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Há mais de meio século, quase 2 milhões de pneus foram jogados no oceano para criar um paraíso para peixes, mas as amarras se romperam, a borracha se espalhou pelo fundo do mar, esmagou corais e obrigou mergulhadores, militares e guindastes a enfrentar a limpeza de um dos maiores erros ambientais da história

Há mais de meio século, quase 2 milhões de pneus foram jogados no oceano para criar um paraíso para peixes, mas as amarras se romperam, a borracha se espalhou pelo fundo do mar, esmagou corais e obrigou mergulhadores, militares e guindastes a enfrentar a limpeza de um dos maiores erros ambientais da história

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Há mais de meio século, quase 2 milhões de pneus foram jogados no oceano para criar um paraíso para peixes, mas as amarras se romperam, a borracha se espalhou pelo fundo do mar, esmagou corais e obrigou mergulhadores, militares e guindastes a enfrentar a limpeza de um dos maiores erros ambientais da história

Escrito por Ana Alice

Publicado em 02/08/2026 às 23:22

Curiosidades

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Dois milhões de pneus lançados no mar para formar um recife viraram um desastre ambiental que ainda exige uma longa limpeza na Flórida. (Imagem: Ilustrativa)

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Um projeto ambiental concebido para transformar resíduos em habitat marinho acabou deixando um rastro inesperado no oceano, mobilizando tecnologia, mergulhadores e recursos públicos em uma operação que ainda atravessa gerações.

No fundo do Atlântico, perto de Fort Lauderdale, na Flórida, uma ideia apresentada como solução ambiental continua exigindo mergulhadores, embarcações e milhões de dólares.

Pneus lançados no mar para atrair peixes e reaproveitar resíduos se espalharam, alcançaram recifes naturais e transformaram um experimento da década de 1970 em uma operação de limpeza sem encerramento próximo.

A retirada continua em andamento.

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O Departamento de Proteção Ambiental da Flórida mantém um contrato de remoção válido até fevereiro de 2028 e firmou outro, em setembro de 2025, com vigência até setembro de 2032.

Na atualização oficial publicada em fevereiro de 2026, o novo contratado ainda buscava as autorizações locais, estaduais e federais necessárias para iniciar os trabalhos.

Até dezembro de 2025, o programa estadual contabilizava 535.676 pneus retirados da área prioritária de abatimento desde 2015.

Mesmo depois desse esforço, levantamentos feitos em 2019 e 2024 estimaram a existência de aproximadamente 521 mil unidades visíveis e não enterradas nas regiões pesquisadas, sem incluir pneus totalmente cobertos pela areia ou fora das áreas examinadas.

Pneus no oceano seriam uma solução para dois problemas

Na década de 1970, pneus usados eram vistos nos Estados Unidos como um material barato, abundante e fácil de transportar.

Ao mesmo tempo, autoridades e organizações buscavam novas formas de criar habitats para peixes e reduzir a quantidade de borracha descartada em terra.

A proposta parecia reunir as duas necessidades.

Os pneus formariam uma estrutura no fundo do oceano, sobre a qual corais, esponjas e outros organismos poderiam se fixar.

Com o tempo, o local deveria atrair peixes e ampliar a atividade pesqueira na costa do condado de Broward.

O projeto recebeu autorizações do estado da Flórida e do Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos.

Os registros oficiais, porém, não permitem determinar o número exato de pneus lançados: as estimativas variam entre 1 milhão e 2 milhões de unidades.

A falta de documentação e de monitoramento durante as operações impede uma contagem mais precisa.

Há relatos de grandes despejos em diferentes momentos.

Em abril de 1972, cerca de 50 mil pneus teriam sido colocados na região; em novembro de 1973, outro lote teria chegado a 190 mil unidades.

Parte do material foi transportada por barcaças e lançada com guindastes, enquanto moradores também levaram pneus em embarcações particulares.

Mergulhador observa pneus espalhados no fundo do oceano na área do Osborne Reef, perto de Fort Lauderdale, na Flórida. Crédito: Project Baseline.

Por que o recife artificial de pneus não funcionou

O funcionamento de um recife artificial depende, entre outros fatores, da estabilidade da estrutura.

Se o material permanece imóvel, organismos marinhos podem se fixar e crescer sobre a superfície.

No Osborne Tire Reef, essa condição não foi mantida.

Muitos pneus foram reunidos em conjuntos presos por tiras plásticas e presilhas metálicas.

Parte das amarrações rompeu durante o próprio lançamento, enquanto outras se soltaram após a corrosão dos componentes de metal.

Correntes fortes e falhas no controle da posição também espalharam unidades por uma área maior que a planejada.

Os pneus individuais apresentavam outro problema.

Por serem relativamente leves dentro da água e terem espaços pelos quais a corrente pode passar, eles se deslocavam com ondas e tempestades.

Em vez de formar uma base permanente, tornaram-se objetos móveis no fundo do mar.

Esse movimento dificultou o desenvolvimento de uma comunidade marinha estável.

Ao serem empurrados, os pneus passaram a atingir corais e outros organismos presos ao substrato, além de alcançar trechos situados fora do ponto original de instalação.

O levantamento mais amplo realizado em 2024 mostrou que a dispersão foi maior do que se imaginava.

Enquanto a pesquisa de 2019 havia identificado pneus em cerca de 770 acres, o novo mapeamento encontrou unidades distribuídas por mais de 6 mil acres, em ambientes de areia e nos quatro complexos de recifes avaliados.

Sonar e inteligência artificial localizam pneus no fundo do mar

Encontrar centenas de milhares de objetos no fundo do oceano exige mais do que mergulhos de observação.

Na pesquisa de 2024, técnicos combinaram sonar lateral, equipamentos que medem a profundidade do leito marinho e um sistema de inteligência artificial integrado a mapas digitais.

A tecnologia permitiu localizar concentrações de pneus e ampliar o conhecimento sobre a área afetada.

Os dados indicaram que a maior parte das unidades está em canais de areia entre os recifes, embora também existam acúmulos nas bordas e pneus em contato direto com habitats de corais.

Dos cerca de 521 mil pneus visíveis estimados nas áreas pesquisadas, aproximadamente 429 mil estariam sobre a areia.

Outros 92 mil, no máximo, teriam contato com ambientes de recife.

A estimativa não considera unidades totalmente enterradas, cobertas por organismos ou localizadas além dos limites examinados.

A distribuição também se estende por mais de oito quilômetros no sentido norte-sul.

Essa distância ajuda a explicar por que a limpeza não pode se concentrar apenas no local em que os pneus foram inicialmente depositados.

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Remoção dos pneus pode exigir a transferência de corais

A remoção não consiste apenas em recolher a borracha e levá-la à superfície.

Alguns pneus ficaram presos, parcialmente enterrados ou cobertos por organismos marinhos ao longo das décadas.

Nesses casos, uma retirada sem planejamento pode levantar sedimentos ou causar novos danos ao recife.

Em uma inspeção de 30 pontos realizada em 2024, cerca de 77% dos locais apresentavam pneus enterrados ou presos.

Corais pétreos foram encontrados sobre pneus em 18 dos 30 pontos analisados, o equivalente a 60% dos locais.

Por isso, as operações podem exigir que equipes especializadas retirem e transfiram os corais antes de movimentar a borracha.

O plano oficial também admite que, em situações limitadas, determinado pneu poderá permanecer no lugar caso sua remoção represente um risco maior para a estrutura natural ao redor.

Os trabalhos já envolveram mergulhadores, barcos de apoio, guindastes e transporte até instalações de processamento.

A profundidade, as correntes, a visibilidade e o estado de cada pneu interferem no ritmo da operação.

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Limpeza do Osborne Reef pode atravessar mais uma década

O plano de restauração elaborado pelo governo da Flórida estima que a retirada dos pneus de ambientes de areia e recife, acompanhada da recuperação biológica, pode ocupar 14 anos fiscais contados a partir de julho de 2024.

O custo total projetado chega a aproximadamente US$ 137 milhões, sujeito à liberação de recursos e aos contratos firmados.

Desse valor, a estimativa reserva cerca de US$ 78 milhões para pneus encontrados na areia, US$ 19 milhões para os que estão em contato com recifes e US$ 40 milhões para a restauração biológica.

O planejamento prevê não apenas remover resíduos, mas também replantar corais em áreas identificadas como mais afetadas.

A limpeza do Osborne Tire Reef começou em 2001.

Um relatório estadual de dezembro de 2023 calculava que aproximadamente 543 mil pneus haviam sido retirados desde o início das diferentes iniciativas e que 747 corais tinham sido transferidos para permitir as operações.

Os números posteriores usam recortes diferentes, como a contagem específica da área de abatimento iniciada em 2015.

Por isso, os totais oficiais não devem ser somados diretamente: cada levantamento considera períodos, contratos e áreas distintas.

O caso permanece como registro de uma época em que pneus eram considerados materiais possíveis para recifes artificiais.

O que deveria criar abrigo para peixes acabou exigindo décadas de mapeamento, mergulho, retirada de resíduos e recuperação ambiental.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

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