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Filho de pai violento, virou morador de rua e passou 25 anos dormindo ao relento, tomava banho no chafariz de um teatro de madrugada e ia ler na biblioteca Comfama, venceu a dependência química e um câncer e recebeu aos 70 anos o diploma de advogado da Universidade de Antioquia
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 08/08/2026 às 09:27
Atualizado em 08/08/2026 às 09:37
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O diploma de Direito da Universidade de Antioquia chegou às mãos de Gustavo León Yepes Giraldo aos 70 anos, quase cinco décadas depois de ele abandonar o mesmo curso, na mesma instituição. Entre a desistência e a colação, houve 25 anos vivendo nas ruas de Medellín.
O auditório estava cheio naquela manhã, e ele não esperava aquilo. Quando Gustavo León Yepes Giraldo se levantou para receber o diploma de advogado da Universidade de Antioquia, os aplausos não pararam até que ele voltasse ao lugar com o título na mão, conforme reportagem assinada por Isabel Cristina Zapata Palacio e publicada pelo jornal colombiano El Colombiano em 7 de janeiro de 2025.
Ele tinha 70 anos. Entre a primeira matrícula naquele mesmo curso, em 1976, e aquele diploma, cabem quase cinco décadas, uma desistência, a dependência química e 25 anos dormindo nas calçadas de Medellín. A frase que ele soltou no dia diz muito sobre o que ele pensa da conquista: “esta formatura é como um aperitivo; eu quero o prato principal”, disse ao El Colombiano, acrescentando que quer exercer a profissão e provar que, aos 70, continua apto a trabalhar.
A casa que nunca foi abrigo
Gustavo nasceu em Medellín em 1953, em um lar onde o afeto era exceção. Da infância guarda lembranças esparsas, mas uma delas é nítida: o pai, um homem violento que misturava álcool e tranquilizantes, transformava a casa em campo de batalha com frequência. Ele, os três irmãos e a mãe se escondiam debaixo de uma cama ou de uma mesa.
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Da mãe, a memória é de rejeição, e ele admite que até hoje não entende o motivo. No bairro, as outras crianças eram proibidas de brincar com ele porque eram os filhos do bêbado, e a paróquia onde servia como coroinha também não virou refúgio. Ele relatou ao El Colombiano comportamentos inadequados de padres com os coroinhas, e disse que a resposta da mãe, quando contou, foi uma surra. A Infobae, ao recontar a história em julho de 2025, registra abuso sexual na infância entre as violências que ele sobreviveu. Nenhum religioso é identificado nos dois relatos.
Os livros como primeiro lugar seguro
O que sobrou foi a leitura. Gustavo aprendeu cedo a se refugiar nos livros e encontrou nas bibliotecas um mundo diferente do que o cercava, hábito que sustentou por décadas. Circulou por grupos esotéricos, rosacruzes e pelo movimento hippie, e guarda a lembrança do festival de Ancón.
Depois de se formar como técnico auxiliar de contabilidade, quis continuar estudando e escolheu a Universidade de Antioquia. Entrou em 1976, no meio de um ambiente político fervilhante. Eram tempos de protesto estudantil e confronto constante, com carros e ônibus incendiados, e a administração abria e fechava a universidade conforme o rumo do conflito. Sem previsibilidade de aula, o ânimo cedeu, e as salas que representavam um futuro se tornaram o motivo do abandono.
Aos 24 anos, o sonho enterrado
A desistência abriu um vazio. Gustavo o descreve como preguiça, uma rotina em que as oportunidades de emprego pareciam fantasmas fora de alcance. Ele tinha 24 anos, e o objetivo de se tornar advogado saiu de cena.
As tensões em casa aumentaram quando o consumo de maconha se tornou regular, seguido logo por crack e outras substâncias. Por 14 anos ele tentou equilibrar a vida cotidiana com o vício, uma corda que arrebentou em 1990. Foi aí que ele ficou definitivamente sem teto, e o bairro de Boston, a poucas quadras da casa antiga, virou o cenário da nova fase.
Vinte e cinco anos de calçada
O período nas ruas tem datas precisas, e não por estimativa jornalística: o próprio trabalho de conclusão de curso dele delimita 1990 a 2015 no título. A quebrada de Santa Elena, espaços abertos e cavernas serviram de abrigo, e a fome foi companhia constante. Aprendeu a comer qualquer coisa, e em dias de pedir comida chegou a receber cacos de vidro no arroz e fezes dentro de um pão.
O relato do que era a noite dispensa comentário. “Dormir era um ato de fé”, disse ele. As caixas de papelão que usava como cama pouco protegiam do frio úmido, e ele era acordado a chutes e a baldes de água. Presenciou um morador de rua sendo queimado vivo. Nas calçadas da Placita de Flores, tentava juntar moedas carregando pacotes ou varrendo o entorno, enquanto policiais corruptos confiscavam drogas para revender e grupos de limpeza social obrigavam todos a se esconder. A conclusão que ele tira daquele período é curta: nas ruas, não se confia em ninguém.
O banho às cinco da manhã que abriu a saída
Em meio a isso, um ritual se manteve. Todos os dias, às cinco da manhã, Gustavo tomava banho na fonte do Teatro Pablo Tobón Uribe. Depois, ia para a biblioteca Comfama. O amor pela leitura nunca foi interrompido, nem nos anos em que ele não tinha endereço.
Esse hábito acabou sendo o que o levou a procurar ajuda. Em 2015, com apoio do programa Centro Día, iniciou um processo de reintegração. Ele reconhece o papel do programa e faz uma ressalva direta sobre o que vem depois: a pessoa se reintegra à sociedade, mas não há emprego para quem sai da rua. A crítica é a políticas públicas, não ao atendimento que recebeu.
Se você ou alguém próximo enfrenta dependência química, o CVV atende pelo 188 e os Centros de Atenção Psicossocial da rede pública oferecem acompanhamento gratuito.
A carta de readmissão e a lanterna debaixo das cobertas
A volta à universidade teve um empurrão concreto. No alojamento estudantil onde estava hospedado, Gustavo reencontrou um advogado que o ajudou a redigir a carta de readmissão. Com o documento aceito, ele se matriculou de novo no curso que havia deixado quase quarenta anos antes.
Os anos seguintes não foram confortáveis. Professores bancaram fotocópias, a universidade o incluiu no programa de almoço gratuito e amigos ajudaram com despesas. No dormitório, as luzes se apagavam às 22h, e ele estudava com uma lanterna debaixo das cobertas. Mesmo assim, fechou todas as disciplinas com notas entre 4,5 e 5,0, semestre após semestre.
O diploma, a tese e quem estava na plateia
Assista o vídeo
A formatura em Direito está datada de 12 de dezembro, e a cerimônia no auditório foi noticiada no início de janeiro de 2025. O trabalho de conclusão dele é uma autoetnografia sobre a experiência de ser morador de rua em Medellín entre 1990 e 2015, ou seja, ele transformou os próprios 25 anos de calçada em objeto de pesquisa acadêmica.
Um detalhe do dia foi registrado pela Infobae: apenas um sobrinho o acompanhou na cerimônia. A mesma reportagem informa que ele sobreviveu ainda a um câncer, informação que não consta na matéria do El Colombiano e que veio à público quando o programa Los Informantes, do Canal Caracol, recontou a história cerca de seis meses depois da colação. Hoje ele vive em um quarto com livros e papéis, à espera de trabalho para que o título não seja apenas um símbolo.
E você, ainda daria uma chance a alguém aos 70?
A história de Gustavo Yepes Giraldo expõe uma pergunta desconfortável que ele mesmo formulou: quem contrata um advogado recém formado de 70 anos, com 25 anos de rua na biografia? A universidade abriu a porta de volta. O mercado de trabalho, até a última notícia, não.
Conta nos comentários: se você fosse dono de um escritório ou responsável por uma contratação, olharia esse currículo com interesse ou descartaria pela idade e pelo histórico? E o que essa trajetória diz sobre o que realmente falta a quem sai da rua, política pública de acolhimento ou oportunidade de emprego depois?
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

