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Filho de gari e diarista, jovem de 21 anos estuda sozinho pelo celular e tablet por até 10 horas por dia, sem computador e sem frequentar cursinho preparatório, passa em Engenharia, Enfermagem e Direito e finalmente conquista vagas em Medicina na UFPA e na UEPA

Filho de gari e diarista, jovem de 21 anos estuda sozinho pelo celular e tablet por até 10 horas por dia, sem computador e sem frequentar cursinho preparatório, passa em Engenharia, Enfermagem e Direito e finalmente conquista vagas em Medicina na UFPA e na UEPA

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Filho de gari e diarista, jovem de 21 anos estuda sozinho pelo celular e tablet por até 10 horas por dia, sem computador e sem frequentar cursinho preparatório, passa em Engenharia, Enfermagem e Direito e finalmente conquista vagas em Medicina na UFPA e na UEPA

Escrito por Alisson Ficher

Publicado em 13/08/2026 às 22:34

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Rotina intensa de preparação, recursos limitados e uma sequência pouco comum de aprovações marcaram o caminho de um jovem paraense até um dos cursos mais disputados do país, em uma trajetória sustentada pelo esforço familiar, pelo estudo independente e pela persistência acadêmica.

Sem computador em casa nem acesso frequente a um cursinho preparatório tradicional, Ageu Salgado dos Santos transformou um celular, um tablet e plataformas disponíveis na internet em suas principais ferramentas de estudo, organizando a própria preparação para disputar uma vaga em Medicina.

Filho de um gari e de uma diarista, o jovem paraense manteve uma rotina que chegava a dez horas diárias de preparação e acumulou aprovações em diferentes universidades antes de finalmente alcançar o objetivo que havia estabelecido para sua trajetória acadêmica.

A conquista veio em dose dupla quando, aos 21 anos, Ageu foi aprovado no curso de Medicina da Universidade Federal do Pará, a UFPA, e também da Universidade do Estado do Pará, a UEPA, duas instituições públicas de seu estado.

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Na universidade federal, o resultado ainda trouxe outro destaque: ele conseguiu a terceira colocação em sua modalidade de ingresso, depois de uma preparação feita essencialmente dentro de casa e sem a estrutura normalmente associada a candidatos de cursos altamente concorridos.

Filho de gari e diarista foi o primeiro da família a chegar à universidade

Morador de Tomé-Açu, no Pará, Ageu é filho do gari Messias e da diarista Maria, que não haviam concluído o ensino médio; mesmo assim, o jovem tornou-se o primeiro integrante dos dois lados da família a chegar à universidade.

Embora os pais tivessem interrompido a própria formação escolar, os estudos receberam prioridade dentro de casa, segundo o relato apresentado pelo estudante ao Correio Braziliense, principal fonte desta reportagem, que detalhou tanto sua rotina quanto as condições enfrentadas durante a preparação.

Sem computador, preparação foi feita pelo celular e tablet

Durante o período dedicado às provas, o computador não fazia parte da estrutura disponível, o que levou Ageu a acessar aulas, simulados e outros conteúdos pela internet utilizando principalmente um telefone celular e um tablet que possuía em casa.

Para reduzir os custos da preparação, grande parte do material vinha de plataformas gratuitas, uma alternativa adotada diante do preço de cursos preparatórios convencionais e que permitia ao estudante manter contato constante com os conteúdos exigidos nos processos seletivos.

Em fases de preparação mais intensa, a rotina chegava a oito ou dez horas de estudo por dia, começando antes das oito da manhã, avançando até o meio-dia e sendo retomada durante a tarde, depois do intervalo reservado ao almoço.

Mesmo tendo utilizado um curso pago de forma pontual, Ageu não frequentou cursinho preparatório tradicional depois de concluir o ensino médio, mantendo uma estratégia baseada principalmente no estudo independente, no acesso à internet, na revisão dos conteúdos e na realização constante de exercícios.

Engenharia, Enfermagem e Direito vieram antes de Medicina

Antes de conquistar as duas vagas no curso que desejava, o estudante já havia construído uma sequência incomum de aprovações em graduações de áreas diferentes, mostrando que sua entrada em Medicina não ocorreu na primeira tentativa de ingressar no ensino superior.

A primeira aprovação aconteceu em Engenharia Agrícola na Universidade Federal Rural da Amazônia, a UFRA, curso que Ageu chegou a frequentar durante aproximadamente um ano e meio antes de continuar buscando uma formação mais alinhada ao objetivo profissional que havia estabelecido.

Mais tarde, surgiu uma nova oportunidade em Enfermagem na Universidade Federal do Pará; em outro processo seletivo, ele conseguiu também uma vaga em Direito na Universidade de São Paulo, uma das instituições públicas mais disputadas do país.

Apesar das possibilidades abertas por essas aprovações, a preparação para Medicina não foi interrompida, e Ageu continuou organizando sua rotina de estudos até conseguir aparecer simultaneamente nas listas de classificados de duas universidades públicas paraenses no curso que pretendia seguir.

Essa sequência ajuda a dimensionar o caminho anterior ao resultado definitivo, porque Engenharia Agrícola, Enfermagem e Direito representaram três oportunidades concretas de formação universitária, mas nenhuma delas encerrou a busca que havia começado antes das primeiras aprovações.

Duas aprovações em Medicina coroaram a preparação

Quando o resultado da UFPA foi divulgado, Ageu apareceu com a terceira colocação na modalidade pela qual concorreu; paralelamente, seu nome também estava entre os classificados em Medicina pela UEPA, criando duas possibilidades de ingresso no mesmo curso.

Com as duas aprovações confirmadas, o estudante que havia preparado praticamente todo o conteúdo em casa passou a poder escolher entre duas instituições públicas do próprio Pará, depois de uma trajetória marcada por tentativas anteriores e mudanças de direção acadêmica.

Mesmo após a aprovação, a realidade financeira familiar continuava presente, pois Ageu vivia no bairro Kanebo, em Tomé-Açu, enquanto o curso seria realizado em Belém, e o deslocamento entre sua residência e o campus levava quase quatro horas.

Diante dessa distância, uma mudança para mais perto da universidade tornou-se necessária, especialmente porque Medicina é um curso de período integral e, segundo o próprio estudante relatou na ocasião, seria difícil conciliar a graduação com um emprego regular.

A permanência na universidade, por esse motivo, dependeria da ajuda familiar e da tentativa de obter auxílios destinados a estudantes de baixa renda, uma preocupação que surgiu justamente no momento em que a aprovação resolveu apenas uma parte do desafio.

Apoio da família acompanhou a trajetória de estudos

Ao longo da preparação, Messias e Maria incentivaram o filho a continuar estudando, apesar das limitações financeiras e do fato de ambos não terem concluído o ensino médio, oferecendo suporte para que ele pudesse concentrar mais tempo na busca pela vaga universitária.

Aos 20 anos, Ageu chegou a relatar que sentia necessidade de trabalhar para contribuir com o sustento da casa, mas conseguiu dedicar aquele período principalmente aos estudos graças ao esforço feito pelos pais para manter a rotina familiar.

Antes dessa etapa de preparação mais intensa, ele já havia trabalhado como jovem aprendiz; depois, ao direcionar a rotina para o vestibular, passou a tratar os estudos como sua principal atividade diária e a aproveitar os equipamentos disponíveis dentro de casa.

Com horários extensos e acesso aos conteúdos pela internet, o jovem acompanhava materiais semelhantes aos utilizados por candidatos de cursos presenciais, ainda que sua preparação dependesse de uma estrutura mais simples e de uma organização construída por conta própria.

A aprovação também alterou uma marca dentro da própria família, já que nenhum integrante dos dois lados havia ingressado anteriormente em uma universidade; Ageu tornou-se o primeiro, justamente depois de acumular vagas em três graduações antes de chegar a Medicina.

Experiência familiar reforçou o interesse pela Medicina

O interesse pela área médica ganhou força adicional depois que sua avó precisou ser hospitalizada durante a pandemia de covid-19, experiência que, segundo Ageu, reforçou a vontade de seguir uma profissão ligada diretamente ao cuidado de pacientes.

Ao acompanhar a doença e sentir que não conseguia ajudá-la como gostaria, o estudante passou a enxergar a Medicina com ainda mais interesse e, na entrevista concedida depois da aprovação, afirmou que pensava futuramente em seguir pela cirurgia geral.

A trajetória reúne recursos limitados, jornadas de até dez horas de estudo, três aprovações anteriores em cursos superiores e duas vagas simultâneas em Medicina, construídas a partir de uma preparação baseada principalmente em celular, tablet, internet e organização própria.

Até onde uma rotina de estudos organizada, mantida por várias horas diariamente e apoiada pelos recursos disponíveis dentro de casa, consegue levar um estudante quando o objetivo permanece o mesmo mesmo depois de sucessivas aprovações em outros cursos?


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

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