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Filho de ex-catador de recicláveis, jovem cresce em casa sem água potável e energia, entra na USP, vira vereador aos 20 anos e conquista mestrado em Políticas Públicas na Universidade de Oxford

Filho de ex-catador de recicláveis, jovem cresce em casa sem água potável e energia, entra na USP, vira vereador aos 20 anos e conquista mestrado em Políticas Públicas na Universidade de Oxford

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Filho de ex-catador de recicláveis, jovem cresce em casa sem água potável e energia, entra na USP, vira vereador aos 20 anos e conquista mestrado em Políticas Públicas na Universidade de Oxford

Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges

Publicado em 12/08/2026 às 14:18

Atualizado em 12/08/2026 às 14:19

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Filho de ex-catador de recicláveis, ele cresceu sem luz e água potável, entrou na USP, virou vereador aos 20 anos e foi aprovado em Oxford.

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Ele morou até os 16 anos em uma casa de dois cômodos dentro de uma fábrica de cerâmica, sem luz e sem água tratada. O pai queimava peças de dia e recolhia reciclável de carrinho de mão à noite. Aos 22, foi aprovado em uma das universidades mais concorridas do mundo.

Giancarlo Moreira Gama, filho de ex-catador de recicláveis e de uma dona de casa, foi aprovado para o mestrado em Políticas Públicas da Universidade de Oxford, no Reino Unido, aos 22 anos, quando já exercia mandato de vereador em Cabreúva, no interior de São Paulo, segundo reportagem publicada pelo portal Terra em 21 de julho de 2023, assinada por Marcela Ferreira. A notícia da aprovação chegou em março daquele ano, e o curso começou em setembro de 2023.

A distância entre o ponto de partida e o de chegada é o que define essa história. Ele passou parte da infância em uma casa de dois cômodos construída dentro de uma fábrica de cerâmica, sem energia elétrica e sem água potável, e foi o primeiro da família a entrar no ensino superior.

A casa dentro da fábrica de cerâmica

O pai de Giancarlo veio do Paraná em busca de melhores condições de trabalho e encontrou emprego em uma fábrica de cerâmica em Cabreúva. Trabalhava como ceramista, na função de queimador, responsável pela etapa de cozimento das peças em forno.

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A moradia da família ficava no próprio terreno da fábrica: dois cômodos, sem eletricidade e sem água tratada. O salário do pai não cobria as despesas de casa, e por isso ele passou a complementar a renda recolhendo material reciclável no bairro, empurrando um carrinho de mão depois de encerrar o turno.

O relato que Giancarlo faz desse período é direto sobre a precariedade. Ele conta que era tudo muito precário, que o pai ganhava muito pouco como ceramista e que os pais precisaram buscar formas de complementar a renda, com o trabalho de coleta ocupando boa parte da infância dele.

Os 16 anos e a primeira vez que ele ouviu falar em universidade pública

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A mudança veio junto com a falência da fábrica. Aos 16 anos, com o fechamento do negócio que sustentava a família e abrigava a casa deles, Giancarlo se mudou de bairro com os pais.

O deslocamento produziu um efeito que ele descreve como ampliação de perspectiva. Novos amigos, novo ambiente e, principalmente, um tipo de conversa que não existia no lugar anterior. Foi por meio dessas conexões, conhecendo amigos de amigos que tinham entrado em universidades, que ele ouviu falar pela primeira vez em universidade pública.

Esse é o detalhe mais revelador de toda a trajetória, e ele diz respeito a informação, não a esforço. Um adolescente de 16 anos não sabia que existia ensino superior gratuito no Brasil, simplesmente porque ninguém no círculo dele havia passado por isso. A partir do momento em que soube, quis conhecer aquele mundo, e foi ali que vislumbrou pela primeira vez a possibilidade de fazer uma graduação.

A decisão de virar político aos 12 anos

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Antes mesmo de saber que a universidade era possível, ele já havia decidido o que queria fazer. Segundo o perfil dele publicado pela própria escola de governo de Oxford, foi aos 12 anos que Giancarlo decidiu que queria se tornar político, motivado pela desigualdade que enxergava ao redor.

A oportunidade de conhecer de perto o funcionamento do Legislativo veio pelo programa Jovens Vereadores, iniciativa da câmara municipal da cidade. A experiência reforçou a intenção e deu contorno prático ao que até então era vontade abstrata.

É uma sequência incomum. Primeiro veio a escolha da carreira política, aos 12 anos. Só quatro anos depois apareceu a informação de que existia caminho universitário para chegar lá, e foi essa descoberta que definiu o curso que ele escolheria.

A USP e o mandato conquistado no meio da graduação

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Depois de muito estudo, Giancarlo passou na Universidade de São Paulo em 2018, para o curso de Ciências Sociais, com foco em Ciência Política. Ele afirma que queria entender mais sobre política, e foi o primeiro da família a entrar no ensino superior.

O que aconteceu no terceiro ano da graduação mudou o roteiro. Ele decidiu se candidatar a vereador de Cabreúva e foi eleito em 2020, aos 20 anos, após uma campanha construída sobre mobilização em redes sociais. Ele mesmo descreve o resultado como inesperado.

O mandato colocou sob a responsabilidade dele a representação de mais de 50 mil habitantes, ainda durante o curso na USP. Um estudante de Ciência Política passou a exercer, na prática, o objeto que estudava em sala de aula, situação que combina teoria e exercício real de mandato de forma rara para alguém dessa idade. Além da atividade parlamentar, ele atua como ativista político na Escola Comum, organização voltada à educação política e cívica, e trabalhou como consultor no terceiro setor e em projetos de impacto social na iniciativa privada.

Como ele chegou até Oxford

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O interesse por estudar fora nasceu de uma conversa dentro da própria USP. Ele conta que conheceu uma colega que havia feito pós-graduação no exterior, e que aquilo não despertou interesse imediato, mas abriu o horizonte para enxergar a possibilidade como algo real.

Depois disso, passou a se inspirar em trajetórias parecidas com a dele na política brasileira, citando dois nomes que estudaram fora e seguiram carreira parlamentar, um deles no mesmo programa que ele iria cursar. Foi essa combinação, de exemplo concreto somado à própria atuação política, que consolidou a ideia.

Filho de ex-catador de recicláveis, ele cresceu sem luz e água potável, entrou na USP, virou vereador aos 20 anos e foi aprovado em Oxford.

A execução começou em 2019, quando ele decidiu que se candidataria a um curso no exterior e passou a estudar inglês para se preparar. O suporte veio de um programa de mentoria da Associação Brasa, organização que auxilia estudantes brasileiros em processos de candidatura a universidades estrangeiras, e com o acompanhamento de um mentor ele se preparou para os exames exigidos. A aprovação chegou em março de 2023, para o mestrado que começou em setembro daquele ano e se estendeu até junho de 2024.

Cento e cinquenta alunos de mais de 60 países

O programa que ele cursou reúne, segundo o relato dele, aproximadamente 150 alunos vindos de mais de 60 países diferentes, todos com atuação nas áreas de governo e de impacto social.

A expectativa que ele declarou era de troca nos dois sentidos. Queria aproveitar ao máximo a experiência e absorver conhecimento dos colegas, mas também compartilhar o que trazia da própria trajetória, que é justamente o tipo de vivência pouco representada em salas de aula de instituições desse porte.

O objetivo prático que ele apontou para o curso era instrumental. Ele esperava que a formação trouxesse novas ferramentas para se tornar um agente das mudanças que quer ver na política e, por consequência, na sociedade.

O que ele diz sobre desigualdade e sobre o próprio propósito

A leitura que Giancarlo faz da própria trajetória é explicitamente política. Ele se descreve como pessoa de baixa renda e homem negro, afirma ter sido muito impactado pelas desigualdades sociais e diz compreender o papel que a política tem na construção de uma sociedade menos desigual.

Esse foi o argumento central que ele usou na candidatura a Oxford. Segundo o próprio relato, ele repetiu em toda a aplicação que o propósito de vida dele é ajudar a construir uma política melhor para que, a partir disso, se construa uma sociedade menos desigual.

Sobre a permanência na atividade política, a posição dele é de recusa ao abandono. Ele afirma que pretende seguir enquanto tiver saúde para isso, porque acredita que o país precisa de melhores quadros, e resume a posição em uma frase: a política brasileira tem muitos problemas, mas desistir dela não é um caminho.

O sonho de ser o primeiro governador negro de São Paulo

Entre os planos declarados por ele está concorrer nas eleições seguintes, sem descartar candidatura a prefeito, a vereador e, no futuro, ao governo de São Paulo.

O objetivo mais ambicioso ele apresentou com nome e justificativa. Giancarlo afirma que o sonho grande dele é se tornar o primeiro governador negro do estado, e explica o raciocínio por trás disso: São Paulo é um estado muito rico que, na avaliação dele, não está de fato comprometido em combater as desigualdades sociais existentes no Brasil e no próprio território paulista.

A meta que ele coloca para essa hipótese é de inversão. Chegar ao comando da unidade federativa mais rica do país para mudar a forma como a política é feita e priorizar o enfrentamento da desigualdade. É um objetivo declarado por alguém que, aos 22 anos, já havia ocupado um mandato eletivo e uma vaga em Oxford.

O que ele diz que a educação fez pela vida dele

A avaliação que Giancarlo faz do papel da educação na própria trajetória é enfática, e ele mesmo reconhece que a frase é repetida com frequência. Segundo ele, a educação de fato mudou a vida dele, e ainda que isso seja um chavão que se ouve de muita gente, é a principal ferramenta de mudança na vida das pessoas.

Ele acrescenta, porém, uma ressalva que raramente acompanha esse tipo de declaração. Na avaliação dele, a educação sozinha não resolve, e outras políticas públicas precisam tratar de segurança alimentar, moradia e bem-estar social para garantir o desenvolvimento pleno das pessoas.

É uma leitura coerente com a própria história. A casa de dois cômodos sem luz e sem água potável dentro de uma fábrica de cerâmica não era um problema que a escola resolveria sozinha, e o percurso dele até a USP dependeu também de uma mudança de bairro, de um círculo social novo e da informação, obtida por acaso aos 16 anos, de que existia universidade pública no Brasil.

E você, acha que histórias como a dele mostram que o esforço individual dá conta, ou que dependem demais do acaso de alguém descobrir na hora certa que a oportunidade existe? Conta nos comentários o que você acha que faltou ou sobrou nesse caminho.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

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