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Filha de dona de casa e aplicador de insulfilm, jovem de 17 anos acordava às 5h, estudava em três turnos e convivia com uma doença rara até conquistar Medicina na Ufal e se tornar a primeira aluna da escola aprovada no curso
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 05/08/2026 às 23:43
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Rotina dividida entre escola pública, cursinho e estudos noturnos levou uma jovem de 17 anos a conquistar uma vaga em Medicina, enquanto uma doença rara, limitações financeiras e a necessidade de mudar de estado transformaram a aprovação em um desafio compartilhado por toda a família.
Filha de uma dona de casa e de um aplicador de insulfilm, Isadora Cristina Pinheiro conquistou aos 17 anos uma vaga no curso de Medicina da Universidade Federal de Alagoas, após conciliar escola pública, cursinho preparatório e estudos realizados em casa.
Além de garantir o ingresso em uma das graduações mais disputadas do país, a aprovação fez com que a jovem se tornasse a primeira aluna da Escola Estadual de Ensino Médio Dr. César Cals, em Fortaleza, a conquistar uma vaga em Medicina.
A confirmação do resultado ocorreu enquanto Isadora estava dentro de um carro de aplicativo, a caminho do ensaio de formatura, momento em que colegas insistiram para que ela consultasse a classificação divulgada pelo Sistema de Seleção Unificado.
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Como não acreditava que conseguiria a vaga naquele processo seletivo, a estudante evitava acessar a página do Sisu, mas a descoberta da aprovação provocou comemorações imediatas entre amigos, professores e familiares que haviam acompanhado sua preparação.
Aprovação em Medicina veio após uma rotina de três turnos
Marcada por desafios acadêmicos, financeiros e pessoais, a trajetória de Isadora também foi influenciada pela convivência com osteocondromatose múltipla, uma doença rara e hereditária que afeta os ossos e exige acompanhamento médico desde a infância.
O contato frequente com consultas, tratamentos e profissionais da saúde ajudou a despertar seu interesse pela Medicina, além de aproximá-la da ortopedia, especialidade na qual pretende atuar depois de concluir a graduação e obter a formação necessária.
Durante o período de preparação para o processo seletivo, a condição de saúde continuou interferindo em sua rotina, principalmente nos dias em que as dores dificultavam os deslocamentos entre a escola, o cursinho e a residência da família.
Mesmo diante desses episódios, que exigiam pausas e momentos de repouso antes da retomada das atividades, Isadora manteve o plano de disputar uma vaga em um curso conhecido pelas notas elevadas e pela intensa concorrência entre candidatos.
A jornada diária começava por volta das 5h, horário em que a estudante se preparava para chegar à escola às 6h30 e cumprir as aulas do último ano do ensino médio até aproximadamente 12h30.
Encerrado o turno escolar, ela seguia diretamente para um curso preparatório, onde almoçava e permanecia durante a tarde, dividindo o tempo entre explicações de conteúdo, resolução de exercícios, produção de redações e revisão das disciplinas cobradas nas provas.
Ao retornar para casa no início da noite, a preparação ainda não estava concluída, porque Isadora fazia uma pausa breve, tomava banho e retomava leituras, trabalhos escolares e revisões até aproximadamente 21h30.
Dessa forma, os estudos ocupavam manhã, tarde e noite, enquanto a jovem também precisava administrar os sintomas da doença, o cansaço acumulado e os deslocamentos diários necessários para cumprir todas as etapas da preparação.
Família enfrentou dificuldades para manter a preparação
Segundo o Diário do Nordeste, fonte principal da trajetória, a família encontrou dificuldades para pagar a preparação complementar, levando parentes a contribuírem com parte dos custos durante um dos períodos em que Isadora frequentou o cursinho.
Posteriormente, a estudante recebeu um desconto expressivo na mensalidade, condição que permitiu a continuidade das aulas sem tornar a despesa totalmente incompatível com o orçamento mantido pelo trabalho dos pais e pelos recursos disponíveis dentro de casa.
A mãe, Isabel Cristina, acompanhou de perto o esforço da filha e sustentou o sonho construído desde a infância, enquanto o pai, Júnior Rodrigues, que trabalhava como aplicador de insulfilm, participou da reorganização familiar exigida pela aprovação.
Com a conquista da vaga na Ufal, surgiu imediatamente a necessidade de deixar Fortaleza e estabelecer residência em Maceió, já que a graduação seria presencial e Isadora nunca havia viajado para fora do Ceará antes daquele momento.
Diante da mudança, os pais e a avó decidiram acompanhá-la, escolha que ampliou o desafio financeiro porque o deslocamento não envolveria somente a estudante, mas toda a família e as despesas necessárias para começar uma nova vida.
Mudança para Maceió trouxe um novo obstáculo
Depois de a vaga estar garantida, a falta de recursos suficientes para pagar a viagem e os primeiros meses de permanência em Maceió criou outra dificuldade, justamente quando a etapa mais competitiva do processo seletivo já havia sido superada.
Professores, colegas e integrantes do cursinho organizaram uma campanha de arrecadação para ajudar nas despesas iniciais, repetindo a mobilização que havia acompanhado Isadora durante a preparação e ajudado a manter seu projeto acadêmico em andamento.
A iniciativa não substituiu o planejamento realizado pela família, pois Júnior Rodrigues esperava começar um emprego em Maceió, embora a data prevista para o início do trabalho não coincidisse com o período de convocação da filha pela universidade.
Essa diferença entre os prazos criou uma fase em que seria necessário custear transporte, moradia e alimentação antes da entrada de uma nova renda, tornando a permanência universitária um desafio tão concreto quanto a conquista da própria vaga.
Nesse contexto, a trajetória mostrou uma etapa que nem sempre recebe destaque nas histórias de aprovação: ser selecionado para uma universidade não significa possuir automaticamente os recursos necessários para frequentar o curso e permanecer em outra cidade.
Para uma família com orçamento limitado, a distância entre Fortaleza e Maceió transformou matrícula, deslocamento, moradia e manutenção em novas barreiras, mesmo depois de Isadora alcançar o resultado acadêmico que havia buscado durante todo o ensino médio.
Primeira aprovação em Medicina marcou a escola pública
Dentro da Escola Dr. César Cals, a classificação ganhou uma dimensão coletiva, porque a instituição já registrava aprovações de estudantes por meio do Enem, mas ainda não havia celebrado o ingresso de uma aluna no curso de Medicina.
Professores que conheciam o objetivo de Isadora acompanharam sua preparação, ofereceram incentivo e ajudaram a preservar o projeto quando as limitações financeiras, o desgaste físico e as exigências da rotina tornavam a continuidade dos estudos mais difícil.
Ao compartilhar com pessoas próximas o desejo de se tornar médica, a estudante encontrou uma rede disposta a contribuir com orientação, descontos, incentivo e mobilização, criando condições para que seu desempenho não fosse interrompido por obstáculos externos.
Esse apoio não reduziu as exigências acadêmicas enfrentadas pela jovem, mas permitiu que as horas de estudo, as atividades escolares e a preparação complementar fossem mantidas até a divulgação do resultado que garantiu sua entrada na universidade.
Experiência como paciente despertou interesse pela ortopedia
O interesse de Isadora pela ortopedia permanece diretamente relacionado à própria experiência como paciente, já que consultas, tratamentos e contato com profissionais especializados fizeram parte de sua rotina desde a infância e influenciaram a escolha da carreira.
Entre seus planos profissionais está a possibilidade de retornar a Fortaleza depois da formação e trabalhar no Instituto Dr. José Frota, unidade conhecida pelo atendimento de urgência e trauma realizado na capital cearense.
A aprovação também rompeu uma referência dentro do ambiente escolar, pois Isadora não havia convivido de perto com outra pessoa da mesma escola que tivesse conseguido ingressar em Medicina antes de sua classificação pela Ufal.
Depois de ocupar a vaga, a jovem passou a representar uma possibilidade concreta para estudantes da rede pública que enfrentam rotinas semelhantes e procuram caminhos para disputar cursos tradicionalmente associados a alta concorrência e longos períodos de preparação.
O desempenho no Sisu foi alcançado enquanto Isadora ainda concluía o ensino médio, sem um intervalo exclusivo para frequentar cursinho ou se afastar das obrigações escolares exigidas durante o último ano da educação básica.
Assim, aulas pela manhã, preparação durante a tarde e revisões noturnas formaram uma sequência mantida até a divulgação do resultado, mesmo diante das dores, das limitações financeiras e da incerteza sobre a mudança necessária para iniciar a graduação.
Para os pais, a notícia representou a conquista da filha e a necessidade de reorganizar a vida em outra cidade; para a escola, marcou a primeira aprovação no curso; para Isadora, abriu o caminho para uma profissão ligada à própria história.
Quantos outros estudantes da rede pública poderiam alcançar cursos altamente disputados caso encontrassem apoio acadêmico, financeiro e familiar suficiente para sustentar seus projetos?
Fonte
https://www.opovo.com.br/
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

