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Homem perde os movimentos após mergulho em piscina e fica tetraplégico; após cirurgia de 15 horas, volta a mover a mão e sentir o toque graças a implante cerebral experimental que cria uma “ponte” entre o cérebro e os músculos por meio de um sistema que interpreta pensamentos
Escrito por Andriely Medeiros de Araújo
Publicado em 18/08/2026 às 19:30
Atualizado em 18/08/2026 às 19:31
Ciência e Tecnologia
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Tetraplégico recuperou movimentos e sensibilidade nas mãos após receber implante cerebral experimental que conecta sinais do cérebro aos músculos.
Cinco conjuntos de microeletrodos implantados no cérebro permitiram que Keith Thomas, um homem tetraplégico de 48 anos, voltasse a executar movimentos cotidianos e recuperasse parte da sensibilidade perdida depois de uma lesão medular. O norte-americano passou por uma cirurgia experimental de 15 horas em 2023 e hoje consegue realizar ações como coçar o rosto, limpar a boca, manipular objetos delicados e sentir novamente o contato com outras pessoas.
O caso foi apresentado em estudo publicado na Nature Medicine por pesquisadores do Feinstein Institutes for Medical Research, ligado à Northwell Health, em Nova York. O sistema recebeu o nome de dupla ponte neural porque cria comunicação em duas direções: interpreta a intenção de movimento registrada no cérebro e, paralelamente, devolve informações sensoriais ao paciente.
Acidente em piscina deixou Keith sem movimento nos quatro membros
A vida de Thomas mudou em 2020, quando ele mergulhou em uma piscina rasa e atingiu a cabeça no fundo. O impacto provocou uma fratura no pescoço e resultou em tetraplegia completa, comprometendo movimentos dos braços, pernas e tronco.
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Mais de um ano depois do acidente, ele ainda não conseguia levar os braços até o rosto, segurar objetos ou perceber toques nas mãos e nos punhos. À emissora ABC7, Thomas resumiu a mudança repentina ao lembrar que, no dia seguinte ao acidente, já não conseguia se mover.
Foi nesse contexto que ele se tornou o primeiro paciente a testar a tecnologia desenvolvida pelo grupo de pesquisadores norte-americanos.
Pensamento é transformado em estímulo para os músculos
A cirurgia realizada em 2023 implantou eletrodos em regiões motoras e sensoriais do cérebro. O conjunto voltado ao movimento possui 128 canais, enquanto outros 96 canais atuam na área relacionada à percepção sensorial.
O funcionamento começa antes que a mão se mova. Quando o tetraplégico pensa em executar determinado gesto, a atividade cerebral correspondente é captada pelos eletrodos e enviada para um sistema computacional.
A partir daí, diferentes etapas acontecem em sequência:
- a atividade do córtex motor é identificada pelos eletrodos;
- um algoritmo de aprendizado de máquina interpreta qual movimento Thomas pretende realizar;
- sinais elétricos são enviados aos músculos do antebraço;
- esses estímulos provocam o movimento da própria mão;
- sensores instalados em uma órtese registram pressão e contato;
- novas informações são encaminhadas à região sensorial do cérebro para recriar a percepção do toque.
Nos testes, o sistema atingiu 84,6% de precisão na interpretação das intenções de movimento e conseguiu manter esse desempenho por cinco meses sem necessidade de novo treinamento da dinâmica.
Força dos braços aumentou durante acompanhamento
Os resultados não ficaram restritos à capacidade de executar movimentos enquanto o equipamento estava sendo utilizado. Ao longo de 35 semanas, os pesquisadores registraram aumento de 86% na força do braço direito e de 62% no braço esquerdo.
Com essa melhora, Thomas passou a realizar ações simples que haviam se tornado impossíveis desde 2020. Entre elas estavam levar a mão ao rosto, limpar a própria boca e coçar o nariz sem depender da ajuda de outra pessoa.
Chad Bouton, professor do Instituto de Medicina Bioeletrônica do Feinstein Institutes e autor do estudo, explicou que o sistema combina sinais enviados do cérebro ao computador com estímulos que retornam ao corpo, à medula e ao próprio cérebro. O objetivo é reconstruir tanto movimento quanto sensação.
Técnica também tentou devolver o sentido do tato
Recuperar força era apenas uma parte do experimento. A equipe desenvolveu uma estratégia chamada espelhamento cortical para investigar se seria possível restabelecer sensações em regiões que Thomas não percebia desde o acidente.
Os cientistas registraram inicialmente padrões cerebrais associados à imaginação de um toque. Depois, reproduziram determinados padrões por estimulação do córtex sensorial, tentando fazer com que o cérebro voltasse a interpretar sinais como contato físico.
Depois de 25 semanas de trabalho direcionado ao punho direito, o tetraplégico relatou sensibilidade em uma área que permanecia dormente desde a lesão.
Um dos testes mostrou o impacto prático dessa mudança. Thomas conseguiu levantar cascas de ovo vazias sem quebrá-las em 87% das tentativas, inclusive quando estava vendado, tarefa que exige controlar a força sem depender apenas da visão.
Sentir o pelo do cachorro voltou a fazer parte da rotina
À ABC7, Thomas contou que algumas das mudanças mais importantes não estavam relacionadas a testes laboratoriais complexos, mas a experiências simples que havia perdido depois do acidente.
Ele voltou a perceber o contato com a mão da irmã e conseguiu sentir o pelo de sua cachorra enquanto fazia carinho no animal. Também passou, em algumas situações, a se alimentar sozinho e realizar cuidados básicos com o próprio rosto.
Para Thomas, recuperar essas possibilidades significou mais do que melhorar índices de força. O participante associou a experiência à retomada de autonomia e de uma conexão física com pessoas e atividades que faziam parte de sua identidade antes da lesão.
Melhoras permaneceram mesmo com sistema desligado
Um dos resultados que mais despertou interesse dos pesquisadores apareceu fora das sessões com a tecnologia. Mais de dois anos depois, parte dos ganhos motores e sensoriais continuava presente mesmo quando o sistema estava desligado.
Essa permanência levou a equipe a investigar a possibilidade de que o treinamento associado à dupla ponte neural tenha estimulado mecanismos de neuroplasticidade, processo pelo qual o sistema nervoso reorganiza suas conexões.
Em comunicado, o Feinstein Institutes afirmou que a proposta não busca somente criar um caminho eletrônico para contornar a área lesionada, mas estimular uma reorganização capaz de produzir efeitos duradouros no sistema nervoso.
Resultado promissor ainda envolve apenas um paciente
Apesar dos avanços registrados, os próprios resultados precisam ser interpretados dentro dos limites do experimento. Keith Thomas é, até o momento, um único participante submetido à técnica, e o sistema combina vários elementos diferentes, o que dificulta determinar exatamente quanto cada parte contribuiu para a recuperação.
David McGonigle, neurocientista da Universidade de Cardiff, avaliou que o trabalho deve ser visto como ponto de partida para novas pesquisas, e não como resultado definitivo. Para ele, as melhoras motoras ganham importância justamente porque permitiram ao participante realizar atividades concretas, como alimentar-se e manipular objetos frágeis.
O estudo coloca, assim, uma tecnologia experimental diante de uma possibilidade que vai além de simplesmente mover um cursor ou uma prótese externa. No caso de Keith Thomas, o objetivo foi fazer com que o próprio corpo voltasse a responder aos comandos cerebrais e recuperar parte das sensações perdidas.
Para um tetraplégico que passou anos sem conseguir tocar o próprio rosto ou sentir a mão de um familiar, os resultados representam uma recuperação funcional relevante. Transformar esse caso individual em tratamento disponível para outras pessoas, porém, ainda dependerá de novos estudos, mais participantes e avaliação de segurança e eficácia em escala maior.
Fonte
IG
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Andriely Medeiros de Araújo.

