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Filho de ex-escravos e com escola só até a 6ª série, um mecânico de máquinas de costura negro de Cleveland cansou de ver acidentes no cruzamento, acrescentou um terceiro tempo ao semáforo que só tinha dois sinais, patenteou o modelo em 1923 e vendeu a ideia à General Electric por US$ 40 mil
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 06/08/2026 às 08:54
Atualizado em 06/08/2026 às 08:57
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Garrett Augustus Morgan nasceu em Paris, no Kentucky, em 1877, filho de pais que haviam sido escravizados. Saiu de casa aos 14 anos rumo a Ohio. A patente do sinal de três posições saiu em 20 de novembro de 1923, quando ele tinha 46 anos.
O cruzamento não tinha meio-termo. Ou o veículo parava, ou seguia, e quem estava atravessando quando o comando mudava se via no meio do caminho sem saída. Foi essa lacuna que Garrett Augustus Morgan resolveu ao acrescentar uma terceira posição ao semáforo, criando o antepassado direto da luz amarela que existe hoje em qualquer esquina.
A patente número 1.475.074 foi concedida pelo escritório americano em 20 de novembro de 1923, quando ele tinha 46 anos. Ele vendeu os direitos por 40 mil dólares, valor que publicações recentes estimam em algo entre 600 mil e 750 mil dólares em poder de compra atual, conforme o índice usado no cálculo.
De onde ele veio
Morgan nasceu em Paris, no estado americano do Kentucky, em 1877. Os pais haviam sido escravizados, e a escolaridade formal dele parou no ensino elementar.
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Aos 14 anos, saiu de casa rumo ao norte, em busca de trabalho em Ohio. Começou como faz-tudo em Cincinnati e depois se mudou para Cleveland, onde passou a consertar máquinas de costura. Foi ali que a trajetória mudou de patamar.
O que ele já tinha construído antes de 1923
Vale corrigir a imagem de trabalhador humilde que costuma acompanhar essa história. Em 1907, Morgan abriu a própria oficina de conserto. Em 1909, acrescentou ao negócio uma loja de confecção.
O empreendimento deu certo a ponto de, em 1920, ele ter dinheiro para fundar um jornal, o Cleveland Call, que se tornou um dos veículos negros mais importantes do país. Ou seja, quando patenteou o sinal, ele já era empresário estabelecido, dono de oficina, de loja de roupas e de jornal, e tinha automóvel próprio numa época em que isso era raro. Ele se autodenominava o Edison Negro.
O acidente que originou a ideia
A motivação foi presencial. Morgan testemunhou uma colisão entre uma carruagem puxada a cavalo e um automóvel em um cruzamento problemático de Cleveland.
O contexto explica o risco. As ruas do centro da cidade eram estreitas e abrigavam ao mesmo tempo bicicletas, carroças de entrega, bondes, automóveis e pedestres, sem sinalização padronizada, sem faixas definidas, sem limite de velocidade afixado e sem regras claras de preferência. Em 1923, mais de 18 mil americanos morreram em acidentes com veículos, segundo dados citados pela Instituição Smithsonian.
O que já existia antes dele
Aqui é preciso ser preciso, porque circula muito a afirmação de que ele inventou o semáforo. Não foi o caso. O primeiro sinal de trânsito de que se tem registro foi instalado em Londres em 1868.
A própria Cleveland já havia instalado, em 1914, o primeiro sinal elétrico dos Estados Unidos, no cruzamento da Euclid Avenue com a East 105th Street. Aquele equipamento tinha quatro pares de luzes vermelhas e verdes montados em postes de esquina, funcionando apenas como indicador de pare e siga. A contribuição de Morgan foi outra e é específica: o intervalo entre os dois comandos.
Como funcionava o equipamento dele
O modelo patenteado não tinha lâmpada colorida. Era um poste em formato de T, com braços móveis que exibiam as palavras pare e siga, operado manualmente por um agente que girava uma manivela.
A inovação estava na possibilidade de erguer os braços até a metade. Nessa posição intermediária, todos os sentidos ficavam parados ao mesmo tempo, criando um intervalo para que os veículos já dentro do cruzamento conseguissem sair antes que o fluxo perpendicular entrasse. À noite, com tráfego reduzido, o dispositivo podia ficar fixo em meio mastro, funcionando como o amarelo piscante de hoje, alertando os motoristas a atravessar com cautela.
Por que ele vendeu
O motivo pelo qual Morgan se desfez da patente é objeto de interpretação histórica. Registros reunidos pelo Instituto Smithsonian indicam que ele estava preocupado com a possibilidade de o racismo afastar compradores, como já havia ocorrido com invenções anteriores dele.
Vale registrar uma divergência relevante entre publicações sobre quem comprou. A maioria das fontes, incluindo o History, a Biography, o material do Smithsonian, a Administração Federal de Rodovias americana e a Enciclopédia de História de Cleveland, aponta a General Electric. Já reportagem da CNN publicada em novembro de 2023 informa que foi a General Motors que adquiriu a patente naquele ano.
O que aconteceu com o invento depois
O desenho original não sobreviveu como produto. O intervalo de segurança criado por ele foi absorvido por outro equipamento e padronizado no formato que conhecemos hoje: sinal de três posições com lentes vermelha, âmbar e verde.
Foi justamente essa a operação comercial. A empresa compradora incorporou a ideia do sinal intermediário, destinado a esvaziar o cruzamento, aos semáforos elétricos que já produzia, e distribuiu o equipamento por cidades de todo o país. Morgan também registrou a patente na Grã-Bretanha e no Canadá.
O gás que salvou vidas antes do trânsito
O sinal de trânsito não foi a primeira invenção de segurança dele. Em 1914, Morgan patenteou um capuz de proteção contra fumaça, criado depois de observar bombeiros sofrendo com a fumaça em incêndios.
O aparelho usava uma esponja umedecida para filtrar partículas e resfriar o ar respirado. Ele ganhou notoriedade em 1916, quando a cidade de Cleveland perfurava um túnel sob o Lago Erie para captação de água potável e uma explosão deixou trabalhadores presos. O equipamento serviu de base para as máscaras de gás usadas na Primeira Guerra Mundial.
O que restou dele
Morgan morreu em julho de 1963, aos 86 anos. Um exemplar do sinal de três posições dele está em exposição no Museu Nacional de História Americana, da Instituição Smithsonian.
Em novembro de 2023, a Sociedade Histórica de Willoughby rededicou uma réplica do equipamento para marcar o centenário da patente. A Administração Federal de Rodovias dos Estados Unidos reconhece o trabalho dele como contribuição fundadora para os sistemas inteligentes de transporte. Hoje existem mais de 300 mil cruzamentos com sinalização no país, segundo o Instituto de Engenheiros de Transporte.
E você, já parou para pensar por que existe uma luz amarela entre o verde e o vermelho? Conta aqui nos comentários se você conhecia essa história, e diga qual invenção do dia a dia mais te surpreende quando você descobre quem a criou.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

