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Imigrante japonês foi por cerca de vinte anos o único habitante de uma cidade abandonada dentro da floresta amazônica, para onde chegou em 2001 com dois companheiros atrás do sonho de passar a vida dentro da mata, e virou guardião das ruínas a pedido da família que mandava no lugar
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 11/08/2026 às 12:42
Atualizado em 11/08/2026 às 12:48
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Shigeru Nakayama nasceu em Fukuoka, veio ao Brasil na migração japonesa dos anos 1960 e se instalou nas ruínas de Airão Velho, no Amazonas. Vive em casa de três cômodos com chão de terra, come do que planta e recusa cobrar entrada dos turistas que guia.
Ele chegou em 2001 e encontrou uma cidade que a floresta estava engolindo. O imigrante japonês Shigeru Nakayama subiu o rio Negro com dois companheiros, deparou-se com os prédios de Airão Velho tomados pelo mato e começou a limpar e abrir caminho, conforme reportagem assinada por Diego Oliveira e publicada pelo Portal Amazônia em 17 de novembro de 2021.
O motivo que ele dá é de infância. Sempre sonhou em passar a vida dentro da floresta amazônica, e foi atrás disso. A frase que resume por que continua ali, dita em entrevista à BBC Brasil, é mais dura: se ele sair de Airão Velho, a história morre.
Cidade abandonada foi fundada em 1694 às margens do rio Negro
A história de Airão Velho começa muito antes do abandono. O povoado foi fundado por portugueses em 1694 e é considerado o primeiro estabelecido às margens do rio Negro.
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Por cerca de duzentos anos, as gerações seguintes viveram da caça e da pesca naquele trecho de rio. O cemitério local guarda o registro dessa permanência, com gerações inteiras de famílias portuguesas enterradas ali. A distância até Manaus aparece de duas formas nas fontes: 180 quilômetros em uma delas e 200 quilômetros em outra.
Ciclo da borracha ergueu casarões com material vindo de Portugal
A virada econômica chegou com o látex. A instalação de um porto fluvial e o ciclo da borracha transformaram aquele trecho de floresta em ponto de exportação, e a pobreza recuou temporariamente do povoado.
O auge se deu na década de 1910, quando casas grandes foram construídas com materiais importados de Portugal. Airão funcionou como vila essencial na cadeia da borracha, com papel reforçado durante a Segunda Guerra Mundial, quando os aliados do Brasil compravam pneus e material cirúrgico produzidos com látex amazônico. Era ponto de coleta e de envio, e essa especialização se tornaria o problema.
Queda do látex derrubou a economia local
O fim da guerra desmontou o negócio. A busca por látex caiu de forma drástica e os comerciantes da região não estavam preparados para uma quebra daquele tamanho.
A cidade faliu e os moradores começaram a procurar oportunidade em outros pontos da região. É o padrão clássico das economias de ciclo único: sem alternativa produtiva instalada, a saída do produto principal esvazia o lugar inteiro. As construções ficaram de pé, mas sem quem as ocupasse.
Lenda das formigas de fogo acelerou o esvaziamento
Há um episódio que entrou para o folclore local e ajudou a empurrar a debandada. Nos anos 1950, um político da época divulgou que a população estava sendo atacada por formigas de fogo e pediu ajuda para transferir a sede do município.
Verdade ou invenção, o efeito foi concreto. A partir de 1950 os remanescentes começaram a ser deslocados. Cento e oito pessoas foram transferidas para a vila de Itapeaçu, que passou a se chamar Novo Airão, hoje município do Amazonas. Outra parte da população se mudou para vilarejos mais próximos de Manaus.
Marinha usou as ruínas como alvo de tiro entre 1985 e 2005
Depois do esvaziamento, a cidade abandonada ganhou um uso que acelerou a destruição do que ainda estava de pé. A partir de 1985, a Marinha do Brasil passou a utilizar Airão Velho como alvo para treino de tiro dos seus navios.
A prática durou vinte anos. O registro de que o último morador teria deixado o lugar em 1985 coincide com o início desse período. Ou seja, o mesmo ano em que a última pessoa saiu marca o começo do bombardeio de treinamento sobre as construções remanescentes, o que ajuda a explicar o estado atual das ruínas.
Tombamento pelo Iphan veio em 2005
O ciclo de destruição terminou por decisão federal. Em 2005, Airão Velho foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, o que encerrou o uso militar da área.
O reconhecimento como patrimônio, porém, não veio acompanhado de estrutura de conservação. O local se tornou ponto de turismo alternativo sem política cultural do estado, e a iniciativa de zelar pelas ruínas ficou por conta de particulares. Foi nesse vácuo que a atuação de Shigeru Nakayama ganhou peso.
Imigrante japonês nasceu em Fukuoka e chegou pelo Pará
A trajetória dele até o rio Negro é longa. Shigeru Nakayama nasceu em Fukuoka, no sul do Japão, e migrou para o Brasil no grande fluxo migratório japonês do começo dos anos 1960, quando o Japão enfrentava dificuldades econômicas e o Brasil precisava de mão de obra na agricultura.
A família se assentou no Pará, onde ele viveu com os pais e três irmãos. No início dos anos 1970, ele e um grupo de amigos partiram para a Amazônia atrás de trabalho e se estabeleceram às margens do rio Negro. Segundo relato reproduzido pelo portal No Amazonas é Assim, ele chegou a Airão Velho em 2001 depois de viver em uma área onde as autoridades criaram um parque nacional e os colonos foram retirados.
Pedido para cuidar do lugar partiu da família Bezerra
O papel de guardião não foi autoatribuído. A administração histórica de Airão Velho pertencia à família lusitana Bezerra, também grafada Bizerra, e um de seus últimos membros pediu pessoalmente a Nakayama que tomasse conta das ruínas.
Sobre quem fez o pedido, as versões divergem. O Portal Amazônia identifica Glória Bezerra como a única herdeira do lugar, morta em 2012 e enterrada no cemitério de Airão Velho, e afirma que foi ela quem pediu ajuda para reabrir a cidade aos turistas, contando também todas as histórias do local. Reportagem da BBC Brasil reproduzida pelo Terra atribui o pedido a um dos últimos membros da família, sem nomear. O conteúdo do pedido é o mesmo nas duas versões: cuidar do que restou e manter a memória viva.
Casa de três cômodos virou museu do que ele achou nas ruínas
A moradia dele é modesta e funciona como acervo. É uma casa de madeira com três cômodos e chão de terra, onde dorme em uma cama de solteiro velha e se alimenta do que planta na roça.
Dentro dela estão os objetos que recolheu nas imediações ao longo dos anos. O item de maior valor documental é uma pintura a óleo que mostra como era a cidade no apogeu. Ele guia turistas, na maioria estrangeiros, e se recusa a cobrar entrada. Em troca, recebe comida e doações dos visitantes. Anda sempre com um facão como forma de proteção.
Idade e ano de nascimento aparecem de três formas diferentes
Um dado básico sobre ele não está resolvido nas fontes. O Portal Amazônia informa que nasceu em 1948 e que tinha 72 anos em novembro de 2021.
Reportagem do Terra de dezembro de 2015 registra 62 anos naquela data, o que apontaria nascimento por volta de 1953. Já o escritor Sérgio Freire, no portal Taquiprati, afirma que ele nasceu em 1943, em Fukuoka, e que se mudou para o Brasil aos 20 anos. As três versões produzem idades atuais muito distintas, e não há documento público disponível que resolva a diferença.
Cidade abandonada não está mais completamente vazia
A condição de único morador também aparece com nuance na cobertura. A partir de 2005, ano do tombamento, cerca de sete famílias retornaram ao lugar, construíram casas em volta das ruínas e passaram a auxiliar na condução dos turistas que visitam o antigo vilarejo.
O registro de que ele foi o único habitante costuma vir no passado, cobrindo cerca de vinte anos. A informação mais recente que localizei sobre a presença dele em Airão Velho é de 2023, e não há confirmação pública posterior sobre a situação atual. Do ponto de vista dele, o motivo para permanecer nunca mudou, e ele já explicou isso com a frase que virou a marca da história: se sair dali, a história morre.
Conta nos comentários: você trocaria a cidade pela mata como ele trocou, sabendo que ia viver sem energia, sem vizinho e comendo do que plantasse? E na sua opinião, patrimônio tombado deveria depender da boa vontade de um morador ou é obrigação do poder público manter?
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

