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JBS, dos irmãos Batista, pode estar mirando um ouro escondido na casca do ovo, segundo um consultor do setor, uma película que concentra colágeno e ácido hialurônico e abastece a indústria bilionária de cosméticos, depois do investimento de R$ 920 milhões na área
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 04/08/2026 às 10:00
Atualizado em 04/08/2026 às 10:01
Agronegócio
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A entrada da JBS, dos irmãos Batista, no mercado de ovos pode ter motivação que vai além da gema e da clara, conforme análise do consultor agroindustrial e doutor em Ciência Animal Victor Fonseca, divulgada em reportagem do portal ND Mais. A companhia investiu aproximadamente R$ 920 milhões no setor em 2025.
Antes de qualquer coisa, vale delimitar de onde vem essa leitura. Trata-se de hipótese levantada por um consultor em publicação nas redes sociais, e não de estratégia anunciada pela empresa. A reportagem não traz posicionamento da companhia sobre a possibilidade de exploração da membrana da casca.
O que a empresa efetivamente comprou
O fato concreto por trás da discussão é uma aquisição societária. Em 2025, a companhia adquiriu 48,5% do capital social e 50% das ações com direito a voto da Mantiqueira, uma das principais produtoras de ovos da América do Sul.
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A operação envolveu cerca de R$ 920 milhões e ampliou o portfólio do grupo, colocando a empresa em uma cadeia produtiva com grande volume de matéria-prima e de coprodutos.
A produtora adquirida opera em larga escala e comercializa para diferentes mercados. A compra é o único fato documentado nessa história, e todo o resto é análise sobre o que a empresa poderia fazer com essa posição.
A película que fica colada na casca
O elemento no centro da hipótese é a membrana interna da casca, aquela película fina que costuma sair grudada quando se descasca um ovo cozido.
Segundo o consultor, ela representa 5% do peso total da casca. Em uma cozinha, esse percentual é irrelevante. Em escala industrial, muda de patamar: a cada mil toneladas de casca processadas, seriam extraídas 50 toneladas de membrana pura.
O interesse por esse material está na composição. A película é descrita por ele como uma das fontes naturais mais ricas em colágeno, ácido hialurônico e glucosamina, três substâncias usadas e pesquisadas nos mercados de cosméticos e de saúde.
Os números que sustentam a tese
O consultor apresenta uma sequência de dados de mercado para justificar o raciocínio. Segundo ele, o mercado global de ovos processados caminha para US$ 67,7 bilhões, e mais de 34% dos ovos produzidos no mundo são destinados ao processamento industrial para produção de ovo líquido.
Esse volume de processamento gera, ainda de acordo com a análise dele, cerca de 6 milhões de toneladas de casca por ano.
Do outro lado da equação está o mercado consumidor. A indústria global de cosméticos movimentaria mais de US$ 600 bilhões anuais, o que ajudaria a explicar o interesse por ativos naturais aplicados em produtos de maior valor agregado. Todos esses números partem do consultor, e a apuração não identifica os levantamentos ou institutos que os sustentam.
O conceito de upcycling aplicado ao resíduo
O termo usado para descrever esse tipo de aproveitamento é upcycling, processo em que um coproduto ou resíduo é transformado em um material de valor superior ao original.
A diferença em relação à reciclagem comum está no destino. Reciclar costuma significar transformar o material em algo equivalente ou de valor menor. No upcycling, o resíduo vira insumo de um mercado mais rentável do que aquele de onde saiu.
Na avaliação apresentada, empresas capazes de desenvolver ou dominar as tecnologias de separação e extração conseguem converter um material que antes representava custo e despesa em nova fonte de receita. É essa inversão que dá sentido econômico à ideia, já que o descarte de casca envolve logística e gasto.
Os produtos que já existem no mercado internacional
A tese não é inteiramente teórica, e o consultor cita casos concretos. Ele menciona dois produtos comercializados internacionalmente, o NEM e o Ovomet, ambos desenvolvidos a partir de componentes da membrana da casca de ovo.
A existência desses itens demonstra que a extração é tecnicamente viável e que há mercado disposto a pagar por esse tipo de ingrediente.
Vale registrar o que isso não demonstra. Produto existente não significa escala industrial estabelecida, e a reportagem não informa volume de produção, faturamento ou participação de mercado desses itens, dados que permitiriam avaliar se a oportunidade é de nicho ou de grande porte.
A casca também tem uso, e já foi patenteada
A membrana não é o único componente com aplicação possível. O próprio consultor destaca que o ovo industrializado gera três produtos distintos: o ovo líquido, a casca e a película interna.
Sobre a casca propriamente dita, ele cita pesquisa da Universidade Federal do Paraná que já resultou em patente para transformá la em hidroxiapatita, material empregado em aplicações biomédicas, como próteses.
A hidroxiapatita é um composto de cálcio presente naturalmente em ossos e dentes, e a casca de ovo é rica em carbonato de cálcio, o que explica a viabilidade da conversão. Uma mesma matéria-prima abasteceria três cadeias diferentes: alimentícia, biomédica e cosmética.
O que separa a tese da execução
O ponto que a própria análise reconhece como obstáculo é técnico. Separar a membrana da casca em escala industrial exige tecnologia específica, e é justamente aí que a oportunidade se define.
Em uma cozinha, a película sai com a mão. Em uma linha que processa toneladas por dia, a separação precisa ser mecanizada, eficiente e economicamente viável, sem contaminar o material extraído.
Além disso, ingredientes destinados a cosméticos e a produtos de saúde enfrentam exigências regulatórias próprias, com necessidade de comprovação de pureza, rastreabilidade e segurança. A distância entre identificar a oportunidade e operar essa cadeia é considerável, e a apuração não informa se a empresa possui ou pretende desenvolver essa tecnologia.
O que a apuração não esclarece
Vários pontos ficam em aberto e limitam a leitura do caso. Não há posicionamento da empresa sobre a hipótese levantada, nem informação sobre qualquer projeto em andamento voltado ao aproveitamento da membrana.
Também não constam a origem dos números apresentados pelo consultor, o preço de mercado do colágeno ou do ácido hialurônico extraídos dessa fonte, nem comparação com as fontes tradicionais desses ativos, que hoje vêm principalmente de outras matérias-primas.
Falta ainda saber qual o destino atual das cascas geradas pela produtora adquirida. Boa parte desse material costuma ter aproveitamento como fonte de cálcio em ração animal ou como corretivo de solo, e a reportagem não informa se há descarte efetivo ou se o coproduto já tem uso definido.
Uma hipótese interessante que ainda precisa de confirmação
O que esse caso oferece é um exercício de leitura de cadeia produtiva, e não uma revelação sobre a estratégia de uma empresa. A aquisição aconteceu, o volume de coproduto existe e a tecnologia de extração também.
O que não existe, ao menos na apuração disponível, é qualquer indicação de que a companhia tenha comprado a participação por causa da película da casca. A operação pode ter motivação muito mais direta: entrar em um mercado de proteína animal em que ainda não atuava.
A parte útil da análise, essa sim, independe de confirmação. A indústria alimentícia gera coprodutos em volume que só se torna visível quando multiplicado por escala industrial, e boa parte deles ainda é tratada como despesa em vez de receita.
E você, imaginava que a película da casca do ovo pudesse virar ingrediente de cosmético? Acha que aproveitar resíduo industrial deveria ser obrigação das empresas ou apenas oportunidade de negócio? Conta nos comentários que outro descarte do dia a dia você acha que poderia virar produto.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

