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Filho de pedreiro analfabeto cresce ajudando o pai nas obras no sertão, supera dificuldades para estudar longe de casa, vira o primeiro graduado da família e tem foto da formatura entregue ao presidente Lula
Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 17/08/2026 às 10:51
Atualizado em 17/08/2026 às 10:52
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Criado em Mombaça, no sertão do Ceará, Emanuel Ferreira do Nascimento cresceu acompanhando o pai pedreiro nas obras e estudando em escola pública. Depois de enfrentar aulas remotas, dificuldades financeiras e a distância da família, contou com assistência estudantil, concluiu Arquitetura e Urbanismo na UFC e viu uma fotografia de sua formatura chegar às mãos do presidente Lula.
Muito antes de aprender a elaborar projetos arquitetônicos, Emanuel Ferreira do Nascimento já conhecia de perto o ambiente das obras. Ainda criança, acompanhava o pai, José Maria Alves Pereira do Nascimento, que trabalhava como pedreiro, ajudava no que conseguia e até levava comida durante os dias de serviço.
Dentro de casa, a universidade parecia uma realidade distante. O pai era analfabeto e a mãe, Maria das Dores Ferreira do Nascimento, havia estudado somente até o terceiro ano do ensino fundamental. Emanuel cresceu com seis irmãos, mas os pais insistiam para que os filhos estudassem e buscassem oportunidades que eles próprios nunca tiveram.
A escola pública abriu o primeiro caminho
Emanuel estudou na rede pública e concluiu o ensino médio em 2018, junto com uma formação técnica em Administração. Naquele mesmo período, fez o Enem e ingressou em Engenharia de Petróleo, mas aproximadamente um ano depois percebeu que não se identificava com o curso.
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A experiência de infância começou então a ganhar outro significado. A construção civil estava presente em sua memória desde os dias acompanhando o pai, enquanto a Arquitetura oferecia a possibilidade de unir construção, criação e arte. Emanuel fez novamente o Enem em 2019 e conseguiu uma vaga em Arquitetura e Urbanismo.
Pandemia e falta de dinheiro quase tornaram o caminho mais difícil
O início da nova graduação coincidiu com a pandemia. Emanuel passou três semestres estudando remotamente, dentro de uma casa cheia, com familiares e crianças ao redor, enfrentando dificuldades para encontrar silêncio e estrutura adequada para desenvolver os trabalhos do curso.
Quando as aulas presenciais retornaram, surgiu outro desafio: morar em Fortaleza. A família continuava ajudando como podia, mas os custos de viver longe de Mombaça pesavam no orçamento. Nesse período, a assistência estudantil da Universidade Federal do Ceará teve papel importante para que ele pudesse permanecer na graduação.
Registros oficiais da UFC mostram que Emanuel foi atendido por políticas de permanência estudantil e, em 2025, já perto da conclusão do curso, apareceu como classificado no Auxílio Concludente Caminhando Juntos, voltado a estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica.
O menino que acompanhava um pedreiro virou arquiteto
Em agosto de 2025, anos depois de acompanhar o pai nos canteiros de obras, Emanuel vestiu a beca para receber o diploma de Arquitetura e Urbanismo pela UFC. Familiares viajaram do interior do Ceará até Fortaleza para acompanhar a cerimônia.
Ali, a conquista deixou de representar apenas uma trajetória individual. Emanuel se tornou o primeiro integrante da família a concluir uma graduação em universidade pública.
Seu trabalho final também manteve uma ligação direta com suas origens. O projeto apresentou uma proposta de escola rural para Mombaça, combinando sustentabilidade, valorização cultural, viabilidade técnica e referências da arquitetura vernacular.
Uma foto de família que chegou ao presidente Lula
Durante a formatura, o fotógrafo Viktor Braga, da UFC, registrou Emanuel cercado por familiares. A imagem mostrava algo que um diploma sozinho não conseguia contar: diferentes gerações reunidas em torno de uma conquista inédita para aquela família.
Meses depois, aquela fotografia saiu do ambiente universitário e ganhou projeção nacional. Em janeiro de 2026, uma cópia foi levada a Brasília pelo reitor da UFC, Custódio Almeida, e entregue como presente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em encontro que também teve participação de Camilo Santana.
Para Emanuel, era uma fotografia familiar. Para quem conhecia sua história, porém, a imagem resumiria uma longa caminhada iniciada no sertão, dentro de uma casa onde os pais tiveram pouco ou nenhum acesso à educação formal.
A mãe viu o filho receber o diploma
A conquista ganhou um significado ainda mais profundo poucos meses depois. Maria das Dores morreu no início de dezembro de 2025, após complicações de um AVC. Ela, porém, conseguiu estar presente na formatura e ver o filho concluir a universidade.
Emanuel resumiu posteriormente o papel da mãe em sua trajetória com uma frase marcante: “Meu diploma tem meu nome, a assinatura é dela.”
Já formado, o arquiteto pretende continuar estudando, buscar uma pós-graduação e desenvolver trabalhos ligados ao semiárido, à arquitetura sertaneja e às formas populares de construir.
O menino que um dia acompanhava o pai analfabeto em obras no interior do Ceará terminou aprendendo a projetar os próprios espaços. E a fotografia daquele momento em que toda a família celebrou essa transformação percorreu um caminho tão inesperado quanto o dele: saiu de uma formatura em Fortaleza e chegou até a Presidência da República.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Noel Budeguer.

