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Filho de carroceiro e lavadeira trabalhou como engraxate, virou office boy do Banco do Brasil aos 14, ajudou a pagar água e luz de casa antes dos 15, entrou em Direito na UFG sem cursinho, estudou por conta própria, passou para promotor, recusou a posse, virou juiz e 30 anos depois chegou a desembargador em Goiás
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 12/08/2026 às 17:37
Atualizado em 12/08/2026 às 17:38
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Trajetória marcada por trabalho precoce, estudo independente e sucessivas escolhas profissionais mostra como um jovem de origem humilde atravessou diferentes ocupações, ingressou no serviço público e construiu uma carreira jurídica de destaque após uma sequência de decisões que mudou completamente sua vida.
Antes de chegar a uma das posições mais altas da Justiça de Goiás, Heber Carlos de Oliveira percorreu uma trajetória marcada pelo trabalho desde a adolescência, pela ajuda direta nas despesas da família e por sucessivas mudanças profissionais ao longo dos anos.
Filho de carroceiro e de lavadeira e costureira, ele trabalhou como engraxate, entrou no Banco do Brasil como office boy aos 14 anos e, mais tarde, retornou à instituição por concurso público antes de ingressar em Direito na Universidade Federal de Goiás sem cursinho preparatório.
Depois da graduação, a preparação para concursos passou a ocupar uma parte importante de sua rotina, período em que Heber estudou por conta própria, foi aprovado para promotor de Justiça e decidiu não tomar posse porque pretendia seguir carreira na magistratura.
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Pouco depois, conseguiu aprovação para juiz, iniciou a carreira no Judiciário goiano e, após três décadas de atuação na magistratura, alcançou o cargo de desembargador, completando uma trajetória profissional que havia começado muito antes de sua formação em Direito.
O próprio magistrado relatou essa trajetória em material biográfico publicado pela Associação dos Magistrados do Estado de Goiás, a ASMEGO, fonte principal desta reportagem, que também registra sua chegada ao cargo de desembargador depois de uma longa carreira iniciada no primeiro grau.
Filho de carroceiro e lavadeira começou a trabalhar ainda na escola
Natural de Jataí, no sudoeste de Goiás, Heber nasceu em uma família de três filhos, enquanto o pai, José Francisco de Oliveira, trabalhava como carroceiro fazendo fretes e entregando pães para uma padaria, e a mãe, Benvinda Rodrigues de Oliveira, atuava como lavadeira e costureira.
Quando a família deixou Jataí e se mudou para Goiânia, os filhos ainda eram crianças, e o pai continuou trabalhando como carroceiro na capital, onde, apesar das limitações financeiras, os três irmãos posteriormente conseguiram chegar ao ensino superior e seguir diferentes carreiras profissionais.
Nesse caminho, Heber e o irmão José Carlos ingressaram na magistratura, enquanto a irmã se formou na área da Educação, resultado alcançado depois de uma infância em que o trabalho apareceu cedo na rotina familiar e passou a dividir espaço com os estudos.
Ainda durante o antigo ginásio na rede pública, Heber já trabalhava como engraxate, experiência que antecedeu uma mudança importante aos 14 anos, quando participou de uma seleção destinada a jovens da periferia e conseguiu uma oportunidade profissional ligada ao Banco do Brasil.
Aos 14 anos, Heber entrou no Banco do Brasil como office boy
A seleção fazia parte de um projeto social semelhante aos atuais programas de aprendizagem profissional e abriu para o adolescente uma vaga como office boy no Banco do Brasil, colocando-o ainda muito jovem em uma rotina de trabalho formal enquanto continuava ajudando a família.
Antes mesmo de completar 15 anos, segundo o relato publicado pela ASMEGO, o rendimento recebido por Heber já ultrapassava o valor obtido pelo pai, e uma parte desse dinheiro passou a ser usada diretamente no pagamento de despesas domésticas, como as contas de água e energia elétrica.
Como aquela primeira passagem pelo Banco do Brasil tinha duração limitada pelo próprio programa, Heber precisou buscar outros caminhos profissionais e, perto de deixar a iniciativa, montou um pit dog enquanto conciliava diferentes atividades para continuar garantindo renda.
Durante o dia, trabalhava em um banco particular e, à noite, preparava sanduíches, atendia clientes e administrava o pequeno negócio de alimentação, mantendo uma rotina que combinava emprego formal e atividade própria antes de reencontrar o Banco do Brasil por outro caminho.
Concurso público levou Heber de volta ao Banco do Brasil
A segunda passagem pela instituição ocorreu de maneira diferente, porque Heber decidiu prestar concurso público para retornar ao Banco do Brasil e, depois de ser aprovado, voltou ao banco como funcionário concursado, encerrando então a atividade que mantinha na sanduicheria.
Naquele momento, o ensino superior ainda não integrava sua rotina, mas o incentivo para mudar esse cenário veio principalmente do irmão José Carlos de Oliveira, que já havia ingressado na magistratura e se tornou uma referência importante para os próximos passos profissionais.
Direito na UFG veio sem cursinho preparatório
Estimulado pela possibilidade de seguir uma carreira jurídica, Heber decidiu disputar o vestibular de Direito da Universidade Federal de Goiás mesmo sem ter frequentado cursinho preparatório e conseguiu aprovação para uma vaga no curso matutino da UFG, dando início a uma nova etapa.
As responsabilidades pessoais, porém, continuavam acompanhando os estudos, pois ele havia se casado aos 19 anos e, quando ingressou na universidade, também se tornou pai de seu primeiro filho, conciliando a formação acadêmica com compromissos familiares que já faziam parte de sua rotina.
Ao longo da graduação, o objetivo profissional ganhou contornos mais definidos, e a experiência do irmão na magistratura levou Heber a considerar o mesmo caminho, enquanto sua preparação deixou de se limitar às avaliações da universidade e passou a incluir conteúdos voltados aos concursos jurídicos.
Enquanto avançava no curso de Direito, parte do tempo de estudo já era direcionada à magistratura estadual, criando uma preparação paralela que continuaria depois da graduação e se tornaria decisiva quando ele começou a disputar oficialmente vagas nas carreiras jurídicas.
Aprovado para promotor, decidiu não tomar posse
Concluída a graduação em 1991, Heber continuou se preparando para concursos sem recorrer a curso específico e, de acordo com o relato reproduzido pela ASMEGO, estudou por conta própria até conseguir sua primeira aprovação para o cargo de promotor de Justiça.
A posse como promotor estava prevista para janeiro de 1992, mas, mesmo depois de conquistar a aprovação, ele decidiu não assumir o cargo porque mantinha o objetivo de tornar-se juiz e preferiu continuar direcionando os estudos para a carreira que havia escolhido.
Ao abrir mão daquela nomeação, Heber deixou de assumir uma carreira jurídica já conquistada por concurso para continuar buscando outra seleção, decisão que ganhou novo significado ainda no mesmo ano, quando conseguiu a aprovação que procurava para o cargo de juiz de Direito.
A posse na magistratura goiana ocorreu em 14 de janeiro de 1993, pouco mais de uma década depois do período em que trabalhava ainda adolescente e destinava parte do próprio rendimento às despesas da família, marcando o início de uma nova fase profissional.
Carreira de juiz começou no interior de Goiás
A atuação como magistrado começou no interior do estado, tendo Piranhas como primeira comarca, onde permaneceu até 1995, antes de passar por Jandaia, Mineiros e Paraúna e, posteriormente, exercer suas funções em Aparecida de Goiânia e também na capital.
Além da atividade no Judiciário, Heber tornou-se professor e passou a compartilhar com estudantes parte da experiência adquirida durante sua própria preparação, associando as aprovações em concursos a uma rotina intensa de estudos e ao aproveitamento de diferentes períodos disponíveis ao longo do dia.
Essa experiência acadêmica passou a acompanhar a carreira iniciada depois de sua preparação independente para concursos, acrescentando outra frente de atuação à trajetória de alguém que havia começado a trabalhar ainda durante a escola e construído posteriormente uma carreira dentro do Judiciário goiano.
Três décadas depois, Heber chegou a desembargador em Goiás
Trinta anos depois de ingressar na magistratura, Heber Carlos de Oliveira chegou ao cargo de desembargador em Goiás, em 2023, alcançando uma das posições mais altas da Justiça estadual depois de uma trajetória profissional iniciada muito antes de sua entrada no curso de Direito.
Ao longo dessas décadas, a sequência profissional reuniu etapas muito diferentes: engraxate durante a escola, office boy do Banco do Brasil aos 14 anos, responsável ainda adolescente por parte das contas de casa, dono de pequeno negócio, bancário concursado, estudante de Direito, juiz e desembargador.
Entre essas etapas, permanece ainda um dos episódios mais incomuns de sua trajetória: depois de estudar por conta própria e ser aprovado para promotor de Justiça, ele abriu mão da posse para continuar buscando o cargo de juiz, objetivo que alcançaria pouco tempo depois.
Se você já tivesse conquistado uma aprovação para promotor de Justiça e uma carreira pública garantida, teria coragem de abrir mão da posse para continuar estudando, assumir o risco de uma nova seleção e perseguir o cargo profissional que realmente desejava?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

