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Homem que guardou parte da rescisão na meia e outra parte na cueca para pagar três cursos do SENAI, venceu o racismo no mercado de trabalho, avançou no ultrassom industrial e hoje encontra falhas invisíveis em plataformas de petróleo antes que provoquem acidentes e prejuízos milionários
Escrito por Caio Aviz
Publicado em 04/08/2026 às 18:36
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Com quase três décadas de experiência, Sergio Santos inspeciona estruturas críticas da indústria offshore e transforma conhecimento técnico em segurança operacional.
Uma trinca escondida dentro de uma tubulação pode provocar vazamentos, explosões, danos ambientais e prejuízos milionários. Nas plataformas de petróleo, portanto, encontrar essas falhas antes de um acidente representa uma atividade essencial.
Esse trabalho faz parte da rotina de Sergio da Silva Santos, de 59 anos. Há quase três décadas, o brasileiro atua com Ensaios Não Destrutivos, principalmente no setor offshore de petróleo e gás.
Por meio do ultrassom industrial, Sergio examina tubulações, tanques, vasos de pressão, soldas e estruturas metálicas. Dessa forma, os equipamentos são avaliados sem cortes, desmontagens ou danos.
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Segundo a Abendi, referência brasileira em Ensaios Não Destrutivos, o inspetor utiliza ondas ultrassônicas para detectar descontinuidades internas sem danificar a peça examinada.
A tecnologia permite identificar trincas, corrosão, desgastes e perdas de espessura invisíveis a olho nu. Consequentemente, as empresas conseguem antecipar manutenções, reduzir riscos ambientais e evitar interrupções na produção.
Entretanto, as falhas invisíveis enfrentadas por Sergio não estavam apenas dentro dos metais. Durante sua trajetória, a pobreza, a falta de oportunidades e o racismo também tentaram limitar seu avanço profissional.
Educação tornou-se uma resposta às portas fechadas
Sergio cresceu em Guaratiba, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Como filho mais velho de uma família com poucos recursos, começou a procurar emprego ainda adolescente.
Em seu primeiro processo seletivo, saiu de casa durante a madrugada para chegar ao centro do Rio no horário marcado. Embora tenha chegado primeiro, permaneceu do lado de fora enquanto os demais candidatos entravam.
Quando finalmente recebeu autorização, restava pouco tempo para concluir a prova. Mesmo assim, Sergio foi o único entre 36 candidatos que compreendeu corretamente as instruções e conseguiu a aprovação.
A contratação, porém, não aconteceu. Dias depois, um funcionário revelou que os diretores haviam impedido sua entrada na empresa por causa da cor da pele.
O resultado havia demonstrado que Sergio era o candidato mais preparado. Entretanto, o racismo foi utilizado como critério de exclusão e fechou sua primeira oportunidade profissional.
Diante daquela experiência, Sergio decidiu ampliar sua formação. Sem recursos para pagar as mensalidades, procurou a Cultura Inglesa e solicitou uma bolsa integral.
Após comprovar a condição financeira, estudou durante sete anos como bolsista. Em 1998, recebeu o diploma de inglês e transformou o idioma em uma ferramenta profissional.
Posteriormente, também aprendeu espanhol. Em 2000, conquistou a certificação DELE, vinculada à Universidade de Salamanca.
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Caio Aviz
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Conselho da mãe definiu uma estratégia de vida
A educação já havia assumido um papel central depois de uma conversa com sua mãe. Ainda jovem, Sergio conseguiu aprovação para cursar medicina, mas encontrou outro obstáculo financeiro.
A família não conseguia sustentar uma graduação realizada em período integral. Por isso, ele precisou abandonar a possibilidade de seguir aquela carreira.
Naquele momento, sua mãe explicou que não deixaria patrimônio financeiro aos filhos. Contudo, poderia apresentar o instrumento capaz de transformar o futuro da família.
Segundo ela, existia uma chave capaz de abrir qualquer porta: o estudo. A partir disso, Sergio passou a trabalhar durante o dia e estudar à noite.
Sem dinheiro para cursinho, utilizava apostilas usadas e buscava ajuda sempre que não compreendia algum conteúdo. Assim, a qualificação tornou-se uma estratégia permanente contra as limitações econômicas e profissionais.
Racismo também impediu promoção na Globosat
Posteriormente, Sergio trabalhou durante nove anos na Globosat. Nesse período, passou por diferentes setores e tornou-se uma referência para colegas e profissionais recém-contratados.
Apesar da experiência, participou de quatro processos internos para assumir uma supervisão e não foi promovido. Em todas as ocasiões, ouviu que não possuía o perfil necessário.
A empresa, entretanto, nunca explicou qual característica estava ausente. Da mesma forma, nenhuma orientação foi apresentada para que ele pudesse melhorar seu desempenho.
Antes de sua saída, uma profissional de recursos humanos analisou o histórico de Sergio. Além disso, conversou com funcionários de diferentes setores para compreender sua participação na operação.
Segundo o relato do especialista, ela constatou que ele estava entre os profissionais mais preparados para a função. Sergio, inclusive, ajudava supervisores externos a entender o funcionamento da empresa.
Por fim, a profissional revelou que a cor da pele era o verdadeiro obstáculo para sua promoção. Sergio decidiu deixar a companhia e encerrar aquele ciclo.
A saída, no entanto, abriu caminho para sua entrada em uma das áreas mais especializadas da indústria.
Ultrassom industrial abriu uma nova carreira em 2002
Após deixar a Globosat, Sergio conheceu um equipamento de ultrassom industrial apresentado por um amigo. Na tela, sinais semelhantes aos de um ecocardiograma revelavam o interior de uma peça metálica.
A combinação entre ciência, tecnologia e investigação despertou seu interesse imediatamente. Então, Sergio pediu demissão e investiu o dinheiro da rescisão em qualificação profissional.
Sem conta bancária ou cartão, guardou parte do dinheiro na meia e outra parte na cueca. Ao chegar ao SENAI, pagou três cursos à vista.
Sergio escolheu as formações em Técnicas Não Destrutivas, Medição de Espessura e Ensaios por Ultrassom. Os cursos, concluídos em 2002, iniciaram uma trajetória de especializações técnicas.
A formação técnica também sustenta outras operações do setor de petróleo, como mostra a iniciativa da Acelen voltada à capacitação de profissionais para a Refinaria de Mataripe.
Ao longo dos anos, ele avançou pelos diferentes níveis do ultrassom industrial. Além disso, aprendeu métodos capazes de produzir imagens detalhadas do interior de soldas, tubulações e estruturas.
Entre suas qualificações estão Ultrassom Nível II, Phased Array, TOFD, Eddy Current e Phased Array Composite. As técnicas ampliaram sua capacidade de atuar em inspeções complexas.
Sergio também possui formação técnica em Estrutura Naval e Mecânica. Posteriormente, concluiu graduação em Análise e Desenvolvimento de Sistemas e pós-graduação em Big Data.
Suas certificações foram concedidas ou reconhecidas por instituições brasileiras, americanas, britânicas e europeias do setor de Ensaios Não Destrutivos.
Certificações internacionais exigiram investimentos elevados
Para atuar em ambientes offshore, Sergio realizou treinamentos de segurança em plataformas e escape de helicóptero. Também recebeu preparação para operações eólicas e atividades com acesso por cordas.
A obtenção dessas qualificações, contudo, exigiu investimentos expressivos. Considerando curso, prova, passagem e hospedagem, uma certificação internacional podia custar cerca de R$ 40 mil.
Na primeira viagem à Inglaterra, Sergio pagou todas as despesas com cartão. Inicialmente, acreditou que levaria muitos anos para quitar o investimento.
Após retornar ao Brasil, porém, o conhecimento adquirido ampliou suas oportunidades. Consequentemente, ele conseguiu pagar os custos da certificação em pouco tempo.
Além dos cursos, Sergio desenvolveu parte de sua versatilidade de maneira autodidata. Frequentemente, baixava os manuais dos equipamentos, estudava durante a noite e aplicava o aprendizado no dia seguinte.
Com isso, aprendeu a operar diferentes aparelhos, interpretar geometrias complexas e adaptar as técnicas de inspeção às condições encontradas no campo.
Experiência chamou atenção de empresas americanas
Durante uma visita a uma empresa do setor nos Estados Unidos, Sergio reconheceu diferentes equipamentos e explicou suas aplicações. Também demonstrou conhecimento sobre várias configurações de inspeção.
A experiência chamou a atenção de um executivo, que afirmou desejar sete inspetores com as mesmas habilidades. O comentário reforçou o reconhecimento alcançado por Sergio fora do Brasil.
Posteriormente, o especialista encaminhou seu currículo à SpaceX. Representantes da companhia entraram em contato e conversaram sobre sua experiência profissional.
Embora o contato não tenha resultado em contratação, a abordagem demonstrou o alcance de sua formação. Empresas americanas de inspeção industrial também apresentaram convites e oportunidades.
Empresa fundada em 2011 coordenou cerca de 70 inspetores
O conhecimento acumulado em campo também levou Sergio ao empreendedorismo. Em 2011, ele e um sócio fundaram uma empresa especializada em Ensaios Não Destrutivos.
A operação conquistou contratos com grandes companhias e participou de projetos relacionados à Petrobras. Também atuou no complexo do submarino nuclear em Itaguaí e no Museu do Amanhã.
Com uma equipe administrativa formada por oito pessoas, a empresa chegou a coordenar aproximadamente 70 inspetores em projetos espalhados pelo Brasil.
Além da eficiência operacional, os sócios buscavam oferecer condições melhores aos funcionários. Por isso, concediam plano de saúde, incentivo aos estudos e oportunidades reais de desenvolvimento.
A empresa, contudo, enfrentou atrasos nos pagamentos, tributação antecipada e disputas judiciais. Como esses problemas afetaram a saúde dos sócios, o negócio acabou sendo vendido.
Ainda assim, a aquisição confirmou o valor técnico, comercial e operacional construído pela companhia.
Especialista continua requisitado para operações críticas
Atualmente, Sergio ainda é convocado para trabalhos com poucos profissionais igualmente qualificados. Recentemente, precisou desembarcar de uma plataforma por causa de um problema nos olhos.
Pouco depois, recebeu outra convocação. Ao sugerir que a empresa procurasse outro especialista, ouviu que não existia uma pessoa disponível para substituí-lo.
A resposta demonstrou o reconhecimento conquistado após décadas de experiência. Entretanto, também revelou o custo pessoal de ser constantemente requisitado para operações críticas.
Segundo Sergio, ser considerado indispensável não significa viver da maneira que gostaria. A frase revela um lado pessoal que as certificações e o reconhecimento profissional não eliminaram.
Aos 59 anos, ele continua estudando e busca alcançar o nível mais elevado da certificação em ultrassom industrial.
Sua trajetória não apaga as barreiras provocadas pelo racismo estrutural. Elas fecharam portas, interromperam oportunidades e atrasaram o reconhecimento de sua competência.
Ainda assim, essas barreiras não impediram que seu conhecimento atravessasse fronteiras. O adolescente rejeitado pela cor da pele tornou-se referência em inspeção offshore e ultrassom industrial.
Hoje, Sergio encontra falhas invisíveis em algumas das estruturas mais críticas da indústria. Ao mesmo tempo, sua história revela como educação e qualificação podem enfrentar barreiras igualmente invisíveis.
Você acredita que o acesso à educação pode transformar trajetórias marcadas pela desigualdade e pela falta de oportunidades?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Caio Aviz.

