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Gigante das esfihas também cai e entra em sua batalha mais difícil: Habib’s deve R$ 265 milhões e corre contra o tempo
Escrito por Paulo Nogueira
Publicado em 26/08/2026 às 20:45
Atualizado em 26/08/2026 às 20:51
Economia
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Controlador das redes Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill busca reorganizar 178 empresas enquanto mantém restaurantes funcionando e prepara uma transformação no modelo de negócio
As portas continuam abertas, os pedidos seguem sendo preparados e os clientes ainda encontram as tradicionais esfihas no cardápio. Nos bastidores, entretanto, o Habib’s enfrenta uma recuperação judicial envolvendo R$ 265,2 milhões em dívidas, dezenas de empresas e um prazo decisivo para demonstrar que o negócio consegue permanecer de pé.
O pedido foi apresentado pelo Grupo Gennius em 24 de agosto de 2026 e teve seu processamento autorizado pela 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. Conforme dados publicados pela CNN Brasil, o passivo declarado no processo alcança exatamente R$ 265.207.959,83.
A notícia despertou dúvidas sobre um possível encerramento da rede. Contudo, esse não é o cenário anunciado pela companhia. O Grupo Gennius sustenta que os restaurantes permanecem em atividade enquanto tenta reorganizar as contas e construir um acordo com os credores.
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Proteção judicial tenta impedir que a crise paralise os restaurantes
A recuperação judicial funciona como uma área de proteção temporária para empresas que perderam capacidade de pagar suas obrigações nas condições originais, mas ainda possuem atividade econômica.
Durante esse período, algumas cobranças e execuções ficam suspensas. Assim, em vez de cada credor tentar receber separadamente, as dívidas passam a ser discutidas dentro de um único processo.
Esse mecanismo não elimina os débitos nem garante que a empresa sobreviverá. Ele apenas cria tempo e condições jurídicas para uma tentativa de reorganização.
No caso do Habib’s, a medida busca preservar o funcionamento das cozinhas, o abastecimento dos restaurantes, os contratos comerciais e a geração de receita. Afinal, sem vender, o grupo também perderia sua principal fonte de recursos para financiar a recuperação.
Fornecedores ligados aos créditos abrangidos pelo processo não poderão interromper contratos somente por causa das dívidas antigas. Porém, o grupo precisará pagar pelas novas entregas nas condições estabelecidas comercialmente.
Processo alcança uma estrutura muito maior do que as lojas conhecidas pelo público
Embora o nome Habib’s concentre as atenções, o processo revela uma organização empresarial ampla e interdependente.
Ao todo, 178 pessoas jurídicas aparecem como requerentes. Esse conjunto reúne empresas responsáveis por restaurantes, franquias, produção de alimentos, atendimento remoto, imóveis, suporte operacional e administração das diferentes marcas.
A composição apresentada à Justiça inclui:
- 10 franqueadoras e holdings;
- 17 sociedades responsáveis por atividades operacionais;
- 6 churrascarias Tendall Grill;
- 119 empresas ligadas a lojas Habib’s;
- 26 operações relacionadas ao Ragazzo.
O grupo argumenta que essas companhias compartilham obrigações, garantias e atividades essenciais. Em vários casos, uma empresa teria oferecido aval para financiamentos contratados por outra.
Essa ligação explica a tentativa de reunir todos os passivos em uma única reorganização. Uma solução limitada a determinados restaurantes não resolveria compromissos distribuídos por toda a cadeia.
A crise representa uma mudança de direção na trajetória construída pelo fundador da rede. O CPG mostrou como Alberto Saraiva assumiu uma pequena padaria endividada e transformou aquela experiência no ponto de partida para a criação do Habib’s.
Quase quatro décadas depois, o desafio deixou de ser conquistar espaço no mercado. Agora, a prioridade é preservar uma estrutura que cresceu, se diversificou e acumulou compromissos financeiros difíceis de administrar.
Pandemia, delivery e juros elevados pressionaram as contas
A crise financeira não surgiu a partir de um único acontecimento. Segundo os argumentos apresentados pelo Grupo Gennius, três movimentos contribuíram para aumentar a pressão sobre o caixa.
Primeiro, a pandemia reduziu drasticamente o movimento em restaurantes, shopping centers e regiões comerciais. As restrições daquele período atingiram especialmente unidades grandes, criadas para receber um fluxo elevado de clientes.
Depois, o avanço das plataformas de entrega modificou a relação do consumidor com os restaurantes. Parte do público deixou de frequentar salões físicos e passou a priorizar pedidos feitos pelo celular.
Embora o Habib’s também participe desse mercado, a mudança diminuiu a importância das grandes lojas e tornou algumas estruturas mais caras do que o volume de vendas justificava.
O terceiro fator foi o aumento dos juros. Com o crédito mais caro, empréstimos e financiamentos passaram a consumir uma parcela maior das receitas. A rolagem de dívidas também se tornou mais difícil.
O grupo tentou negociar os passivos fora de uma recuperação judicial, utilizando um procedimento de mediação. Entretanto, as conversas não produziram uma solução suficiente para afastar o risco financeiro.
Receitas dos cartões continuarão retidas pelos bancos
A proteção concedida pela Justiça não contemplou todos os pedidos apresentados pelo Grupo Gennius.
A companhia tentou recuperar o controle sobre recebíveis e aplicações financeiras anteriormente utilizados como garantia em contratos bancários. Esses valores poderiam reforçar o capital de giro e ajudar no pagamento das despesas diárias.
O pedido, contudo, foi negado. Dessa maneira, bancos com garantias fiduciárias poderão continuar utilizando os recursos retidos para reduzir os créditos que possuem contra o grupo.
Essa decisão cria uma dificuldade adicional. O Habib’s precisa manter restaurantes, pagar trabalhadores e comprar insumos enquanto uma parcela de suas receitas permanece comprometida com instituições financeiras.
Entre os credores mencionados no processo aparecem Bradesco e Itaú Unibanco. Outros fornecedores e prestadores de serviços também terão seus créditos analisados durante a recuperação.
Consumidores continuarão encontrando lojas abertas
Para quem frequenta os restaurantes, a recuperação judicial não provoca uma mudança imediata.
O grupo não anunciou uma paralisação nacional, cancelamento geral de pedidos ou fechamento simultâneo das unidades. Os canais de atendimento e as lojas em atividade devem continuar operando.
Também não existe, até o momento, um anúncio de demissão coletiva provocado diretamente pelo processo. Todavia, uma recuperação dessa dimensão normalmente exige decisões para reduzir custos e aumentar a eficiência.
Portanto, o plano poderá incluir encerramento de unidades deficitárias, renegociação de aluguéis, venda de bens, revisão de contratos e reorganização administrativa. Essas possibilidades ainda dependem da proposta que será apresentada à Justiça.
Franqueados também precisarão acompanhar os próximos passos. A crise envolve áreas que fornecem produtos, tecnologia, publicidade e apoio operacional para diferentes restaurantes.
Isso não significa, porém, que todas as franquias pertencem diretamente às empresas endividadas. Cada unidade pode possuir contratos, proprietários e responsabilidades jurídicas específicos.
Um Habib’s menor e mais voltado ao delivery pode surgir da recuperação
A reorganização deverá ultrapassar a renegociação de dívidas. Para aumentar suas chances de sobrevivência, o grupo precisará adaptar o formato das lojas à nova realidade do setor de alimentação.
Unidades grandes possuem despesas elevadas com aluguel, energia, manutenção e funcionários. Quando o movimento presencial diminui, essa estrutura passa a pesar mais sobre o resultado.
Por esse motivo, lojas menores, quiosques, operações em praças de alimentação e cozinhas dedicadas ao delivery podem ganhar espaço.
O grupo já sinalizou interesse em novos pontos comerciais voltados a mercados com potencial de crescimento. Portanto, a recuperação pode combinar o encerramento de operações pouco rentáveis com a abertura de unidades mais compactas.
Essa transformação não acontece apenas no setor de restaurantes. Diversas companhias brasileiras estão recorrendo à Justiça para adaptar dívidas e operações a um ambiente econômico mais difícil.
O CPG mostrou que Casas Bahia, Braskem e outras grandes empresas brasileiras iniciaram processos para reorganizar compromissos bilionários.
A petroquímica, por exemplo, busca renegociar aproximadamente US$ 10,9 bilhões por meio de uma recuperação extrajudicial.
Prazo de 60 dias colocará a viabilidade da rede à prova
O Grupo Gennius terá 60 dias, sem prorrogação, para protocolar seu plano de recuperação. O documento deverá mostrar como a empresa pretende pagar os credores e financiar suas atividades.
A proposta poderá estabelecer novos prazos, descontos, carência, venda de ativos ou conversão de determinadas dívidas. Depois disso, os credores poderão questionar os valores e rejeitar as condições oferecidas.
A KPMG Corporate Finance acompanhará o processo como administradora judicial. Sua responsabilidade será fiscalizar documentos, verificar as informações econômicas e fornecer apoio técnico à Justiça.
Os atuais controladores continuarão administrando o grupo. A consultoria não assumirá o comando dos restaurantes, embora possa apontar irregularidades ou inconsistências encontradas durante a análise.
Se o plano não for entregue dentro do prazo, a empresa ficará exposta ao risco de falência. O mesmo poderá acontecer posteriormente caso a proposta não seja aprovada ou as obrigações assumidas sejam descumpridas.
O Habib’s, portanto, não está fechando agora. Entretanto, a continuidade da rede dependerá da capacidade de transformar faturamento em caixa, recuperar a confiança dos fornecedores e convencer os credores de que o negócio ainda possui futuro.
Os restaurantes seguem funcionando, mas a contagem regressiva financeira já começou.
Na sua opinião, o Habib’s conseguirá se reinventar e superar esta crise?
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Paulo Nogueira.

