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Filha de pedreiro e boia-fria, jovem saiu do interior sem dinheiro nem para ônibus, chegou a ficar 6 meses sem água e luz, trabalhava das 12h às 21h e estudava de madrugada até conquistar Medicina em uma Universidade Federal

Filha de pedreiro e boia-fria, jovem saiu do interior sem dinheiro nem para ônibus, chegou a ficar 6 meses sem água e luz, trabalhava das 12h às 21h e estudava de madrugada até conquistar Medicina em uma Universidade Federal

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Filha de pedreiro e boia-fria, jovem saiu do interior sem dinheiro nem para ônibus, chegou a ficar 6 meses sem água e luz, trabalhava das 12h às 21h e estudava de madrugada até conquistar Medicina em uma Universidade Federal

Escrito por Alisson Ficher

Publicado em 09/08/2026 às 23:55

Atualizado em 09/08/2026 às 23:56

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Rotina dividida entre trabalho, dificuldades financeiras e estudo noturno marcou o caminho de uma jovem do interior mineiro que buscava uma vaga em um dos cursos mais disputados do país, enfrentando limitações materiais e contando com apoio pontual de professores durante a preparação acadêmica.

Filha de um pedreiro e de uma trabalhadora boia-fria, Isabella Maria da Silva deixou a cidade de Bom Sucesso, no interior de Minas Gerais, em busca de condições para disputar uma vaga em Medicina.

Sem dinheiro sequer para pagar ônibus no início da preparação, enfrentou dificuldades financeiras severas, passou por diferentes empregos e reservou parte da madrugada para estudar até ingressar no curso de Medicina da Universidade Federal de São João del-Rei, a UFSJ.

Relatada pela própria estudante ao UOL Universa, a trajetória começou em uma família de cinco irmãos, na qual os recursos disponíveis eram limitados.

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Como os pais haviam começado a trabalhar ainda muito jovens, sustentar financeiramente a preparação para um dos cursos mais concorridos do país estava longe de ser uma tarefa simples.

Interesse pela Medicina surgiu ainda no ensino médio

O interesse pela Medicina também se relacionava à própria história de Isabella.

Durante o nascimento, ela sofreu uma lesão no plexo braquial, região ligada aos movimentos e à sensibilidade do braço, e a consequência foi uma limitação de movimento que a tornou pessoa com deficiência e despertou, ao longo dos anos, questionamentos sobre a área médica.

Ainda no ensino médio, a possibilidade de seguir a profissão ganhou força.

Para aproximar o objetivo das condições necessárias para alcançá-lo, Isabella decidiu acompanhar um dos irmãos até Divinópolis, onde acreditava que teria mais oportunidades para trabalhar e tentar conseguir uma bolsa em um curso preparatório.

Mudança para Divinópolis trouxe dificuldades financeiras

Ao chegar à nova cidade, porém, encontrou um cenário financeiro delicado.

O irmão trabalhava como pedreiro, mas ainda não possuía uma rede consolidada de clientes e, segundo Isabella, os dois chegaram a passar seis meses sem fornecimento de água e energia elétrica em casa enquanto tentavam reorganizar a vida.

Nesse período, até despesas básicas pesavam no orçamento.

Sem dinheiro para utilizar ônibus, a estudante fazia suas refeições em casa e dormia em um sofá porque não possuía quarto próprio; com o uso constante, o móvel chegou a se desgastar justamente no local onde ela costumava dormir, tornando-se uma lembrança concreta daquela fase.

Bolsa em cursinho e apoio de professores reforçaram preparação

Algum avanço na preparação para os vestibulares ocorreu quando Isabella conseguiu uma bolsa de 80% em um cursinho.

Os 20% restantes, equivalentes a cerca de R$ 120 naquele período, eram pagos com ajuda do pai, e uma condição semelhante voltou a ser obtida quando ela mudou posteriormente de curso preparatório.

A situação também chegou ao conhecimento de professores da cidade.

Três deles passaram a oferecer aulas particulares gratuitamente depois de saberem que Isabella pretendia cursar Medicina, mas não possuía dinheiro suficiente para investir na preparação necessária.

Trabalho das 12h às 21h dividia espaço com estudo de madrugada

Enquanto avançava nos estudos, a necessidade de obter renda continuava presente.

Isabella trabalhou como vendedora de sapatos e atendente de telemarketing até conseguir uma vaga em uma assessoria de cobrança, onde permaneceu por meses e chegou a ser promovida.

Foi nessa atividade que a rotina se tornou especialmente pesada: o expediente começava ao meio-dia e terminava às 21h.

Depois de deixar o trabalho e retornar para casa, Isabella ainda abria os materiais e continuava estudando durante a madrugada para tentar alcançar a pontuação necessária para Medicina.

O acúmulo de responsabilidades também afetou seu bem-estar.

Em relato ao UOL Universa, ela descreveu aquele período como muito difícil para sua saúde mental, embora tenha continuado a conciliar a preparação acadêmica com as responsabilidades financeiras presentes em sua rotina.

Às dificuldades econômicas somaram-se situações relacionadas à origem social, à deficiência e ao fato de Isabella ser uma mulher negra.

Conforme contou, ouviu mais de uma vez que Medicina não seria uma profissão destinada a pessoas pobres e também viveu episódios em que sua condição de estudante do curso foi colocada em dúvida.

Essas experiências contrastavam com o objetivo perseguido desde a adolescência.

Para Isabella, entrar na universidade significava não apenas alcançar o curso desejado, mas também ocupar um espaço acadêmico pouco presente na história de sua família.

Aprovação levou Isabella à Medicina na UFSJ

Depois de anos conciliando preparação, trabalho e dificuldades domésticas, a aprovação levou a estudante à Universidade Federal de São João del-Rei.

Quando apresentou sua trajetória ao UOL Universa, ela estava no nono período de Medicina, já em uma etapa avançada da graduação que havia buscado por tanto tempo.

Dentro da família, o ingresso no curso também representou uma mudança importante.

Isabella se preparava para ser a primeira médica entre seus parentes e associava a conquista às oportunidades educacionais que gerações anteriores não haviam conseguido acessar, embora seus pais tivessem trabalhado desde a adolescência.

Projeto destacou presença de mulheres negras na Medicina

Já durante a graduação, ela criou nas redes sociais o projeto Negritude de Jaleco, voltado à presença de mulheres negras na Medicina e à divulgação de experiências acadêmicas e profissionais.

A iniciativa surgiu, segundo Isabella, da percepção de que havia pouca representação de mulheres pretas produzindo conteúdo sobre a área.

Mesmo em uma fase avançada do curso quando relatou sua história, a estudante ainda não havia definido qual especialidade médica pretendia seguir.

A escolha permanecia em aberto enquanto avançava na formação que, anos antes, parecia distante de sua realidade financeira.

Antes de chegar à universidade, Isabella viveu uma rotina que reuniu meses sem água e energia elétrica, falta de dinheiro para transporte, noites em um sofá, diferentes empregos, expediente até as 21h e estudos durante a madrugada.

Todos esses episódios, relatados pela própria estudante, fizeram parte do percurso até seu ingresso em uma universidade federal.

Quantos estudantes com capacidade para chegar a cursos altamente concorridos ainda enfrentam hoje obstáculos financeiros semelhantes antes mesmo de conseguir disputar uma vaga em condições mais equilibradas?


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

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