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Kuwait enterrou dezenas de milhões de pneus no deserto até criar uma cicatriz negra tão gigantesca que podia ser vista do espaço, enfrentou incêndios, retirou cerca de 42 milhões de pneus e decidiu transformar o antigo cemitério em terreno para 25 mil casas

Kuwait enterrou dezenas de milhões de pneus no deserto até criar uma cicatriz negra tão gigantesca que podia ser vista do espaço, enfrentou incêndios, retirou cerca de 42 milhões de pneus e decidiu transformar o antigo cemitério em terreno para 25 mil casas

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Kuwait enterrou dezenas de milhões de pneus no deserto até criar uma cicatriz negra tão gigantesca que podia ser vista do espaço, enfrentou incêndios, retirou cerca de 42 milhões de pneus e decidiu transformar o antigo cemitério em terreno para 25 mil casas

Escrito por Ana Alice

Publicado em 15/08/2026 às 01:51

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Kuwait acumulou mais de 42 milhões de pneus no deserto, sofreu incêndios e mobilizou uma operação gigantesca de remoção e reciclagem. – Imagem: Ilustrativa

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Milhões de pneus acumulados no deserto transformaram uma área do Kuwait em uma mancha visível por satélite, alimentaram incêndios de grandes proporções e exigiram uma operação nacional de remoção, reciclagem e reconstrução urbana.

Por anos, uma extensa área do deserto do Kuwait acumulou milhões de pneus descartados até se transformar em um cenário difícil de esconder: enormes concentrações escuras de borracha passaram a aparecer claramente em imagens feitas por satélites, enquanto incêndios periódicos lançavam colunas de fumaça sobre a região.

O problema alcançou uma dimensão incomum.

Em 2021, quando o governo intensificou a retirada do material, a Reuters contabilizava mais de 42 milhões de pneus usados depositados nas areias do país, formando um dos maiores cemitérios desse tipo no mundo.

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A área ficava a apenas cerca de 7 quilômetros de uma zona residencial, o que transformava o acúmulo de borracha em uma preocupação que ia muito além da paisagem.

Incêndios já haviam mostrado o tamanho do risco.

Em abril de 2012, um deles consumiu uma área alimentada por aproximadamente 5 milhões de pneus.

A fumaça foi tão extensa que o satélite Terra, da NASA, registrou do espaço uma espessa coluna negra avançando em direção ao Golfo.

O depósito que parecia uma maneira simples de concentrar um resíduo difícil de eliminar acabou criando outro problema.

Para desmontá-lo, o Kuwait precisou mobilizar caminhões, transferir dezenas de milhões de pneus para outra região e desenvolver uma cadeia de reciclagem capaz de absorver uma quantidade de material acumulada durante anos.

E há uma reviravolta importante nessa história.

Ao contrário de versões recentes que afirmam que a área continua abandonada e que o projeto de ocupação do terreno não saiu do papel, dados oficiais de 2026 mostram que a cidade residencial associada à região está efetivamente em construção.

Em junho de 2026, a Autoridade Pública de Habitação do Kuwait informou que o contrato das principais vias de South Saad Al-Abdullah havia alcançado 65,10% de execução.

Cemitério de pneus do Kuwait cresceu durante anos no deserto

A origem da paisagem que se tornaria conhecida internacionalmente não está ligada a um único descarte.

Os pneus foram sendo acumulados durante anos em áreas destinadas a receber material fora de uso.

Fontes internacionais se referem ao depósito pelas regiões de Sulaibiya e Arhiya, na província de Jahra.

Em agosto de 2021, a agência Anadolu registrava uma estimativa de 50 milhões de pneus no local, enquanto a Reuters, no mês seguinte, utilizou uma contagem mais conservadora e documentada de mais de 42 milhões.

Por isso, números como 42 milhões e 50 milhões aparecem com frequência em reportagens sobre o caso.

A Reuters é a referência mais segura para a operação de retirada: mais de 42 milhões de pneus haviam sido acumulados e começaram a entrar no processo de reciclagem.

A agência relata que eles foram despejados nas areias do Kuwait, enquanto outras descrições do local mencionam grandes áreas e cavidades usadas para a deposição dos resíduos.

Na prática, boa parte formava pilhas e extensas superfícies abertas de borracha, em vez de permanecer completamente coberta pela areia.

Vista aérea mostra milhares de pneus acumulados em Sulaibiya, no Kuwait, onde o descarte formou um dos maiores cemitérios de pneus do mundo. Crédito: The National.

O que significa dizer que os pneus eram visíveis do espaço

O aspecto mais curioso do cemitério virou também uma das frases mais repetidas sobre o Kuwait: a afirmação de que ele podia ser visto do espaço.

O depósito podia ser identificado em imagens de satélite, inclusive por sistemas de observação da Terra capazes de mostrar as manchas e alterações no terreno.

Uma análise realizada em 2021 pela equipe de mapeamento por satélite da CGG utilizou imagens Sentinel-2, WorldView e GeoEye para acompanhar a área.

Os registros mostravam tanto o depósito quanto sua progressiva limpeza ao longo daquele ano.

A mesma investigação fez outra descoberta importante.

Enquanto imagens antigas do cemitério continuavam circulando como se mostrassem uma situação atual, fotografias orbitais de 13 de agosto de 2021 já revelavam o local amplamente livre dos pneus.

Os primeiros sinais da retirada apareciam desde março e abril, e o processo acelerou durante o verão do Hemisfério Norte.

Ou seja, os satélites que ajudaram a tornar o depósito famoso também documentaram o seu desaparecimento.

Imagem de satélite de janeiro de 2021 mostra o cemitério de pneus de Sulaibiya e uma coluna de fumaça saindo de parte do depósito. Crédito: Google Earth / Maxar Technologies / CGG Satellite Mapping.

Incêndio com milhões de pneus foi registrado pela NASA

A quantidade de borracha acumulada seria principalmente um problema de resíduos se não houvesse um fator adicional: fogo.

Em 17 de abril de 2012, um incêndio atingiu um depósito de pneus perto de Al Jahrah.

Segundo a NASA, o fogo foi alimentado por aproximadamente 5 milhões de pneus.

Centenas de bombeiros participaram do combate, com apoio de militares e funcionários da Kuwait Oil Company.

Às 10h55 daquele dia, no horário local, o instrumento MODIS instalado no satélite Terra registrou a cena.

A imagem mostrava uma grossa coluna de fumaça negra sendo carregada para leste.

Os ventos levaram grande parte dela em direção ao mar, reduzindo a exposição direta de áreas urbanas naquele episódio.

Outros incêndios voltaram a atingir depósitos de pneus kuwaitianos nos anos seguintes.

A Anadolu registrou ocorrências em 2019 e 2020, além do episódio de 2012.

Já a Reuters relatou que os moradores próximos conviviam com incêndios periódicos e com a fumaça nociva produzida por eles.

O risco ambiental dos pneus se torna particularmente grave durante a combustão.

A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos explica que incêndios desse material podem liberar gases, metais pesados e óleo, além de serem difíceis de controlar depois que grandes pilhas entram em combustão.

Satélite Terra, da NASA, registra a coluna de fumaça provocada por um incêndio em depósito de pneus no Kuwait. Crédito: NASA Earth Observatory / Jeff Schmaltz / LANCE-EOSDIS MODIS Rapid Response.

Remoção de 42 milhões de pneus mobilizou centenas de caminhões

Quando o governo decidiu liberar a área, simplesmente transportar a borracha já era uma operação de grande escala.

Em setembro de 2021, o Kuwait havia concluído a transferência dos pneus para Al-Salmi, região próxima à fronteira com a Arábia Saudita.

Uma das empresas envolvidas, o Al Khair Group, ficou responsável por transportar mais da metade do material.

Segundo seu diretor-executivo ouvido pela Reuters, a operação chegou a mobilizar até 500 caminhões por dia.

Isso significa que a limpeza do antigo depósito não resolveu automaticamente o destino final de toda aquela borracha.

O problema mudou de etapa.

Em Al-Salmi, os pneus passaram a alimentar instalações industriais projetadas para recuperar parte do material em vez de simplesmente formar outro cemitério permanente.

Pneus descartados começaram a virar pisos de borracha

Uma das empresas participantes foi a EPSCO Global General Trading.

Sua fábrica começou a funcionar em janeiro de 2021 e tinha capacidade declarada para reciclar até 3 milhões de pneus por ano.

No processo descrito pela Reuters, funcionários separavam e trituravam os pneus.

As partículas resultantes eram posteriormente prensadas para produzir placas e pisos coloridos de borracha.

Parte desses produtos era destinada ao mercado kuwaitiano e parte seguia para outros países do Golfo e da Ásia.

Outra tecnologia prevista era a pirólise.

Nesse processo, o material é submetido a altas temperaturas em condições controladas para recuperar produtos que podem ser aproveitados industrialmente.

A empresa Al Khair planejava transformar pneus em óleo para utilização, por exemplo, em fornos industriais, além de recuperar negro de carbono para outras aplicações.

A mudança não fazia desaparecer instantaneamente 42 milhões de unidades.

Ainda assim, criava uma alternativa ao modelo que havia ajudado a formar as enormes concentrações de borracha no deserto.

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Terreno liberado entrou em projeto para milhares de moradias

Quando a remoção chegou à fase decisiva, em 2021, o governo kuwaitiano também apresentou outro objetivo.

A intenção era aproveitar a área liberada dentro do desenvolvimento de South Saad Al-Abdullah, projeto residencial que inicialmente foi divulgado com previsão de cerca de 25 mil moradias.

Naquele momento, tratava-se sobretudo de um plano.

Por isso, reportagens posteriores passaram a questionar se a prometida transformação do antigo cemitério de pneus em uma nova área urbana realmente ocorreria.

O passar dos anos trouxe uma resposta mais concreta.

Em 2025, a Autoridade Pública de Habitação do Kuwait informou que quatro grandes contratos de infraestrutura estavam em andamento em South Saad Al-Abdullah.

Três deles atendiam 23.551 lotes residenciais.

Em novembro daquele ano, o contrato principal de estradas e infraestrutura havia alcançado 49,16% de execução.

A implantação continuou avançando em 2026.

Em março, o contrato das vias principais já registrava 58,21% de conclusão.

Em 21 de junho de 2026, a atualização oficial elevou esse índice para 65,10%.

Os três contratos adicionais de infraestrutura estavam, respectivamente, em 15,13%, 14,19% e 14,63%.

A própria Autoridade Pública de Habitação continua classificando South Saad Al-Abdullah entre seus projetos em andamento em agosto de 2026.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

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