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Fóssil de 236 milhões de anos pode mudar a história dos mamíferos ao revelar que ancestral do tamanho de um cachorro já dava à luz filhotes vivos

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6 min de leitura

Fóssil de 236 milhões de anos pode mudar a história dos mamíferos ao revelar que ancestral do tamanho de um cachorro já dava à luz filhotes vivos

Escrito por Fabio Lucas Carvalho

Publicado em 17/08/2026 às 05:57

Atualizado em 17/08/2026 às 05:58

Ciência e Tecnologia

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Fóssil encontrado na Argentina apresenta uma linha neonatal e proporção corporal semelhante à de mamíferos atuais, levantando a hipótese de que o nascimento de filhotes vivos surgiu até 95 milhões de anos antes do estimado.

Um cinodonte carnívoro do tamanho de um cachorro, que viveu há cerca de 236 milhões de anos na atual Argentina, pode ter dado à luz filhotes vivos, indicando que a viviparidade surgiu muito antes do estimado.

Fóssil de 236 milhões de anos traz indício de viviparidade

Pesquisadores encontraram em um fóssil de Chiniquodon theotonicus uma marca de crescimento que pode ajudar a reconstruir como esses ancestrais dos mamíferos se reproduziam durante o período Triássico.

A equipe identificou uma linha neonatal em um osso fossilizado do animal, um cinodonte carnívoro do tamanho de um cachorro que viveu há aproximadamente 236 milhões de anos no território que hoje corresponde ao noroeste da Argentina.

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O estudo foi publicado em 13 de agosto na revista Frontiers in Mammal Science. Segundo os pesquisadores, a descoberta pode antecipar em cerca de 90 a 95 milhões de anos o surgimento da viviparidade na linhagem dos mamíferos.

A viviparidade é a estratégia reprodutiva na qual os filhotes permanecem se desenvolvendo dentro da mãe antes do nascimento.

“Esta é a primeira vez que temos evidências de como esses ancestrais mamíferos se reproduziam”, afirmou Leandro Gaetano, primeiro autor do estudo e paleontólogo do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica da Argentina.

Mamíferos, seus ancestrais extintos e parentes próximos fazem parte do clado Cynodontia, que surgiu há aproximadamente 260 milhões de anos, durante o Permiano Superior.

Depois da Grande Extinção, ocorrida há 252 milhões de anos e associada ao início do Triássico, os cinodontes prosperaram.

Linha neonatal permitiu estimar o tamanho do filhote

A evidência central encontrada pelos cientistas foi uma marca de crescimento no osso fossilizado de C. theotonicus.

Dados observados em espécies vivas indicam que esse tipo de marca corresponde a um anel de material ósseo desorganizado chamado linha neonatal.

Ela se forma quando o crescimento acelera rapidamente depois do nascimento ou da eclosão. De acordo com Gaetano, essas marcas são comuns nos ossos de animais terrestres atuais.

“Quando você está dentro de um ovo ou na barriga da sua mãe, você tem pouco espaço e cresce muito lentamente”, explicou Gaetano.

“Quando você eclode ou nasce, você tem muito espaço e começa a crescer muito, muito rápido”, acrescentou.

A equipe mediu a linha neonatal e analisou o tamanho geral dos ossos das pernas e dos braços do indivíduo adulto estudado.

Com esses dados, os pesquisadores estimaram que o animal pesava aproximadamente 12 quilos quando morreu.

Ao nascer, porém, ele teria cerca de 1,7 quilo, equivalente a aproximadamente 14% de sua massa corporal adulta.

Essa proporção passou a ser um dos principais elementos utilizados pelos pesquisadores para investigar se o animal poderia ter nascido diretamente da mãe em vez de ter saído de um ovo.

Comparação envolveu mais de 5 mil espécies atuais

Para avaliar a hipótese, os pesquisadores compararam os valores calculados para C. theotonicus com dados de milhares de espécies que vivem atualmente.

A análise incluiu 1.869 espécies de mamíferos, 2.619 répteis não aviários e 782 espécies de aves.

Os cientistas observaram mais detalhadamente animais adultos com faixas de peso semelhantes à estimada para o cinodonte.

Entre répteis, incluindo cobras, tartarugas e crocodilianos, indivíduos adultos com peso entre 8 e 14,5 quilos produzem filhotes correspondentes a apenas 0,1% a 0,6% da massa adulta.

Nas aves analisadas, adultos entre 8 e 21,5 quilos, incluindo alguns grous e abutres, produzem filhotes equivalentes a aproximadamente 1,3% a 4,5% da massa corporal adulta.

Os mamíferos apresentaram uma relação diferente. Entre espécies adultas com peso entre 8 e 15 quilos, alguns filhotes podem chegar a cerca de 20% da massa do adulto.

O resultado se aproxima mais dos aproximadamente 14% estimados para o filhote de C. theotonicus.

O antílope duiker-baía, Cephalophus dorsalis, foi citado como exemplo. A espécie dá à luz filhotes com peso próximo ao estimado para um recém-nascido de C. theotonicus.

Segundo Gaetano, essa semelhança entre a relação de massa do recém-nascido e do adulto sugere que o antigo cinodonte também poderia dar à luz filhotes vivos.

Emily Rayfield, paleobióloga da Universidade de Bristol, no Reino Unido, que não participou do estudo, considerou a descoberta sugestiva, mas ressaltou sua limitação.

“Não é a prova definitiva, mas sugere que elas estão dando à luz filhotes vivos”, afirmou.

Nascimento de filhotes vivos pode ter oferecido proteção no Triássico

Gaetano também apontou uma possível vantagem da viviparidade no ambiente em que esses animais viveram.

“O Triássico foi uma época muito difícil para se viver”, afirmou o pesquisador.

Segundo ele, o período ocorreu depois de um grande evento de extinção, enquanto os ecossistemas estavam sendo reorganizados e animais ocupavam nichos que haviam ficado disponíveis.

Gaetano citou enorme competição por recursos, forte pressão de predação e condições muito áridas.

Nesse cenário, segundo sua interpretação, embriões de espécies vivíparas poderiam ficar mais protegidos do que embriões de animais que depositavam ovos no ambiente.

Anne Weil, paleontóloga de vertebrados da Universidade Estadual de Oklahoma e que também não participou do estudo, destacou uma diferença prática entre as duas estratégias.

Segundo ela, um ovo não consegue se afastar de um predador, enquanto um animal jovem pode fazê-lo, condição que classificou como uma “grande vantagem”.

Weil afirmou ainda não ter ficado surpresa com a possibilidade de viviparidade em C. theotonicus, diante da variedade de estratégias reprodutivas observadas entre vertebrados vivos.

Evidência ainda precisa ser confirmada por novas pesquisas

Até alguns anos atrás, o nascimento de filhotes vivos era frequentemente considerado uma aquisição evolutiva relativamente moderna na linhagem dos mamíferos, surgida a partir da postura de ovos.

O novo estudo se soma a evidências recentes que questionam essa interpretação.

C. theotonicus viveu antes mesmo da separação entre os ancestrais dos marsupiais e os ancestrais dos mamíferos placentários.

“Isso pode ser uma evidência de uma mudança geral da postura de ovos para o nascimento de filhotes vivos no início da linhagem dos mamíferos, mas precisamos de mais evidências”, afirmou Gaetano.

Rayfield também defendeu cautela. “Na minha opinião, o nascimento de filhotes vivos surgiu mais cedo do que pensávamos, mas ainda precisamos de muito mais evidências para realmente confirmar isso”, disse.

Segundo Gaetano, outras características consideradas típicas dos mamíferos também podem ter raízes mais antigas.

Entre os exemplos citados estão indícios de bigodes em Probainognathus, cinodonte carnívoro de cerca de 230 milhões de anos, e sinais de pelos e lactação em Prozostrodontia, que viveu há aproximadamente 240 milhões de anos.

“Normalmente pensamos nos ancestrais dos mamíferos como pequenas criaturas com aparência de répteis”, afirmou Gaetano. “Mas estamos encontrando diversas evidências que apontam para o fato de que esses animais eram mais semelhantes aos mamíferos atuais do que imaginávamos.”

Com informações de livescience.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Fabio Lucas Carvalho.

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