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Indígena deixou Manaus, percorreu 4 mil quilômetros e passou nove anos na UFMG até se tornar a primeira médica do povo Kambeba; depois do diploma, voltou à Amazônia, iniciou rituais rigorosos para ser reconhecida também como pajé e agora precisa atravessar cerca de 40 aldeias para unir a Medicina ocidental aos conhecimentos ancestrais de seu povo
Escrito por Ana Alice
Publicado em 01/08/2026 às 15:06
Curiosidades
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A trajetória de Adana Kambeba reúne formação médica, resistência ao preconceito, saberes indígenas e uma missão que atravessa universidades, aldeias amazônicas e diferentes formas de compreender o cuidado com a saúde.
Quando Adana Omágua Kambeba deixou Manaus em 2012 e percorreu cerca de 4 mil quilômetros até Belo Horizonte, o objetivo não era apenas conquistar um diploma de Medicina.
Integrante do povo Omágua Kambeba, também conhecido como “povo das águas”, ela via a universidade como parte de uma missão iniciada ainda na infância: aprender os métodos da Medicina científica e retornar à Amazônia para atender comunidades indígenas sem abandonar os conhecimentos de cura transmitidos por seus ancestrais.
Adana Kambeba passou nove anos na UFMG
A formação ocorreu na Universidade Federal de Minas Gerais, a UFMG, onde Adana precisou conciliar uma rotina acadêmica exigente com valores culturais, dificuldades financeiras, episódios de preconceito e o processo de preparação espiritual para se tornar pajé.
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Ela concluiu o curso em março de 2022, depois de uma trajetória universitária que se estendeu por aproximadamente nove anos, acima dos seis previstos normalmente para a graduação em Medicina.
Com o diploma, tornou-se a primeira mulher do povo Kambeba a se formar médica no Brasil e a primeira indígena amazônica graduada no curso de Medicina da UFMG.
O tempo maior de formação não foi apresentado por Adana como um atraso, mas como resultado da necessidade de encontrar um ritmo que permitisse continuar estudando sem romper completamente com sua própria compreensão de saúde e de vida.
“Precisei entrar num acordo com o modelo de ensino médico, com meus valores culturais e com meu ritmo”, afirmou ao explicar que, para seu povo, a observação da natureza também ensina a respeitar limites internos e diferentes tempos de aprendizagem.
A pandemia de Covid-19 ainda interrompeu parte da trajetória acadêmica.
Durante o período, Adana atuou como voluntária em trabalhos de emergência tanto em Belo Horizonte quanto em Manaus, em meio à falta de profissionais e de recursos enfrentada pelos serviços de saúde.
Missão de se tornar médica começou na infância
A decisão de estudar Medicina havia surgido muito antes da mudança para Minas Gerais.
Segundo seu relato, pessoas mais velhas da comunidade percebiam desde cedo sua atenção aos doentes, às plantas, aos animais e aos conhecimentos tradicionais de tratamento.
A avó identificou nela sinais ligados à linhagem de curadores e líderes espirituais da família.
O pai, por outro lado, chegou a considerar a graduação incompatível com a realidade econômica de quem vivia em uma área rural próxima a Manaus, em uma casa de madeira construída sobre palafitas.
Mesmo sem saber como financiaria a permanência em outra região do país, Adana conquistou uma vaga destinada a estudantes indígenas e chegou à Faculdade de Medicina da UFMG em 2012.
A mudança a colocou em uma cidade desconhecida e em um curso historicamente frequentado, em grande parte, por estudantes de grupos socialmente privilegiados.
Médica indígena enfrentou preconceito na universidade
Já nos primeiros dias de aula, ela percebeu que suas motivações eram diferentes das apresentadas por muitos colegas.
Enquanto alguns falavam sobre prestígio profissional e ascensão econômica, Adana relacionava o estudo à responsabilidade de retornar às comunidades e ampliar o acesso à saúde.
A diferença de origem também provocou situações de discriminação.
Conforme relatou posteriormente, colegas questionavam como ela havia entrado na universidade e demonstravam surpresa quando apresentava bom desempenho nas avaliações.
O preconceito nem sempre aparecia de maneira explícita.
Em determinadas situações, surgia por meio de comentários, dúvidas sobre sua capacidade e reações de estranhamento diante da presença de uma mulher indígena amazônica em um dos cursos mais concorridos do país.
A pressão acadêmica e cultural atingiu um ponto crítico em 2017.
Sozinha em casa, Adana chegou a questionar se conseguiria concluir a graduação e seguir, ao mesmo tempo, o caminho necessário para se tornar pajé.
Segundo seu relato, uma voz interior reforçou que aquele percurso fazia parte de sua missão.
A experiência não pode ser verificada externamente, mas foi descrita por ela como decisiva para permanecer no curso e continuar conciliando as duas formas de conhecimento.
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Formatura reuniu símbolos de representatividade
A conclusão ocorreu em uma cerimônia marcada por simbolismos.
O diploma foi entregue pelo professor Humberto José Alves, primeiro diretor negro da Faculdade de Medicina da UFMG, em uma sala onde estavam expostos retratos de antigos dirigentes, todos homens brancos.
Para Adana, a imagem de um professor negro entregando o diploma a uma mulher indígena evidenciava mudanças que não seriam imaginadas quando aquela galeria foi formada.
Antes de deixar definitivamente a universidade, ela também realizou um rito de agradecimento aos professores, tutores e pessoas que haviam acompanhado sua trajetória acadêmica.
A cerimônia incluiu elementos culturais indígenas e ocorreu na própria UFMG, reforçando que sua passagem pela instituição não deveria ser registrada apenas pelos padrões tradicionais de uma colação de grau.
Preparação para se tornar pajé começou na graduação
A formação espiritual de Adana não começou depois da entrega do diploma.
Ela já seguia, durante a graduação, orientações de pajés e curadores envolvidos em sua preparação para assumir uma função de liderança entre os Kambeba.
O processo inclui períodos de isolamento na floresta, acompanhamento de líderes espirituais e dietas que podem impor restrições prolongadas ao consumo de açúcar, frituras, bebidas alcoólicas e determinados alimentos.
Na tradição descrita por Adana, essas dietas não têm como único objetivo modificar a alimentação.
Elas envolvem disciplina, comportamento, preparo emocional, ética, concentração e aprendizado sobre a relação entre o corpo, a comunidade, os elementos da floresta e a espiritualidade.
Prova do grau depende do reconhecimento das comunidades
A etapa final é chamada por ela de “prova do grau”, cerimônia em que deverá demonstrar diante de pajés e integrantes das comunidades que está preparada para ser reconhecida como líder espiritual.
O ritual envolve orações, práticas tradicionais e o uso da ayahuasca, bebida presente em cerimônias de diferentes povos amazônicos.
A aprovação não depende de uma instituição acadêmica nem de um documento emitido nos moldes universitários, mas do reconhecimento das próprias comunidades e de seus líderes.
Antes dessa cerimônia, Adana precisa visitar as aldeias do povo Kambeba no Brasil e ser aceita por elas.
Uma reportagem publicada em novembro de 2025 apontou a existência de cerca de 40 comunidades a serem percorridas, enquanto matérias anteriores mencionavam mais de 30 ou aproximadamente 35 aldeias.
A diferença parece decorrer do período da apuração e da forma de contagem das comunidades.
O dado mais recente localizado registra cerca de 40 aldeias brasileiras, mas não foi encontrada confirmação pública de que o percurso já tenha sido concluído.
Percurso por aldeias reúne saúde e formação espiritual
Ao longo da viagem, a intenção anunciada por Adana era prestar atendimentos, promover atividades educativas e discutir temas como prevenção do suicídio, abuso sexual de crianças e acesso das populações indígenas aos serviços de saúde.
O percurso também permitiria a realização de cerimônias e a avaliação de sua preparação espiritual por diferentes lideranças Kambeba.
A proposta, portanto, reúne uma missão de saúde pública e uma etapa necessária ao reconhecimento como pajé.
Medicina ocidental e saberes ancestrais podem dialogar
Unir esses sistemas não significa substituir medicamentos, exames ou procedimentos hospitalares por práticas tradicionais.
Adana defende que os dois campos possuem regras próprias e devem ser exercidos com responsabilidade, sem que um seja automaticamente colocado acima do outro.
“Sou uma aprendiz de dois tipos de saberes”, afirmou ao explicar que procura respeitar tanto a ética médica quanto a ética xamânica.
Na Medicina científica, decisões costumam ser orientadas por sintomas, exames, diagnósticos, pesquisas clínicas e protocolos.
Em muitas tradições indígenas, o cuidado também considera dimensões familiares, espirituais, territoriais e comunitárias que nem sempre aparecem em uma consulta convencional.
O conflito surge quando profissionais desconsideram completamente as crenças dos pacientes ou quando comunidades, por experiências anteriores de discriminação, deixam de confiar em hospitais e tratamentos oferecidos fora das aldeias.
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Adana atua como ponte entre médicos e pacientes indígenas
Adana procura atuar justamente nesse ponto de contato.
Em um caso relatado por ela, o pai de uma criança indígena internada com suspeita de infecção grave recusava o tratamento indicado pela equipe médica.
Como o homem também era pajé, Adana conversou com a família e se comprometeu a realizar uma oração indígena na unidade de terapia intensiva.
Com a inclusão do ritual, os responsáveis autorizaram a administração do tratamento hospitalar.
A família atribuiu a recuperação à oração, enquanto os médicos destacaram a ação do antibiótico.
Para Adana, o elemento central foi a possibilidade de evitar um confronto e permitir que a criança recebesse o cuidado necessário sem obrigar os familiares a abandonar completamente sua compreensão espiritual.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

