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Hospital público sem UTI nem pronto-socorro surpreende ao registrar 37% de altas e devolver pacientes graves para casa com foco em conforto, dignidade e qualidade de vida
Escrito por Caio Aviz
Publicado em 11/08/2026 às 09:40
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Hospital Estadual Mont Serrat, em Salvador, prioriza controle da dor, conforto, convivência familiar e qualidade de vida durante o período de internação
Em 31 de janeiro de 2025, Salvador recebeu o Hospital Estadual Mont Serrat, primeira unidade pública brasileira dedicada exclusivamente aos cuidados paliativos. Integrado ao Sistema Único de Saúde (SUS), o hospital foi estruturado para atender pessoas com doenças graves e expectativa de vida limitada, concentrando a assistência no controle dos sintomas e na qualidade de vida.
O funcionamento da unidade rompe com uma imagem ainda associada aos cuidados paliativos. Em vez de representar apenas um local para pacientes próximos da morte, o hospital trabalha para aliviar dor, falta de ar, náuseas e outros desconfortos que podem tornar esse período ainda mais difícil.
Essa abordagem produz resultados que ultrapassam o acolhimento durante os últimos dias. A expectativa inicial era de que aproximadamente 10% dos pacientes deixassem a unidade, mas a taxa de alta chegou a 37%. São pessoas que continuam com suas doenças, porém recuperam condições para retornar ao convívio familiar.
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Hospital Estadual Mont Serrat concentra atendimento no conforto e controle dos sintomas
A rotina do hospital foi organizada em torno das necessidades de pessoas que chegam com quadros clínicos complexos. Muitos pacientes apresentam dores intensas, dificuldade para respirar, náuseas, infecções, feridas e perda de mobilidade, condições que exigem assistência constante mesmo quando a cura já não representa o objetivo principal.
O tratamento busca controlar esses sintomas e proporcionar conforto durante o período disponível. Quando dor, falta de ar e outros problemas são reduzidos, o paciente pode recuperar disposição para conversar, alimentar-se, permanecer perto dos familiares e realizar atividades compatíveis com sua condição.
Esse cuidado também modifica a experiência das famílias. Pacientes que chegam acamados e debilitados podem apresentar melhora no conforto depois do controle das infecções, das feridas e da dor, permitindo que parentes acompanhem esse período de maneira diferente daquela normalmente associada ao fim da vida.
Taxa de alta de 37% superou previsão inicial de 10% no hospital
Um dos resultados que mais chamaram atenção desde o início das atividades foi a quantidade de pacientes que conseguiram voltar para casa. A estimativa inicial apontava para uma taxa de alta próxima de 10%, enquanto o índice observado alcançou 37% dos pacientes atendidos.
Receber alta de uma unidade de cuidados paliativos não significa estar curado. A doença continua presente, mas os sintomas podem estar controlados suficientemente para permitir que a pessoa deixe o ambiente hospitalar e permaneça novamente no espaço onde construiu sua rotina.
Voltar para casa também permite recuperar vínculos que possuem importância particular nessa fase. Família, objetos pessoais, lembranças e o próprio ambiente doméstico passam a fazer parte do cuidado, especialmente quando permanecer perto dessas referências corresponde ao desejo do paciente.
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Permanência média de oito dias e meio muda a forma de pensar o atendimento
O tempo dentro do Hospital Estadual Mont Serrat também ajuda a explicar a proposta adotada pela equipe. A permanência média é de oito dias e meio, intervalo relativamente curto que transforma cada decisão sobre assistência em uma questão relacionada ao conforto e às prioridades individuais.
Os profissionais são treinados a imaginar como gostariam de ser tratados caso dispusessem daquele mesmo período. A reflexão ajuda a direcionar a atenção para perguntas simples, como aquilo que o paciente gosta, o que deseja fazer e quais pessoas gostaria de manter próximas.
Essa lógica coloca as preferências individuais ao lado das necessidades clínicas. O atendimento deixa de considerar somente a doença e passa a observar a pessoa, sua história, seus vínculos e aquilo que ainda pode proporcionar bem-estar durante a internação.
Ausência de UTI e pronto-socorro faz parte do modelo de cuidados paliativos
O Hospital Estadual Mont Serrat não possui UTI nem pronto-socorro, característica diretamente relacionada ao perfil dos pacientes recebidos. A estrutura foi concebida para pessoas que enfrentam doenças graves e precisam principalmente de controle de sintomas, assistência e conforto.
A equipe compara determinadas intervenções intensivas ao esforço exigido durante uma maratona. Para alguém extremamente debilitado, submeter o organismo a procedimentos agressivos pode ampliar o sofrimento sem necessariamente proporcionar benefício compatível com esse esforço.
O modelo adotado privilegia outra possibilidade. Controle da dor, medicamentos, alimentação, higiene, repouso e convivência familiar ganham importância quando procedimentos invasivos deixam de representar a alternativa mais adequada para aquela condição.
Famílias podem acompanhar pacientes e manter esperança de retorno para casa
A convivência com familiares ocupa uma posição importante durante a internação. Entre os pacientes atendidos estão pessoas que chegaram ao hospital depois de perder mobilidade, desenvolver feridas ou enfrentar infecções graves, exigindo acompanhamento constante.
Em um dos casos apresentados, um homem recebeu o diagnóstico de câncer após sofrer um acidente de motocicleta e passar por exames. A doença levou a família até os cuidados paliativos, onde a esposa passou a acompanhar sua rotina de alimentação, medicamentos e controle da dor.
A esperança da família permanece ligada à possibilidade de melhora suficiente para levá-lo novamente para casa. Ao mesmo tempo, o conforto conquistado durante a internação permite enfrentar a gravidade da doença sabendo que o paciente está sendo assistido e não sente dor.
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Caio Aviz
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A criação de uma unidade especializada ocorre enquanto o Brasil atravessa um rápido processo de envelhecimento populacional. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que pessoas com 60 anos ou mais representavam 8,7% da população em 2000 e chegaram a 15,6% em 2023.
As projeções demográficas indicam continuidade desse movimento nas próximas décadas. Em 2070, aproximadamente 37,8% da população brasileira poderá ter 60 anos ou mais, cenário que amplia a discussão sobre assistência a pessoas com doenças crônicas e maior dependência.
O crescimento da população idosa coloca os cuidados de longa duração e de fim de vida entre os desafios da rede de saúde. Hospitais especializados representam uma das formas de atender pessoas que precisam de controle dos sintomas mesmo quando tratamentos curativos já não ocupam o centro da assistência.
Cuidados paliativos permitem viver o tempo disponível perto de quem importa
A experiência desenvolvida em Salvador também trata a despedida como parte possível do cuidado. Pacientes e familiares encontram espaço para conversar, agradecer, pedir desculpas, demonstrar carinho e abordar assuntos que poderiam permanecer pendentes em uma internação convencional.
Essa possibilidade não elimina a esperança de recuperação nem determina antecipadamente o desfecho de cada paciente. A própria taxa de alta mostra que parte das pessoas consegue retornar para casa, mesmo permanecendo com a doença que motivou a internação.
A proposta do Hospital Estadual Mont Serrat está justamente nessa diferença. Cuidados paliativos não significam abandonar o paciente, mas reorganizar a assistência quando conforto e qualidade de vida passam a ocupar o centro das decisões.
Entre a chegada ao hospital e a possibilidade de voltar para casa ou se despedir da família, o objetivo permanece o mesmo: reduzir sofrimento e permitir que o tempo disponível continue sendo tratado como vida.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Caio Aviz.

