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Filho de faxineira e primeiro da família a chegar à universidade, jovem vendia trufas no farol para juntar dinheiro para o cursinho, trabalhava em telemarketing das 14h às 22h e chegou a dormir apenas três horas por noite: após cinco anos tentando, Lyncoln conquista Medicina na USP, Unicamp e UFRJ aos 23 anos

Filho de faxineira e primeiro da família a chegar à universidade, jovem vendia trufas no farol para juntar dinheiro para o cursinho, trabalhava em telemarketing das 14h às 22h e chegou a dormir apenas três horas por noite: após cinco anos tentando, Lyncoln conquista Medicina na USP, Unicamp e UFRJ aos 23 anos

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Filho de faxineira e primeiro da família a chegar à universidade, jovem vendia trufas no farol para juntar dinheiro para o cursinho, trabalhava em telemarketing das 14h às 22h e chegou a dormir apenas três horas por noite: após cinco anos tentando, Lyncoln conquista Medicina na USP, Unicamp e UFRJ aos 23 anos

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 11/08/2026 às 08:54

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A história de Lyncoln é surpreendente: passa pelo balé clássico, pelo salão de beleza, pelas inúmeras salas de cursinho até chegar na USP (Arquivo Pessoal/Reprodução)

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Filho de faxineira e primeiro universitário da família, Lyncoln Santos Belo vendeu trufas no farol, trabalhou até as 22h para pagar cursinho e chegou a dormir três horas por noite antes de conquistar Medicina na USP, Unicamp e UFRJ após cinco anos de preparação.

Lyncoln Reugys Santos Belo tinha 23 anos quando ingressou em Medicina na Universidade de São Paulo, no campus de Pinheiros, no início de 2023. Primeiro integrante de sua família a chegar ao ensino superior, ele havia passado cinco anos preparando-se para o vestibular enquanto enfrentava dificuldades financeiras que o levaram a vender trufas com a mãe, trabalhar em telemarketing e depender de bolsas para continuar no cursinho.

A aprovação na USP veio pelo Enem-USP, depois de Lyncoln alcançar 980 pontos na redação do Enem. Na mesma fase, ele também conquistou vagas em Medicina na Unicamp e na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A sequência encerrou uma preparação marcada por jornadas que, em determinados períodos, começavam antes das 4h e terminavam perto da meia-noite.

Filho de faxineira cresceu em uma família sem histórico universitário

Lyncoln cresceu em uma família na qual pais e avós não haviam tido acesso ao ensino superior. Ele era o filho mais velho e vivia com a mãe, o padrasto e dois irmãos mais novos.

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Aos 10 anos, mudou-se com a família para Mongaguá, no litoral de São Paulo, onde chegou a praticar balé clássico em uma academia pública.

Na fotografia, a família de Lyncoln: sua mãe, padrasto e dois irmãos. Lyncoln é o filho mais velho, de óculos (Arquivo Pessoal/Reprodução)

As dificuldades financeiras levaram Lyncoln a trabalhar ainda adolescente. Em Mongaguá, ajudava a mãe vendendo raspadinhas na praia. Aos 15 anos, pouco antes de iniciar o ensino médio, a família retornou à capital paulista.

A mãe trabalhava como faxineira, mas precisou deixar a atividade por problemas de saúde. A renda familiar passou a depender principalmente do padrasto, que trabalhava como gesseiro autônomo. Foi nesse contexto que Lyncoln decidiu, ainda no ensino médio, que tentaria uma vaga em Medicina.

Venda de trufas no farol ajudou a juntar dinheiro para o cursinho

Quando definiu Medicina como objetivo, Lyncoln percebeu que precisaria de preparação adicional depois da escola pública. Sem recursos para bancar facilmente um cursinho particular, passou a ajudar a mãe na produção e venda de trufas.

Os dois acordavam cedo para preparar os doces e depois os vendiam em semáforos de São Paulo. No terceiro ano do ensino médio, Lyncoln intensificou as vendas porque queria acumular dinheiro para pagar o cursinho no ano seguinte; além dos faróis, comercializava as trufas na paróquia que frequentava.

A mãe posteriormente pediu que o filho deixasse as vendas e concentrasse o tempo nos estudos. Depois de concluir o ensino médio, Lyncoln conseguiu uma bolsa parcial em um cursinho particular no bairro do Tatuapé, mas a mensalidade continuou pesando sobre o orçamento doméstico.

Mensalidade atrasada chegou a impedir sua entrada no cursinho

O primeiro ano de cursinho coincidiu com um período de dificuldades ainda maiores dentro de casa. Lyncoln relatou que a família chegou a enfrentar a escolha entre despesas básicas, como gás, e o pagamento das mensalidades da preparação para o vestibular.

Em determinado momento, o atraso acumulado teve uma consequência direta: ele foi impedido de passar pela catraca do cursinho por causa das parcelas não pagas. Mesmo com a bolsa parcial, a família não conseguia sustentar continuamente aquele custo.

No começo do segundo ano de preparação, Lyncoln decidiu procurar emprego. A solução encontrada foi trabalhar em um centro de telemarketing e utilizar praticamente todo o salário para continuar estudando.

Dos R$ 700 de salário, R$ 500 eram destinados ao cursinho

Lyncoln recebia R$ 700 por mês no telemarketing. Desse valor, R$ 500 eram destinados à mensalidade do cursinho, enquanto os aproximadamente R$ 200 restantes eram utilizados principalmente no transporte.

Para conseguir conciliar emprego e preparação, Lyncoln migrou para uma turma matutina e organizou o dia em torno dos dois compromissos.

Acordava por volta das 4h, começava as aulas às 7h10 e permanecia no cursinho até aproximadamente 11h. Depois de um almoço rápido, entrava no telemarketing às 14h, trabalhava até 22h e chegava em casa perto da meia-noite.

Bolsa integral veio quando Lyncoln se tornou monitor

No fim daquele ano, Lyncoln conseguiu 47 pontos na primeira fase da Fuvest. A nota ainda estava distante do corte de 69 pontos informado para candidatos de escola pública em Medicina naquela edição, o que significava um terceiro ano de preparação.

A história de Lyncoln é surpreendente: passa pelo balé clássico, pelo salão de beleza, pelas inúmeras salas de cursinho até chegar na USP (Arquivo Pessoal/Reprodução)

A situação financeira começou a mudar quando ele conseguiu trabalhar como monitor do cursinho. Em troca da ajuda prestada aos professores, passou a estudar com bolsa integral, deixando de depender diretamente da mensalidade que consumia grande parte de seu salário.

A rotina continuou extensa. Lyncoln relatou acordar às 3h50, chegar ao cursinho às 6h e permanecer no local até aproximadamente 22h, retornando para casa perto da meia-noite. Durante a pandemia, passou a realizar a monitoria de casa usando um celular emprestado pela tia, porque não possuía computador.

Três horas de sono e um desmaio marcaram a preparação

No terceiro ano de cursinho, o desempenho na primeira fase da Fuvest subiu para 62 questões. Quando as atividades presenciais retornaram, porém, Lyncoln voltou a enfrentar uma rotina de deslocamentos e estudo que reduzia drasticamente seu período de descanso.

Ele relatou que, em determinados momentos, chegava a dormir apenas três horas por noite. O cansaço era tamanho que pedia para assistir às aulas em pé para evitar adormecer e chegou a desmaiar dentro da sala durante um dos períodos mais intensos da preparação.

Na Fuvest seguinte, seu resultado subiu de 62 para 67 acertos, ainda sem produzir a vaga desejada na USP. O Enem, contudo, trouxe duas aprovações importantes naquele momento: Medicina na Universidade Federal de Minas Gerais e na Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, a Famerp.

Quinto ano trouxe bolsa integral sem necessidade de trabalhar como monitor

Lyncoln decidiu fazer mais uma tentativa porque ainda queria estudar especificamente na Faculdade de Medicina da USP em São Paulo. No começo do quinto ano de cursinho, seu desempenho anterior fez com que recebesse uma proposta de bolsa integral sem precisar continuar trabalhando como monitor.

Outro cursinho também lhe ofereceu bolsa, e Lyncoln decidiu combinar conteúdos das duas instituições de maneira online. A retirada dos longos deslocamentos alterou profundamente a rotina: ele passou a acordar às 8h e voltou a ter tempo para permanecer com a família e descansar.

Na Fuvest daquele ano, chegou finalmente à segunda fase depois de acertar 78 questões na primeira etapa. Mesmo assim, seu nome não apareceu na primeira lista de aprovados da seleção tradicional. A vaga na USP viria por outro processo.

Redação de 980 pontos ajudou a garantir Medicina pelo Enem-USP

No Enem 2022, Lyncoln alcançou 980 pontos na redação. O texto daquele exame abordava os desafios para a valorização das comunidades e povos tradicionais no Brasil, e ele utilizou referências como Gilberto Gil em sua argumentação.

A nota foi utilizada no Enem-USP, sistema de ingresso adotado pela Universidade de São Paulo para selecionar candidatos por meio do desempenho no Enem. Foi por essa via que Lyncoln conquistou a vaga em Medicina na Faculdade de Medicina da USP.

Uma relação de aprovados do cursinho Poliedro para a USP em 2023 também registra Lyncoln Reugys Santos Belo no curso de Medicina. A reportagem do Guia do Estudante informa que ele ingressou no campus de Pinheiros no início daquele ano.

Cinco anos de preparação terminaram com USP, Unicamp e UFRJ

Quando recebeu a notícia da aprovação na USP, Lyncoln estava dormindo. Segundo seu relato, a mãe soube primeiro por intermédio de Miguel, amigo do estudante, e o acordou para contar que o resultado que ele perseguia havia finalmente chegado.

A USP não foi a única aprovação naquele ciclo. O Guia do Estudante registra que Lyncoln também conseguiu Medicina na Unicamp e na Universidade Federal do Rio de Janeiro, depois das aprovações anteriores em UFMG e Famerp obtidas durante a preparação.

Aos 23 anos, escolheu a USP e iniciou Medicina no começo de 2023. Naquele mesmo ano, já participava do time de natação da universidade, havia começado uma iniciação científica e atuava aos fins de semana como plantonista do MedEnsina, cursinho popular ligado aos estudantes da Faculdade de Medicina.

Primeiro universitário da família voltou ao cursinho para ajudar outros candidatos

A entrada na Faculdade de Medicina também marcou a primeira chegada de um integrante de sua família ao ensino superior. Lyncoln vinha de uma família em que pais e avós não haviam tido acesso à universidade e passou cinco anos entre cursinhos até conseguir a vaga.

Sua trajetória durante a preparação reuniu diferentes formas de financiamento dos estudos: venda de trufas, emprego em telemarketing, pagamento de R$ 500 mensais do próprio salário, bolsa parcial, monitoria em troca de bolsa integral e, finalmente, bolsas integrais concedidas pelo desempenho acadêmico.

A mesma estrutura de cursinhos que fez parte de sua preparação reapareceu depois da aprovação, agora em outra posição.

No segundo semestre de 2023, Lyncoln ajudava candidatos do MedEnsina, cursinho popular da Faculdade de Medicina da USP, enquanto cursava o primeiro ano da graduação que havia tentado alcançar durante cinco anos.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

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