e a formação técnica funciona como reforço de conteúdo e como confirmação da afinidade com a profissão.
A rotina que sobrou para estudar
O calendário dela durante o ensino médio combinava três frentes ao mesmo tempo. Havia as aulas regulares, o curso técnico em dois dias da semana e a preparação para o exame nacional.
O tempo destinado a essa preparação era o que restava. Segundo o próprio relato, ela aproveitava o pouco tempo livre disponível para estudar para a prova.
Não houve cursinho preparatório em nenhum momento, e toda a formação básica foi cursada em escolas públicas. A preparação aconteceu nas sobras da agenda, sem estrutura paga de apoio e sem tempo dedicado exclusivamente ao vestibular.
A reprovação por dois pontos que quase encerrou a tentativa
Antes do resultado positivo houve uma frustração concreta e recente. Ela prestou o vestibular da Universidade Estadual do Ceará no início de 2025 e não foi aprovada, ficando dois pontos abaixo da nota de corte.
A margem apertada tornou o episódio mais difícil. Ela relata ter se perguntado se valia a pena continuar tentando, e a dúvida vinha acompanhada de uma comparação específica: estava concorrendo com pessoas que estudaram em escola particular desde o fundamental ou que só migraram para a rede pública no ensino médio.
Esse tipo de comparação costuma pesar mais do que a nota em si. Perder por dois pontos não é distância de conhecimento, é distância de preparação, e reconhecer isso é o que costuma levar candidatos a desistir depois da primeira tentativa. Ela decidiu continuar.
O sorteio de vagas e o diretor que puxou o número dela
Existe um episódio na entrada dela na escola que ganhou peso simbólico depois. Como vinha de outra cidade, precisou participar de um sorteio de vagas, método usado tradicionalmente pela unidade por causa da alta concorrência e que dá preferência a alunos da própria cidade.
Quem conduziu o sorteio e retirou o número dela foi o professor Otacílio Bessa, então diretor da escola. Segundo o relato dela, ele disse na ocasião que, independentemente do resultado, ela conseguiria, porque havia muita gente querendo a vaga, mas ela também tinha muita vontade.
A lembrança dele emociona a estudante. Ela o descreve como alguém que marcou a vida de muita gente e que parecia não ter apenas 24 horas no dia, dando a impressão de que seu dia era infinito. Se ele prometesse ajudar em alguma coisa, não era preciso se preocupar com esquecimento ou falta de tempo, segundo o relato dela.
O professor Otacílio Bessa morreu em junho de 2024, vítima de um câncer na região do pescoço, sem ver a aprovação da estudante cujo número ele havia sorteado.
O que a aprovação representa para ela
O sentimento descrito por ela ao ver o nome na lista combina alívio e realização. Ela afirma que conseguir é surreal e que uma conquista vinda da escola pública carrega significado maior.
A frase com que resume o momento é simples e direta: agora já pode dizer que é universitária, observação que ela faz entre risos.
Vale registrar o que essa aprovação representa em termos de percurso familiar. Ela é a mais nova de oito irmãos em uma família de agricultores, e o ensino superior público deixou de ser exceção naquela casa para se tornar padrão. A dificuldade de acesso, no entanto, não diminuiu por isso, como demonstra a reprovação por dois pontos no ano anterior.
O que a reportagem não informa
Alguns pontos ficam em aberto na apuração e ajudariam a dimensionar melhor o caso. Não há informação sobre a nota obtida no exame, sobre a modalidade de ingresso utilizada nem sobre eventual uso de cota para egressos de escola pública.
Também não consta quantos dos sete irmãos concluíram efetivamente a graduação, nem em quais cursos, o que permitiria avaliar o alcance real do percurso familiar descrito.
Da mesma forma, não há detalhes sobre o início das aulas, sobre o campus onde ela cursará a graduação ou sobre eventual necessidade de auxílio de permanência estudantil. São informações que interessariam a quem está no mesmo caminho, e que a cobertura não alcançou.
Da zona rural de Cascavel ao curso mais concorrido da vida dela
O percurso completo cobre poucos anos, mas atravessa duas realidades bem distintas. De um sítio na zona rural, ela foi para uma escola da capital em que os colegas já discutiam profissão desde cedo, e precisou correr atrás de uma informação que os outros já tinham.
O que sustentou essa travessia não foi um único elemento. Foi a combinação entre exemplo familiar, indicação de um irmão, seleção para a escola, colegas que explicaram o funcionamento do sistema, professores que incentivaram a escolha da área e um curso técnico que ela decidiu fazer em paralelo.
Nenhuma dessas peças é extraordinária isoladamente. O que faz diferença é encontrar todas elas no mesmo período da vida, e boa parte dos estudantes na mesma situação encontra apenas uma ou duas.
E você, sabia como funcionava o sistema de ingresso nas universidades públicas quando estava no ensino médio? Acha que a falta de informação atrapalha tanto quanto a falta de estudo? Conta nos comentários quem te explicou o caminho quando você precisou.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

