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Filha de cortadores de cana trabalhou como doméstica desde criança, lavou roupas por R$5, dividiu sandálias com sete irmãos e, após anos de dificuldades, virou advogada criminal

Filha de cortadores de cana trabalhou como doméstica desde criança, lavou roupas por R$5, dividiu sandálias com sete irmãos e, após anos de dificuldades, virou advogada criminal

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6 min de leitura

Filha de cortadores de cana trabalhou como doméstica desde criança, lavou roupas por R$5, dividiu sandálias com sete irmãos e, após anos de dificuldades, virou advogada criminal

Escrito por Caio Aviz

Publicado em 26/08/2026 às 17:57

Atualizado em 26/08/2026 às 17:58

Legislação e Direito

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Imagem ilustrativa representa a trajetória de Luana Camilo, filha de cortadores de cana que trabalhou desde criança, cursou Direito e se tornou advogada em 2019.

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Luana Camilo cresceu no Distrito Branca, em Atalaia, trabalhou como doméstica, vendedora e auxiliar administrativa até concluir Direito e conquistar a advocacia.

Em 2019, Luana Camilo, natural do Distrito Branca, em Atalaia, alcançou uma conquista que durante anos pareceu distante da realidade em que cresceu. Filha de cortadores de cana e integrante de uma família com oito irmãos, ela concluiu Direito e se tornou advogada depois de uma trajetória marcada por trabalho desde a infância e dificuldades financeiras.

A história ganhou repercussão em março de 2023, quando o Portal Eufêmea publicou uma entrevista assinada pela colunista Melina Lopes. No relato, Luana descreveu desde os primeiros trabalhos realizados ainda criança até o período em que precisou conciliar emprego, faculdade e falta de dinheiro para continuar estudando.

O estudo acabou se tornando o principal caminho para mudar sua trajetória. Antes de chegar à advocacia criminal, porém, Luana trabalhou em diferentes atividades, enfrentou limitações dentro de casa e contou com ajuda de familiares e amigas para conseguir permanecer na graduação.

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Luana começou a trabalhar ainda criança para comprar material escolar e ajudar dentro de casa

A infância de Luana foi vivida em uma família de poucos recursos. Seus pais eram cortadores de cana e analfabetos, enquanto os oito filhos precisavam organizar a rotina para conseguir estudar e contribuir com as necessidades da casa.

Segundo o relato publicado, Luana começou cedo a fazer pequenos serviços para moradores do povoado onde cresceu. Ela lavava roupas por R$ 5, limpava quintais e, em algumas ocasiões, recebia roupas como pagamento pelo trabalho realizado.

Nas férias de São João e de dezembro, o trabalho também fazia parte da rotina. Luana seguia com outras meninas para casas da região litorânea e buscava dinheiro para comprar um caderno, uma calça jeans e ainda deixar algum valor para ajudar a família.

Mais do que complementar a renda doméstica, esses pequenos serviços permitiam que ela tivesse acesso a itens básicos que não estavam sempre disponíveis em casa. A necessidade de trabalhar, portanto, apareceu muito antes da escolha por uma profissão.

Oito irmãos precisavam dividir roupas e sandálias para conseguir frequentar a escola

A falta de recursos também influenciava diretamente a rotina escolar da família. Luana contou que não havia calçados suficientes para que todos os irmãos fossem para a escola no mesmo horário.

A solução encontrada dentro de casa era simples. Os irmãos mais velhos estudavam pela manhã e, quando voltavam, os mais novos utilizavam as mesmas roupas e sandálias para frequentar as aulas durante a tarde.

Mesmo sem escolarização, a mãe de Luana queria que os filhos aprendessem a ler. Como os pais saíam ainda de madrugada para cortar cana, o irmão mais velho ficava encarregado de garantir que os demais seguissem para a escola.

Foi nesse ambiente que o estudo começou a ocupar um lugar central na trajetória da futura advogada. Apesar das limitações materiais, continuar frequentando as aulas permaneceu como uma prioridade dentro da família.

Luana Camilo em ambiente profissional ao lado de representantes da área jurídica.

Trabalho no comércio e ajuda do chefe abriram caminho para a faculdade de Direito

Com o passar dos anos, Luana deixou os pequenos serviços realizados durante a infância e começou a trabalhar no comércio. Ela atuou como vendedora, passou pela função de auxiliar administrativa e conseguiu uma promoção depois de se destacar profissionalmente.

Nesse período, também começou a prestar vestibulares. As notas permitiam a entrada em diferentes cursos, mas o ingresso em Direito ainda não havia acontecido.

A possibilidade de iniciar a graduação ganhou força quando um de seus chefes se ofereceu para pagar metade da mensalidade da faculdade. A ajuda abriu caminho para uma formação que continuaria cercada por dificuldades financeiras.

Mesmo depois de entrar no curso, Luana precisou continuar trabalhando. Em outra fase, passou a atuar como vendedora em um shopping enquanto tentava manter as despesas da graduação e da própria sobrevivência.

Durante a faculdade, Luana chegou a escolher entre pagar aluguel ou comprar comida

A entrada no curso de Direito não significou estabilidade financeira. Luana contou que houve momentos em que precisava decidir entre pagar o aluguel e comprar comida, enquanto seguia trabalhando para manter a faculdade.

A família voltou a ter papel importante nessa etapa. Sua mãe levava compras de alimentos, enquanto amigas apareciam com comida e ajudavam a reduzir algumas das despesas mais urgentes.

Foi dessa maneira, pouco a pouco, que Luana conseguiu continuar pagando a graduação. O curso avançava ao mesmo tempo em que ela trabalhava e tentava manter as próprias contas em dia.

O esforço prolongou uma rotina que já vinha desde a infância. A diferença era que, naquele momento, cada dificuldade estava ligada a um objetivo definido: concluir Direito e conquistar espaço profissional na área jurídica.

Luana voltou para a casa dos pais, estudou para a OAB e se tornou advogada em 2019

Depois da graduação, Luana decidiu voltar para a casa dos pais para estudar para a Ordem dos Advogados do Brasil, a OAB. O retorno permitiu que ela concentrasse os esforços na etapa necessária para exercer a profissão.

Em 2019, o objetivo foi alcançado. Luana se tornou advogada, encerrando uma trajetória acadêmica construída enquanto trabalhava e enfrentava dificuldades para custear a própria formação.

A conquista também teve peso especial para a família. Segundo Luana, seu pai chegou a ser chamado de “iludido” por dizer no interior que a filha um dia seria advogada.

O reconhecimento profissional, no entanto, não eliminou todas as dificuldades. Na entrevista, ela também afirmou ter sido diminuída por colegas advogados do interior depois de ingressar na profissão.

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Caio Aviz

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Curso de Direito fez Luana compreender episódios de violência vividos durante a infância e adolescência

A graduação também mudou a forma como Luana compreendia experiências anteriores de sua vida. Durante o curso, ela passou a estudar legislação e crimes sexuais e começou a reconhecer juridicamente situações que havia vivenciado.

Segundo o relato, foi já na vida adulta que ela tomou dimensão de episódios de assédio, violência emocional e violência sexual sofridos durante a infância e a adolescência.

As aulas relacionadas a esses temas provocavam lembranças fortes. O conhecimento jurídico permitiu que Luana identificasse como crimes determinadas situações que, quando aconteceram, ainda não eram compreendidas por ela dessa forma.

Essa percepção passou a integrar também a maneira como a advogada interpreta a própria trajetória. A formação profissional não representou apenas uma mudança de carreira, mas também uma nova leitura sobre experiências vividas muitos anos antes.

De empregada doméstica a advogada criminal, trajetória virou motivo de orgulho para a família

A história de Luana reúne diferentes etapas de uma mesma trajetória. Ela começou fazendo pequenos trabalhos ainda criança, passou pelo comércio, atuou como auxiliar administrativa e continuou trabalhando enquanto cursava Direito.

O caminho até a advocacia foi sustentado pelo estudo, mas também pela ajuda recebida em momentos de maior dificuldade. A mãe contribuía com alimentos, amigas levavam refeições e um antigo chefe ajudou com parte das mensalidades da faculdade.

Ao recordar o passado, Luana afirmou que poderia ter seguido um caminho completamente diferente diante de tudo que viveu. Em sua avaliação, as experiências enfrentadas poderiam tê-la aproximado da condição de cliente da área criminal, em vez de profissional do Direito.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Caio Aviz.

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