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Jovem cresce em campo de refugiados enfrentando calor extremo e tempestades de areia, consegue estudar com bolsa da ONU e volta à Argélia para construir com as próprias mãos uma casa para a avó usando garrafas plásticas cheias de areia, até a invenção chamar atenção e receber US$ 60 mil para virar outras 25 moradias

Jovem cresce em campo de refugiados enfrentando calor extremo e tempestades de areia, consegue estudar com bolsa da ONU e volta à Argélia para construir com as próprias mãos uma casa para a avó usando garrafas plásticas cheias de areia, até a invenção chamar atenção e receber US$ 60 mil para virar outras 25 moradias

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Jovem cresce em campo de refugiados enfrentando calor extremo e tempestades de areia, consegue estudar com bolsa da ONU e volta à Argélia para construir com as próprias mãos uma casa para a avó usando garrafas plásticas cheias de areia, até a invenção chamar atenção e receber US$ 60 mil para virar outras 25 moradias

Escrito por Ana Alice

Publicado em 30/08/2026 às 22:48

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Refugiado saarauí transforma garrafas cheias de areia em casas no deserto e recebe US$ 60 mil para ampliar projeto com 25 moradias. – Imagem: Reprodução/Montagem

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Uma solução criada dentro de um campo de refugiados transformou garrafas descartadas, areia do deserto e conhecimento acadêmico em moradias mais resistentes para famílias que enfrentavam condições climáticas extremas na Argélia.

Durante a infância e a juventude no campo de refugiados de Awserd, no sudoeste da Argélia, Tateh Lehbib conheceu de perto um problema que nenhuma sala de aula precisava explicar: como construir uma casa capaz de enfrentar o calor do Saara, tempestades de areia e chuvas que podiam destruir estruturas inteiras.

Anos depois, uma bolsa de estudos ligada ao ACNUR, a Agência da ONU para Refugiados, permitiu que ele frequentasse a universidade em Argel.

Tateh posteriormente concluiu um mestrado na área de eficiência energética em uma universidade espanhola e retornou aos campos com conhecimento técnico e uma ideia que começou dentro da própria família.

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A primeira pessoa que ele queria ajudar era a avó.

Com dificuldade para caminhar, a idosa já havia se machucado enquanto era levada para um centro comunitário durante uma tempestade de areia.

Tateh decidiu construir para ela uma casa diferente das tradicionais moradias de adobe encontradas nos campos.

O material escolhido estava espalhado por todos os lados: garrafas plásticas descartadas, preenchidas com areia do próprio deserto.

O protótipo funcionou.

Chamou a atenção de moradores, circulou pelas redes sociais e acabou levando funcionários do ACNUR até a construção.

O que havia começado como uma casa para a avó se transformou em um projeto apoiado pelo Fundo de Inovação do ACNUR.

Segundo a World Habitat, foram obtidos US$ 60 mil para financiar outras 25 moradias construídas com a mesma técnica.

Garrafas plásticas preenchidas com areia formam as paredes de uma das casas desenvolvidas nos campos de refugiados saarauís próximos a Tindouf, na Argélia. Crédito: UNHCR/ACNUR — Russell Fraser.

Tateh cresceu no campo de refugiados de Awserd

Tateh nasceu e cresceu em Awserd, um dos cinco campos de refugiados saarauís localizados na região de Tindouf, no sudoeste argelino.

Os campos foram formados a partir de 1975, quando milhares de saarauís deixaram o Saara Ocidental em meio ao conflito iniciado após o fim da administração colonial espanhola no território.

Décadas depois, a situação permanece entre as crises prolongadas de refugiados acompanhadas pelas Nações Unidas.

O ambiente torna a vida cotidiana ainda mais difícil.

A região é árida, isolada e submetida a temperaturas extremas.

Construções de adobe podem apresentar problemas quando atingidas por chuvas prolongadas, enquanto ventos fortes e tempestades de areia também desafiam estruturas mais frágeis.

Em outubro de 2015, fortes chuvas atingiram os cinco campos próximos a Tindouf e provocaram inundações que danificaram casas e estoques de alimentos.

Naquele momento, o ACNUR estimou que cerca de 25 mil pessoas haviam sido diretamente afetadas.

Foi nesse contexto que a experiência acadêmica de Tateh passou a encontrar um problema concreto para resolver.

Tateh Lehbib segura uma garrafa de água em uma das casas de plástico que projetou. Garrafas plásticas são o principal material de construção (MEE/Eugenio G. Delgado).

Bolsa do ACNUR levou Tateh à universidade

O caminho até a construção das casas começou antes das garrafas.

O ACNUR relata que Tateh estudou em Argel por meio de uma bolsa do programa DAFI, iniciativa voltada ao acesso de refugiados ao ensino superior.

Depois, ele continuou os estudos em uma universidade espanhola e obteve formação de mestrado relacionada à eficiência energética.

A World Habitat descreve sua formação na área de energia renovável e eficiência energética.

Quando voltou aos campos, Tateh passou a pensar em maneiras de aplicar esse conhecimento às condições enfrentadas pelas famílias saarauís.

A intenção inicial era construir uma casa energeticamente mais eficiente e utilizar garrafas descartadas em um jardim no teto.

A ideia, no entanto, encontrou dificuldades por causa do formato circular da cobertura.

Sobrou uma quantidade considerável de garrafas.

Em vez de descartá-las novamente, Tateh lembrou de um documentário que havia visto durante os estudos sobre construções feitas com recipientes plásticos.

A pergunta passou a ser simples: por que não utilizar as garrafas como parte das próprias paredes?

Casa da avó virou o primeiro teste com garrafas plásticas

A avó de Tateh tinha dificuldade de locomoção.

Durante uma tempestade de areia, segundo o relato publicado pelo ACNUR em janeiro de 2017, ela chegou a se ferir enquanto era transportada para um centro comunitário onde poderia permanecer protegida.

O neto queria oferecer uma alternativa que reduzisse a necessidade de tirá-la de casa sempre que o clima se tornasse mais severo.

As garrafas foram preenchidas com areia e organizadas horizontalmente, funcionando de maneira semelhante a tijolos.

Os espaços entre elas também recebiam areia, formando paredes espessas.

Por dentro, a estrutura podia receber camadas de terra, palha e cimento.

Do lado externo, cimento ajudava a fechar a construção.

O teto duplo contribuía para reduzir a entrada do calor.

A forma circular não era apenas estética.

Segundo técnicos do ACNUR envolvidos no projeto, o desenho mais aerodinâmico ajudava a estrutura a enfrentar os ventos das tempestades, enquanto as garrafas preenchidas com areia ofereciam uma alternativa mais resistente à água do que paredes tradicionais de adobe.

Garrafas preenchidas com areia são organizadas nas paredes das casas, funcionando como parte do sistema construtivo desenvolvido por Tateh Lehbib. Crédito: Reprodução

Cada casa utilizava cerca de 6 mil garrafas

A quantidade de material necessária dava outra dimensão à ideia.

De acordo com o estudo posteriormente publicado pela World Habitat, cada moradia utilizava aproximadamente 6 mil garrafas plásticas recicladas.

Elas podiam ser recolhidas em escolas, hospitais, instituições e pontos onde o plástico era descartado.

Depois de coletadas, precisavam ser preenchidas com areia antes de chegarem aos construtores.

Uma casa podia ser erguida em aproximadamente uma semana.

O estudo da World Habitat também registrou que as residências feitas com garrafas chegavam a apresentar temperatura interna até 5°C menor que construções tradicionais de adobe analisadas no projeto.

O protótipo construído para a avó custou aproximadamente US$ 291, segundo a documentação do projeto.

O uso de materiais encontrados dentro ou nas proximidades dos próprios campos ajudava a reduzir despesas e também dava outra finalidade a parte do plástico descartado na região.

Tateh Lehbib acompanha a construção de uma casa feita com garrafas plásticas preenchidas com areia nos campos saarauís da Argélia. Crédito: Pablo Mediavilla Costa/El País.

“Louco das garrafas” virou apelido de Tateh

No início, o projeto despertou desconfiança.

Uma casa feita de garrafas descartadas não correspondia ao tipo de construção ao qual os moradores estavam acostumados.

Tateh começou a recolher tantos recipientes que ganhou no campo um apelido que pode ser traduzido como “louco das garrafas”.

A aparência circular das casas também chamava atenção.

Ainda assim, o protótipo da avó começou a despertar curiosidade.

Tateh publicou imagens nas redes sociais, e a construção chegou ao conhecimento de funcionários do ACNUR em Tindouf.

Juliette Murekeyisoni, então coordenadora de campo da agência, relatou que recebeu pelo WhatsApp a fotografia da casa e decidiu conhecê-la pessoalmente.

Pouco depois, uma oportunidade de financiamento do Fundo de Inovação do ACNUR abriu caminho para transformar aquela experiência familiar em um projeto maior.

US$ 60 mil financiaram novas casas nos cinco campos

A proposta recebeu apoio para construir 25 casas em Awserd, Boujdour, Dakhla, Smara e Laayoune, os cinco campos saarauís da região de Tindouf.

Moradora diante de uma das casas de formato circular construídas com garrafas plásticas preenchidas com areia nos campos de refugiados saarauís. Crédito: World Habitat/Divulgação

A World Habitat registra um financiamento de US$ 60 mil, obtido com apoio do escritório local do ACNUR.

As obras financiadas começaram em novembro de 2016.

Até abril de 2017, o projeto havia concluído 27 construções no total, duas além do número inicialmente previsto, segundo a avaliação posterior da World Habitat.

A iniciativa beneficiou diretamente cerca de 50 pessoas, selecionadas principalmente entre moradores idosos, famílias de renda muito baixa e pessoas com deficiência ou necessidades específicas.

A construção também mobilizou moradores dos próprios campos.

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Grupos se encarregavam de recolher recipientes, outros enchiam as garrafas com areia e trabalhadores treinados participavam da montagem das paredes.

Dessa maneira, o projeto não entregava apenas uma estrutura pronta.

O conhecimento sobre a técnica também permanecia dentro da comunidade.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

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