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Há 30 milhões de anos, um “cachorro” do tamanho de um coiote tinha pernas curtas, corpo atarracado, podia subir em árvores e caçava escondido para surpreender presas

Há 30 milhões de anos, um “cachorro” do tamanho de um coiote tinha pernas curtas, corpo atarracado, podia subir em árvores e caçava escondido para surpreender presas

6 min de leitura

Há 30 milhões de anos, um “cachorro” do tamanho de um coiote tinha pernas curtas, corpo atarracado, podia subir em árvores e caçava escondido para surpreender presas

Escrito por Caio Aviz

Publicado em 04/08/2026 às 08:36

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Representação ilustrativa do Mesocyon coryphaeus, antigo canídeo que tinha pernas curtas, corpo robusto e características associadas a emboscadas e escaladas.

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Fóssil quase completo do Mesocyon coryphaeus revela um antigo canídeo com anatomia muito diferente dos cães modernos e ajuda a explicar como essa família evoluiu.

Há cerca de 30 milhões de anos, um antigo integrante da família dos cães percorria a América do Norte com pernas curtas, corpo robusto e uma forma de caçar muito diferente da observada hoje em lobos, coiotes e raposas. O Mesocyon coryphaeus não tinha o corpo alongado dos grandes corredores modernos e provavelmente dependia de ataques rápidos e emboscadas para capturar suas presas.

O animal ganhou uma nova reconstrução anatômica graças a um fóssil quase completo encontrado no Monumento Nacional dos Leitos Fósseis de John Day, no Oregon, Estados Unidos. O estudo foi publicado em 29 de maio de 2026 no Journal of Paleontology e teve participação da paleontóloga Anne Kort, da Universidade de Michigan.

O exemplar chama atenção principalmente pelo estado de preservação. Quase todo o esqueleto permaneceu intacto, permitindo aos pesquisadores observar características que revelam como esse antigo canídeo caminhava, caçava e até como movimentava os membros dianteiros.

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Fóssil de Mesocyon coryphaeus ficou anos identificado como outro mamífero

A história da descoberta começou no fim da década de 1980, quando os ossos foram retirados do solo no Oregon. Na época, os paleontólogos acreditaram que o esqueleto pertencia a um oreodonte, grupo extinto de mamíferos relacionados de maneira distante a animais como ovelhas, camelos e porcos.

A identificação começou a mudar anos depois, quando o crânio foi separado do restante do material para ser preparado para uma exposição. A anatomia da cabeça revelou que aquele animal não era um oreodonte, mas um representante antigo da família dos cães.

O restante do esqueleto só foi preparado em 2012. A partir desse trabalho, os pesquisadores perceberam que tinham diante deles o exemplar mais completo já conhecido de Mesocyon coryphaeus e um dos fósseis de cães pré-glaciais mais completos encontrados na América do Norte.

Segundo Anne Kort, o esqueleto preserva praticamente todo o corpo, com exceção da cauda e de partes das mãos e dos pés. Esse nível de conservação abriu espaço para uma análise muito mais detalhada da anatomia do animal.

Fósseis revelam detalhes anatômicos do Mesocyon coryphaeus.

Esqueleto quase completo revelou sexo e característica hereditária do animal

Entre os elementos preservados estava o báculo, osso encontrado no pênis de muitos mamíferos. A presença dessa estrutura permitiu aos pesquisadores determinar que o Mesocyon estudado era um macho.

Outro detalhe chamou ainda mais atenção. O fóssil apresentava um osteocondroma no punho, crescimento ósseo hereditário observado em cerca de 60% dos fósseis pertencentes aos primeiros cães conhecidos.

Para Anne Kort, essa característica oferece uma ligação hereditária difícil de ser observada no registro fóssil. O detalhe reforça a importância do exemplar para compreender não apenas a aparência, mas também a história evolutiva dos primeiros canídeos.

A preservação excepcional do esqueleto tornou possível comparar diferentes partes do corpo com espécies que surgiram antes e depois do Mesocyon.

Pernas curtas, pés pequenos e cotovelos móveis diferenciavam Mesocyon dos cães modernos

O crânio do Mesocyon coryphaeus tinha aparência claramente semelhante à de um cão. O restante do corpo, porém, surpreendeu os pesquisadores por apresentar proporções muito diferentes das vistas nos canídeos atuais.

As pernas eram mais robustas, os pés eram mais curtos e o corpo tinha uma estrutura baixa e atarracada. Essas características mostram que o animal ainda estava distante do padrão corporal encontrado em lobos e coiotes especializados em percorrer longas distâncias.

As articulações dos cotovelos também permitiam que o Mesocyon girasse os antebraços. Esse movimento poderia ajudar o animal a agarrar objetos e realizar ações associadas à escalada, algo pouco relacionado à anatomia dos cães corredores modernos.

Os membros inferiores revelaram outra diferença importante. O Mesocyon caminhava apoiando parte do calcanhar no chão, enquanto os cães atuais se locomovem principalmente sobre os dedos, uma adaptação que favorece velocidade e eficiência durante a corrida.

Mesocyon provavelmente atacava presas escondido entre a vegetação

A combinação dessas características indica que o Mesocyon não era especializado em perseguições longas. Em vez de acompanhar uma presa durante quilômetros, ele provavelmente realizava movimentos rápidos em pequenas distâncias e dependia do elemento surpresa.

A paisagem onde viveu também favorecia esse comportamento. Naquele período, florestas mais densas começavam a ser substituídas por áreas abertas, mas bosques e arbustos ainda forneciam cobertura suficiente para esconder um predador.

Essa vegetação poderia permitir que o animal permanecesse próximo das presas antes de iniciar um ataque. A estratégia seria bem diferente daquela utilizada por lobos e outros canídeos modernos capazes de perseguir animais durante longos trajetos.

Os pesquisadores estimam que o Mesocyon tinha porte semelhante ao de um coiote atual. O tamanho, combinado ao corpo robusto, reforça a imagem de um predador adaptado a uma ecologia que desapareceu completamente.

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Caio Aviz

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Mesocyon ocupou uma fase intermediária na evolução dos cães

Os primeiros canídeos surgiram na América do Norte há aproximadamente 40 milhões de anos. Entre eles estava o Hesperocyon, considerado um dos representantes mais antigos e primitivos da linhagem, com tamanho menor e alimentação baseada em pequenos animais.

O Mesocyon apareceu aproximadamente 10 milhões de anos depois. Seu corpo já era maior, mas ainda não apresentava todas as características que posteriormente transformariam os cães em corredores altamente eficientes.

Com o avanço das pradarias, o ambiente passou a favorecer animais capazes de cobrir grandes distâncias em busca de alimento. Essa transformação ajudou a selecionar corpos mais alongados, membros adaptados à corrida e formas de locomoção diferentes daquelas observadas no Mesocyon.

A evolução dos canídeos seguiu, portanto, caminhos variados antes de chegar às espécies atualmente conhecidas.

Expansão das pradarias favoreceu cães capazes de correr grandes distâncias

A capacidade de percorrer longos trajetos provavelmente foi decisiva para o sucesso das linhagens que sobreviveram. Enquanto esses grupos desenvolveram novas adaptações, o Mesocyon desapareceu há cerca de 21 milhões de anos.

Uma das hipóteses apresentadas para esse desaparecimento envolve a competição com outros carnívoros. O modelo corporal voltado a deslocamentos curtos e emboscadas pode ter perdido espaço diante de mudanças ambientais e ecológicas.

As linhagens adaptadas à corrida continuaram se expandindo e, cerca de 8 milhões de anos atrás, começaram a alcançar regiões fora da América do Norte. Atualmente, representantes da família dos cães vivem em todos os continentes, com exceção da Antártida.

Essa expansão mostra como mudanças relativamente pequenas na anatomia podem influenciar profundamente o destino de uma linhagem ao longo de milhões de anos.

Fóssil preserva um tipo de ecologia canina que não existe mais

O Mesocyon coryphaeus não foi um ancestral direto dos cães modernos. Anne Kort explica que toda a linhagem à qual ele pertencia acabou desaparecendo, sem deixar descendentes vivos.

A importância do fóssil está justamente nessa diferença. O esqueleto revela uma combinação de características que não encontra equivalente perfeito entre os canídeos atuais, reunindo corpo baixo, capacidade de agarrar, possível habilidade de escalar e caça por emboscada.

O exemplar encontrado no Oregon ajuda a mostrar que a evolução dos cães não seguiu um caminho único até produzir animais especializados em corrida. Diferentes formas de viver, caçar e se movimentar surgiram ao longo desse processo.

A história do Mesocyon também evidencia como a extinção elimina combinações evolutivas inteiras. Quando uma linhagem desaparece, desaparece com ela uma forma específica de ocupar o ambiente que pode nunca mais surgir da mesma maneira.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Caio Aviz.

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