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Filho de pedreiro e dona de casa de uma comunidade quilombola da Bahia, jovem estudou durante nove meses, das 11h às 18h, em uma casa emprestada sem energia elétrica nem internet, fez oito Enems e mais de 15 vestibulares, até tirar 980 na redação e ser aprovado em Medicina na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

Filho de pedreiro e dona de casa de uma comunidade quilombola da Bahia, jovem estudou durante nove meses, das 11h às 18h, em uma casa emprestada sem energia elétrica nem internet, fez oito Enems e mais de 15 vestibulares, até tirar 980 na redação e ser aprovado em Medicina na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

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Filho de pedreiro e dona de casa de uma comunidade quilombola da Bahia, jovem estudou durante nove meses, das 11h às 18h, em uma casa emprestada sem energia elétrica nem internet, fez oito Enems e mais de 15 vestibulares, até tirar 980 na redação e ser aprovado em Medicina na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

Escrito por Alisson Ficher

Publicado em 02/08/2026 às 20:30

Curiosidades

Jovem quilombola supera falta de energia e internet, tira 980 na redação do Enem e conquista vaga em Medicina na UFRB após oito provas.

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Rotina marcada por poucos recursos, trabalho e sucessivas tentativas levou um estudante baiano a criar métodos próprios de preparação para disputar uma vaga concorrida.

Entre limitações domésticas e dificuldades de acesso, o caminho até a universidade revela obstáculos presentes longe dos grandes centros.

Filho de um pedreiro e de uma dona de casa, Matheus de Araújo Moreira Silva transformou uma residência emprestada, sem eletricidade e acesso regular à internet, no principal espaço de preparação para o vestibular de Medicina.

Durante nove meses, o estudante manteve uma rotina das 11h às 18h, recorrendo a materiais em PDF e ao próprio celular, até alcançar 980 pontos na redação do Enem e conquistar uma vaga na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

Antes da aprovação, foram necessárias oito participações no Exame Nacional do Ensino Médio e mais de 15 vestibulares, em uma trajetória que também incluiu trabalhos temporários, restrições financeiras e dificuldades para encontrar um ambiente adequado de concentração.

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Estudante quilombola cresceu no interior da Bahia

Ligado a uma comunidade quilombola de Antônio Cardoso, no interior baiano, Matheus cursou toda a educação básica em escolas públicas estaduais e cresceu em uma família que preservava vínculos frequentes com a zona rural.

Em busca de melhores oportunidades de trabalho, os familiares deixaram o município e seguiram para Feira de Santana, embora tenham mantido a relação com a comunidade de origem e com a roça localizada na cidade natal.

Na residência da família, o jovem dividia os espaços com os pais e cinco irmãos, enquanto o pai trabalhava como pedreiro e a mãe se dedicava às tarefas domésticas e aos cuidados cotidianos da casa.

Sem acesso à alfabetização durante a juventude, os dois haviam crescido na zona rural e começado a trabalhar cedo, circunstância que reduziu as possibilidades de permanência na escola e de continuidade dos estudos formais.

Mesmo sem terem aprendido a ler e escrever, os pais acompanhavam as reuniões escolares, cobravam dedicação dos filhos e tratavam a educação como uma oportunidade concreta de ampliar as possibilidades profissionais da nova geração.

Dentro de casa, estudar era apresentado como um caminho capaz de impedir que as limitações enfrentadas pelos adultos fossem repetidas pelos filhos, especialmente em uma família marcada por trabalho precoce e poucas oportunidades educacionais.

Caminho até Medicina começou após a escola pública

Depois de concluir o ensino médio, Matheus percebeu que a entrada em Medicina exigiria uma preparação mais longa, já que o curso demandava pontuação elevada e domínio de conteúdos que não haviam sido aprofundados durante sua formação escolar.

Jovem quilombola supera falta de energia e internet, tira 980 na redação do Enem e conquista vaga em Medicina na UFRB após oito provas.

A diferença entre os primeiros resultados e as notas exigidas levou o estudante a repetir provas, reorganizar o método de preparação e rever a forma como distribuía o tempo entre trabalho, estudo e responsabilidades familiares.

Também havia uma motivação pessoal relacionada à escolha profissional, pois um dos irmãos enfrentou meningite meningocócica, experiência que despertou o interesse de Matheus pela área da saúde e permaneceu presente durante as tentativas de ingresso.

Trabalho e estudo fizeram parte da preparação

Para obter renda enquanto se preparava, ele ofereceu aulas de reforço escolar, exerceu outras atividades e trabalhou carregando mercadorias na Central de Abastecimento, conhecida como Ceasa, em Feira de Santana.

Em determinados períodos, um turno era reservado ao trabalho e o outro aos estudos, organização necessária para que a preparação continuasse mesmo sem uma fonte estável de renda ou acesso permanente a materiais didáticos.

Entre os espaços utilizados, a biblioteca municipal de Feira de Santana oferecia a tranquilidade que o estudante dificilmente encontrava em casa, onde a quantidade de moradores tornava mais complexa a concentração durante várias horas.

O fechamento da biblioteca durante a pandemia de Covid-19 interrompeu essa rotina justamente quando Matheus precisava avançar na preparação para disputar uma vaga em um dos cursos mais concorridos do ensino superior.

Sem o ambiente que sustentava sua organização diária, ele passou a procurar outra alternativa que permitisse continuar os estudos sem depender da estrutura doméstica compartilhada com pais, irmãos e demais atividades familiares.

Casa sem energia elétrica virou local de estudos

A solução apareceu quando uma amiga ofereceu uma residência desocupada para que Matheus pudesse estudar, embora o imóvel não tivesse energia elétrica, conexão com a internet ou condições adequadas de ventilação durante parte do dia.

Apesar dessas limitações, o jovem estabeleceu um horário fixo, chegando por volta das 11h e permanecendo até as 18h, o que ajudava a manter regularidade e a reproduzir parte da duração das provas do Enem.

Ao estudar no mesmo período em que o exame era aplicado, Matheus buscava acostumar o corpo e a concentração a uma jornada prolongada de questões e redação, ainda que o ambiente não oferecesse conforto ou estrutura convencional.

Sem computador disponível, o celular concentrou parte significativa dos conteúdos, incluindo arquivos em PDF, materiais compartilhados por amigos e videoaulas acessadas por meio do pacote de dados móveis usado pelo estudante.

Com o dinheiro que conseguia reunir, ele comprava conteúdos digitais e complementava a preparação com materiais cedidos por colegas, numa rotina dependente de recursos limitados e de soluções improvisadas para manter o aprendizado.

Segundo entrevista concedida por Matheus ao jornal A Tarde, foram nove meses de estudos na casa emprestada, período em que ele procurou avançar diariamente, mesmo sem acesso à mesma estrutura encontrada em cursinhos completos.

Oito Enems e mais de 15 vestibulares

A repetição das provas trouxe frustrações e aumentou a pressão para encontrar emprego, sobretudo porque o estudante já havia terminado a escola e continuava destinando uma parte importante da rotina à preparação acadêmica.

Ao todo, Matheus realizou oito edições do Enem e participou de mais de 15 vestibulares, números que registram uma trajetória formada por sucessivas tentativas, mudanças de estratégia e retomadas depois de resultados insuficientes.

Cada nova prova exigia reorganização financeira, revisão de conteúdos e manutenção do ritmo de estudos, enquanto a vaga em Medicina permanecia condicionada a um desempenho superior ao alcançado nas tentativas anteriores.

Nota 980 abriu caminho para a universidade

Na edição que garantiu a aprovação, o estudante alcançou 980 pontos na redação, resultado próximo da pontuação máxima de mil e decisivo para o processo que o levou à Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

O ingresso na UFRB abriu uma nova etapa, marcada pelas exigências de um curso integral, pela redução do tempo disponível para trabalhar e pelas despesas relacionadas a transporte, alimentação, materiais e permanência universitária.

Posteriormente, Matheus participou de um processo de transferência para a Universidade Estadual de Feira de Santana, mudança que permitiu a continuidade da graduação na cidade onde sua família vivia e onde parte de sua formação ocorreu.

Experiência passou a ser compartilhada com outros estudantes

Além das atividades acadêmicas, ele começou a compartilhar sua rotina nas redes sociais e a conversar com estudantes de escolas públicas sobre vestibulares, organização de estudos e preparação para a redação do Enem.

A experiência também foi levada a aulas, palestras e materiais digitais, já que Matheus continuou ensinando, produziu um conteúdo voltado à prova escrita e passou a relatar os métodos usados durante a preparação.

Na mesma família, dois irmãos chegaram ao ensino superior, um na área de Psicologia e outro em Sistemas de Informação, ampliando o acesso universitário em uma geração cujos pais não puderam permanecer na escola.

Desse modo, a formação acadêmica que não esteve disponível para os adultos passou a fazer parte da trajetória dos filhos, numa mudança construída por esforço familiar, educação pública e oportunidades de ingresso no ensino superior.

Comunidade quilombola permanece nos planos profissionais

Entre os objetivos apresentados por Matheus está o retorno profissional à região de origem após a graduação, com a intenção de trabalhar por um período junto à comunidade quilombola à qual sua família permanece vinculada.

Saúde da família, oncologia e otorrinolaringologia aparecem entre as áreas consideradas pelo estudante, embora a definição de uma especialidade dependa das etapas posteriores do curso e das experiências acumuladas durante a formação médica.

Quantos estudantes com potencial semelhante ainda precisam transformar espaços improvisados em salas de aula para disputar cursos concorridos, enquanto enfrentam limitações de renda, acesso à internet e estrutura adequada de preparação?


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

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