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Impedida de estudar até a adolescência por não ter documentos, moradora do Grajaú liderou abaixo-assinados que ajudaram a conquistar uma creche e duas escolas, trabalhou como servente em uma delas, formou-se em História e Geografia e voltou como professora da escola que ajudou a levar ao bairro
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 01/08/2026 às 19:57
Curiosidades
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Trajetória marcada por exclusão escolar, mobilização comunitária e mudança profissional mostra como uma moradora da periferia transformou obstáculos pessoais em atuação pública, aproximando educação, trabalho e organização popular em um percurso de recomeços, enfrentamento à discriminação e retorno simbólico à escola.
Maria da Glória passou parte da infância longe das salas de aula porque não tinha acesso aos próprios documentos, mas converteu essa exclusão inicial em uma trajetória profundamente ligada à defesa da educação pública e à organização comunitária.
Depois de se mudar para o Jardim Mirna, no distrito do Grajaú, na zona sul de São Paulo, ela participou de mobilizações por serviços básicos, organizou abaixo-assinados e ajudou a conquistar uma creche e duas escolas para os moradores.
Em uma dessas unidades, começou a trabalhar como servente, retomou a escolaridade interrompida, formou-se em História e Geografia e retornou como professora ao mesmo espaço que ajudara a levar para o bairro.
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O percurso reúne etapas que raramente aparecem juntas em uma única história, pois combina a formação de um bairro periférico, a reivindicação por direitos, o trabalho de apoio escolar e a chegada de uma moradora à docência.
No centro dessa sequência está a Escola Estadual Roberto Mange, unidade conquistada após a mobilização local e onde Maria da Glória exerceu duas funções distintas: primeiro, atuou como servente ligada à merenda; mais tarde, assumiu uma sala de aula.
Maria da Glória e a luta por educação no Grajaú
Registrada pelo Periferia em Movimento em uma reportagem da série Matriarcas, a história apresenta mulheres que participaram de lutas por direitos nas periferias de São Paulo e preserva o relato da própria Maria da Glória sobre sua formação.
Nascida no litoral paulista e criada na capital, nas proximidades do Autódromo de Interlagos, na região da Cidade Dutra, ela enfrentou ainda criança uma barreira burocrática que a manteve afastada do ensino regular por vários anos.
Como seus documentos haviam permanecido na região litorânea, Maria da Glória só conseguiu frequentar a escola na adolescência, quando finalmente teve acesso aos registros necessários para iniciar a própria formação.
Pouco depois de começar os estudos, uma nova mudança alterou sua rotina, pois o casamento a levou ao Jardim Mirna, no Grajaú, onde o crescimento populacional avançava mais rapidamente do que a chegada da infraestrutura urbana.
Naquele período, o bairro tinha poucas casas, ruas ainda sem a estrutura que surgiria posteriormente e dificuldades de acesso a serviços essenciais, enquanto o transporte coletivo sequer alcançava o novo loteamento onde a família vivia.
Sem ônibus disponível nas proximidades, o marido caminhava mais de dez quilômetros diariamente para economizar o valor da passagem enquanto trabalhava em fábricas de Santo Amaro, realidade que revela as limitações enfrentadas pelos primeiros moradores.
Maria da Glória também trabalhou em metalúrgicas, porém deixou essa atividade quando precisou permanecer em casa para cuidar dos filhos pequenos, passando a buscar uma alternativa de renda que pudesse ser conciliada com as responsabilidades familiares.
Ao conhecer uma empreendedora da região que montava brinquedos para uma grande fabricante, ela começou a receber peças em casa e, posteriormente, reuniu outras mulheres do bairro para executar o mesmo serviço sem abandonar os cuidados domésticos.
A mobilização por escolas e serviços públicos
Enquanto o Jardim Mirna recebia novos moradores, tornavam-se cada vez mais evidentes as demandas por transporte, abastecimento de água, energia elétrica, pavimentação e equipamentos públicos capazes de atender uma população em rápido crescimento.
Nesse cenário, Maria da Glória participou da fundação da associação de moradores e integrou as primeiras lideranças responsáveis pela organização de abaixo-assinados, reuniões comunitárias e cobranças encaminhadas ao poder público em busca de melhorias estruturais.
Entre todas as reivindicações apresentadas pela comunidade, a educação ocupava posição central, porque muitas famílias precisavam deslocar crianças e jovens para regiões distantes diante da ausência de vagas próximas de casa.
A mobilização contribuiu para a conquista do Centro de Educação Infantil Três Corações e das escolas estaduais Levi Carneiro e Roberto Mange, ampliando o acesso dos moradores a espaços educacionais dentro do próprio bairro.
Mais do que novos prédios, essas unidades representavam uma resposta concreta para famílias que não encontravam na região a estrutura necessária para matricular os filhos, acompanhar a rotina escolar e conciliar estudo, trabalho e deslocamento.
Da merenda à sala de aula
Foi na Escola Estadual Roberto Mange que Maria da Glória ingressou como servente, passando a trabalhar diariamente dentro de um ambiente que lhe havia sido negado durante parte da infância por causa da ausência de documentos.
Conhecida pelos estudantes como “tia da merenda”, ela acompanhava de perto o cotidiano da unidade e observava professores, alunos e funcionários enquanto ainda carregava as marcas de uma escolarização iniciada muito depois da idade regular.
A mudança de função, entretanto, não ocorreu de maneira imediata, pois o caminho até a docência envolveu a retomada dos estudos, a entrada no ensino superior e o enfrentamento de um episódio de discriminação dentro da própria escola.
Conforme o relato publicado pelo Periferia em Movimento, uma professora afirmou que Maria da Glória “nunca seria nada na vida além de uma auxiliar”, declaração descrita pela reportagem como um ato racista dirigido contra a então servente.
Após o episódio, a diretora da unidade ofereceu apoio para que ela continuasse estudando, incentivo que teve importância decisiva em uma trajetória até então marcada por interrupções, trabalho precoce e dificuldades de acesso ao sistema educacional.
A partir desse apoio, Maria da Glória concluiu a escolaridade interrompida, ingressou na faculdade e obteve formação em História e Geografia, abrindo o caminho para assumir uma função docente na rede pública.
Com os diplomas concluídos, ela voltou à Escola Estadual Roberto Mange como professora, ocupando uma sala de aula no mesmo prédio onde havia trabalhado como servente e cuja instalação fora defendida por ela e outros moradores.
Professora na escola que ajudou a conquistar
O retorno à unidade como educadora acrescentou uma nova dimensão à mobilização iniciada anos antes, porque a mulher que organizava reivindicações para levar escolas ao Jardim Mirna passou a ensinar dentro de uma delas.
A moradora que ajudara a reunir assinaturas e cobrar salas de aula para a comunidade tornou-se professora de estudantes atendidos por uma escola surgida da pressão organizada das famílias do bairro.
Nesse processo, o prédio deixou de ser apenas um local de trabalho para representar também o resultado concreto de uma demanda coletiva da qual Maria da Glória participara desde os primeiros anos de formação da comunidade.
Antes mesmo de obter o diploma, ela já atuava para ampliar o acesso de crianças e jovens à educação; depois da graduação, passou a trabalhar diretamente com estudantes beneficiados por uma das unidades conquistadas naquele movimento.
A passagem de servente a professora não apagou as etapas anteriores, mas reuniu experiências de trabalho industrial, montagem de brinquedos, criação dos filhos, participação em associação de moradores e cobrança por serviços públicos.
Cada fase permanece ligada às condições concretas de uma periferia que se expandia mais rapidamente do que a infraestrutura, exigindo dos moradores organização permanente para conquistar direitos básicos e reduzir a distância em relação aos serviços urbanos.
Ao entrar em sala de aula, Maria da Glória também levou consigo a experiência de quem conheceu o impedimento de estudar, precisou recuperar a formação na vida adulta e enfrentou discriminação dentro do próprio ambiente profissional.
Sua graduação em História e Geografia representou uma mudança de carreira, mas também a ocupação de um espaço educacional alcançado por meio da mobilização popular e da insistência de moradores que cobravam atenção do poder público.
O contraste central da trajetória permanece direto: uma criança impedida de estudar por falta de documentos tornou-se uma mulher que ajudou a levar escolas ao bairro e, anos depois, passou a ensinar dentro de uma delas.
Entre esses dois momentos, acumulam-se trabalho, organização comunitária, retomada da escolaridade e enfrentamento à discriminação, elementos que ajudam a explicar como uma servente chegou à docência na escola que ajudou a conquistar.
Quantas vidas podem mudar quando uma comunidade conquista uma escola e alguém antes impedido de estudar consegue voltar a ela como professora?
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

