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Fim da profissão motorista de ônibus: empresas já enfrentam falta de profissionais, veteranos estão deixando o volante e uma combinação de salários, pressão, violência e saúde ajuda a explicar o que está acontecendo
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 10/08/2026 às 16:57
Atualizado em 10/08/2026 às 16:58
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Escassez de profissionais, desgaste acumulado e dificuldade para renovar os quadros colocam a carreira de motorista de ônibus no centro de um desafio que envolve empresas, trabalhadores e a operação do transporte coletivo em diferentes regiões do Brasil.
A falta de motoristas de ônibus já pressiona empresas de transporte urbano em diferentes regiões do Brasil, enquanto profissionais experientes deixam a atividade e operadores encontram dificuldade para repor quadros necessários ao funcionamento diário das linhas e das escalas.
A dimensão do problema aparece na Pesquisa CNT de Mobilidade da População Urbana de 2023: 53,4% das empresas de transporte urbano de passageiros consultadas apontaram escassez de motoristas, e 33,3% mencionaram a baixa atratividade da profissão.
O percentual, portanto, deve ser lido como resultado de um levantamento de 2023, e não como uma medição produzida em 2026, embora a própria Confederação Nacional do Transporte continue usando a pesquisa ao discutir a falta de trabalhadores no setor.
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Salário, pressão e rotina pesam na permanência
A remuneração aparece como um dos pontos de insatisfação associados à saída de profissionais, mas o desgaste relatado envolve também escalas, cobrança por horários, trânsito intenso, responsabilidade pelo transporte de passageiros e conflitos acumulados durante anos de trabalho.
Para quem permanece na função, a rotina exige atenção constante e pouca margem para erro, especialmente em sistemas urbanos sujeitos a congestionamentos, atrasos e contato direto com passageiros, fatores que aumentam a pressão sobre o motorista durante praticamente toda a jornada.
A migração para aplicativos e outras atividades de direção também surge como alternativa para parte desses trabalhadores, não necessariamente pela garantia de renda maior, mas pela possibilidade de organizar horários com mais autonomia e reduzir a dependência de escalas fixas.
Saúde e violência ampliam o desgaste dos motoristas
Uma pesquisa publicada em 2022 na revista Psicologia: Ciência e Profissão avaliou 317 motoristas profissionais de Petrolina, em Pernambuco, e Juazeiro, na Bahia, e encontrou relação entre qualidade do sono, estresse e qualidade de vida entre os participantes.
No levantamento, 26,5% apresentaram sintomas de estresse, enquanto os motoristas de ônibus tiveram os maiores percentuais de qualidade ruim do sono e presença de distúrbios do sono na comparação entre as categorias profissionais analisadas pelos pesquisadores.
O mesmo estudo registrou ainda exposição a situações de violência e insegurança entre motoristas profissionais, incluindo ocorrências no trânsito e assaltos, reforçando que as condições de trabalho não podem ser avaliadas apenas pelo salário recebido ao fim do mês.
Gestão pode influenciar a retenção de profissionais
Para a advogada especializada em gestão de riscos empresariais Liana Variani, melhorar a remuneração é uma das ferramentas disponíveis, mas empresas também podem atuar na gestão cotidiana, especialmente na comunicação, no preparo das lideranças e na previsibilidade oferecida aos trabalhadores.
“A primeira medida é ouvir os motoristas”, afirma Liana, ao defender canais internos capazes de revelar problemas enfrentados na operação antes que o acúmulo de conflitos, insatisfação e falta de diálogo comprometa ainda mais a permanência dos profissionais.
Segundo a especialista, o modo como chefias imediatas lidam com suas equipes também interfere no ambiente de trabalho, porque cobranças mal conduzidas e relações marcadas por conflitos podem agravar um desgaste que já existe nas ruas e nas garagens.
A organização das escalas é outro ponto citado por Liana, que defende cumprimento dos períodos de descanso, menor frequência de alterações repentinas e maior previsibilidade das jornadas para que o motorista consiga organizar melhor a rotina profissional e pessoal.
Formação interna pode reduzir a falta de motoristas
Empresas também podem ampliar a formação de trabalhadores que já conhecem a operação, preparando cobradores, manobristas ou outros funcionários para a função de motorista, além de aproveitar condutores experientes como instrutores, monitores operacionais e multiplicadores de treinamento.
Esse tipo de caminho não elimina a necessidade de contratar novos profissionais, mas permite construir mão de obra dentro da própria organização e oferecer perspectivas de crescimento a trabalhadores que, sem alternativas internas, poderiam buscar oportunidades fora do transporte coletivo.
A escassez afeta diretamente o planejamento operacional, porque menos motoristas disponíveis significam maior dificuldade para preencher escalas, ampliar serviços e colocar novos veículos em circulação, mesmo quando as empresas investem na modernização ou renovação de suas frotas.
Num setor que também avança em eletrificação, tecnologia embarcada e novos padrões de operação, a disponibilidade de condutores continua sendo uma condição básica: ônibus modernos não substituem profissionais habilitados, preparados e dispostos a permanecer na atividade por muitos anos.
Se remuneração, pressão, segurança, saúde e tratamento dentro das empresas continuarem pesando na decisão de quem permanece ao volante, o que o setor precisará mudar para que novos profissionais enxerguem futuro na carreira de motorista de ônibus?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

