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Guerra obrigou estudante a abandonar a faculdade quando faltava apenas um semestre, deixou-o mais de 10 anos sem acesso à educação em um campo de refugiados e, após trabalhar em fábrica, ele conseguiu concluir engenharia elétrica
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 10/08/2026 às 18:36
Atualizado em 10/08/2026 às 18:37
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Myer Tuolee estava prestes a receber o diploma quando a guerra civil na Libéria interrompeu sua graduação e o levou a um campo de refugiados em Gana, onde permaneceu mais de uma década sem acesso à educação.
Faltava apenas um semestre. Depois de anos frequentando aulas, realizando provas e avançando na formação, Myer Tuolee estava muito perto de conquistar o diploma de engenheiro quando a guerra civil na Libéria mudou completamente o rumo de sua vida.
Em pouco tempo, o universitário que se preparava para concluir o curso precisou deixar o país e passou a viver em um campo de refugiados em Gana. O local oferecia recursos essenciais para a sobrevivência, mas não disponibilizava educação. O último semestre, que deveria durar poucos meses, transformou-se em uma espera superior a dez anos.
A trajetória foi relatada pelo College of Engineering da Ohio State University. A instituição apresentou a história de Tuolee em maio de 2017, quando ele integrava a turma de formandos em engenharia elétrica.
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Um semestre que virou uma espera de mais de dez anos
Myer Tuolee cursava engenharia na Libéria e estava a apenas um semestre de receber o diploma quando a guerra civil começou. A violência e a instabilidade provocadas pelo conflito impediram que ele concluísse a etapa final da graduação.
Tuolee foi para um campo de refugiados em Gana, onde passou a depender da assistência oferecida às pessoas deslocadas pelo conflito. Segundo seu relato, a comissão responsável disponibilizava alimentação, abrigo e medicamentos, mas não oferecia oportunidades educacionais.
Sem uma instituição na qual pudesse continuar a graduação, ele ficou mais de dez anos sem frequentar a escola. Não se tratava de uma pausa planejada nem de uma decisão de abandonar a engenharia. A interrupção foi provocada por circunstâncias que estavam completamente fora de seu controle.
Enquanto outros estudantes avançavam na carreira, Tuolee permaneceu afastado das salas de aula, dos laboratórios, dos livros atualizados e das experiências profissionais ligadas à engenharia. O diploma estava próximo quando a guerra começou, mas não havia previsão de quando ele poderia recuperar o projeto interrompido.
A fábrica como ponto de recomeço
Em setembro de 2009, depois de mais de uma década no campo de refugiados, Tuolee deixou Gana e seguiu para os Estados Unidos. Ele viajou para se reunir com a namorada e a filha e precisou encontrar uma maneira de sustentar a família na nova realidade.
Seu recomeço profissional aconteceu em uma fábrica. A função específica exercida por ele não foi detalhada pela universidade, mas o ambiente de trabalho acabou tendo importância decisiva em sua trajetória.
Dentro da fábrica, Tuolee conheceu engenheiros e tornou-se amigo de alguns deles. Ao descobrirem que ele havia cursado engenharia antes de a guerra interromper sua formação, esses profissionais passaram a incentivá-lo a voltar à universidade.
O emprego que inicialmente representava uma fonte de renda tornou-se também uma conexão com o sonho deixado para trás. A convivência com engenheiros mostrou que ainda havia espaço para retomar os estudos, mesmo depois de tantos anos afastado da educação formal.
Voltar, entretanto, exigiria muito mais do que realizar uma nova matrícula. Tuolee precisaria recuperar hábitos de estudo, adaptar-se a outro sistema de ensino e enfrentar disciplinas complexas enquanto mantinha uma jornada profissional em tempo integral.
Trabalho integral e retorno à sala de aula
Tuolee decidiu voltar a estudar, mas não poderia deixar o emprego. Ele continuou trabalhando em tempo integral para sustentar a família enquanto avançava na formação em engenharia elétrica.
A rotina passou a exigir organização rigorosa. O estudante precisava administrar os horários da fábrica, as aulas, os trabalhos acadêmicos e os prazos estabelecidos pelos professores. Depois de mais de dez anos fora da escola, ele também teve de reconstruir o ritmo necessário para acompanhar uma graduação na área tecnológica.
Outro desafio foi adaptar-se às diferenças de estrutura educacional encontradas nos Estados Unidos. Ao relatar sua experiência pessoal na Libéria, Tuolee mencionou dificuldades como a falta de boas bibliotecas e de livros didáticos atualizados.
Na Ohio State University, ele encontrou professores que, em alguns casos, eram autores dos próprios livros utilizados durante as aulas. Isso permitia discutir o conteúdo diretamente com quem o havia produzido e corrigir eventuais erros durante as explicações.
A comparação feita por Tuolee refletia as condições específicas vividas por ele antes da guerra e não deve ser interpretada como uma avaliação generalizada de todas as universidades africanas. Para o estudante, porém, o acesso a materiais atualizados representou uma transformação importante em sua formação.
Experiências além da sala de aula
O retorno à universidade também aproximou Tuolee de profissionais e diferentes setores da engenharia. Além das aulas, ele participou de um programa de observação profissional que possibilitou conhecer instalações reais e acompanhar como os conhecimentos acadêmicos eram aplicados no ambiente de trabalho.
A experiência ajudou a conectar teoria e prática. Depois de anos distante da área, ele pôde observar processos, instalações e responsabilidades que fazem parte da rotina de um engenheiro.
Tuolee também passou a valorizar os prazos rigorosos definidos pelos professores. Para ele, trabalhar com datas estabelecidas ajudava a desenvolver responsabilidade, organização e respeito pelo tempo, características necessárias tanto na universidade quanto na vida profissional.
A mesma disciplina exigida para cumprir as atividades acadêmicas era necessária para conciliar os estudos com o emprego. Cada semestre concluído representava um avanço sobre a interrupção que havia começado na Libéria.
O diploma recuperado depois da guerra
Em maio de 2017, Myer Tuolee chegou à formatura em engenharia elétrica na Ohio State University. O estudante que estava a apenas um semestre do diploma antes da guerra finalmente concluiu a formação, mas somente depois de atravessar um campo de refugiados, mais de dez anos sem escola, a imigração e uma rotina dividida entre fábrica e universidade.
O diploma não devolveu o tempo perdido nem apagou as dificuldades enfrentadas. Ele representou, contudo, a recuperação de um projeto que havia sido interrompido quando parecia estar praticamente concluído.
A trajetória também mostra como oportunidades educacionais, incentivo profissional e condições para recomeçar podem mudar o destino de pessoas obrigadas a abandonar seus estudos. Os engenheiros que Tuolee conheceu na fábrica não concluíram o curso por ele, mas ajudaram a lembrá-lo de que sua formação ainda poderia ser retomada.
Mais de dez anos separaram o último semestre interrompido na Libéria da formatura nos Estados Unidos. Entre esses dois momentos, Tuolee deixou de ser um estudante impedido de continuar e tornou-se um engenheiro que reconstruiu a própria carreira enquanto trabalhava para sustentar a família.
Quantos talentos são perdidos quando guerras interrompem a educação, e quantas vidas poderiam ser reconstruídas se todo refugiado recebesse uma oportunidade real de voltar a estudar?
Fonte
Engineering OSU
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

