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Lampreias invasoras viraram alvo de uma guerra química nos Grandes Lagos: cientistas usam o “cheiro de morte” de animais feridos ou em decomposição para provocar fuga, combinam feromônios sexuais, machos esterilizados, armadilhas e barreiras elétricas, e já conseguiram bloquear ou remover 99% dos adultos em um rio de Michigan antes da reprodução
Escrito por Carla Teles
Publicado em 27/08/2026 às 17:57
Atualizado em 27/08/2026 às 17:58
Ciência e Tecnologia
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Programa coordenado pela Great Lakes Fishery Commission combina métodos tradicionais e controles suplementares contra lampreias invasoras nos Grandes Lagos; no Black Mallard River, armadilhas e barreira elétrica impediram ou removeram 99% dos adultos desde 2017, enquanto pesquisas testam sinais de alarme, feromônios e novas formas de reduzir a reprodução invasora.
As lampreias invasoras dos Grandes Lagos estão sendo combatidas com uma combinação incomum de química, comportamento animal e engenharia. Além dos métodos tradicionais, pesquisadores estudam odores emitidos por animais feridos ou mortos, feromônios sexuais, machos esterilizados, armadilhas e barreiras elétricas para dificultar que a lampreia-marinha alcance áreas de reprodução.
As informações são da Great Lakes Fishery Commission (GLFC), organização criada em 1955 por acordo entre Canadá e Estados Unidos e responsável por coordenar pesquisas e ações de controle da espécie invasora. A página institucional consultada apresenta os resultados das iniciativas em andamento em 2026, mas não informa uma data específica de publicação ou atualização, por isso não é possível atribuir os dados a um único dia sem especulação.
“Cheiro de morte” explora um dos sentidos mais desenvolvidos das lampreias
A estratégia mais curiosa começa com o olfato. Segundo a GLFC, as lampreias-marinhas conseguem identificar substâncias liberadas por outros indivíduos mesmo quando elas aparecem em concentrações muito baixas na água. Esse sistema sensorial pode ser explorado tanto para atraí-las quanto para fazê-las fugir.
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Animais feridos, mortos ou em decomposição liberam compostos que funcionam como sinais de perigo. Esses odores provocam uma forte resposta de fuga, criando a possibilidade de empurrar as lampreias para armadilhas, trechos inadequados à reprodução ou locais onde o controle seja mais simples.
A GLFC trata esses sinais químicos de alarme como uma ferramenta em desenvolvimento, e não como substituto já consolidado dos métodos principais. A intenção é usá-los de forma complementar em rios onde barreiras físicas ou tratamentos convencionais encontram limitações.
Por isso, embora a expressão “cheiro de morte” traduza bem o mecanismo, ela não representa simplesmente a liberação indiscriminada de animais mortos nos rios. O trabalho envolve compreender os compostos químicos associados ao perigo e avaliar como as lampreias respondem a eles.
Feromônios podem atrair adultos para armadilhas ou confundir fêmeas
Os pesquisadores também tentam transformar os próprios mecanismos de comunicação das lampreias invasoras em ferramentas de controle. Larvas liberam sinais químicos que ajudam adultos migratórios a identificar tributários adequados à reprodução, enquanto machos em fase de desova liberam feromônios capazes de atrair fêmeas.
Experimentos já demonstraram que armadilhas para adultos podem se tornar mais eficientes em alguns tributários quando utilizam feromônios como atrativo. Em vez de tentar capturar os animais aleatoriamente, a estratégia busca conduzi-los exatamente para o ponto onde poderão ser removidos.
Outras substâncias ainda estão em desenvolvimento. Entre elas estão novos feromônios sexuais e antagonistas capazes de interferir na maneira como as fêmeas usam o olfato para localizar machos em ninhos de reprodução.
Essa abordagem mostra por que o combate às lampreias passou a envolver mais do que estruturas físicas. A GLFC procura combinar conhecimento sobre comportamento, reprodução e comunicação química para ampliar a eficiência das operações existentes.
Armadilhas e barreira elétrica já bloquearam 99% dos adultos em Michigan
O resultado mais expressivo apresentado pela comissão vem do Black Mallard River, em Michigan, nos Estados Unidos. Desde 2017, armadilhas associadas a uma barreira elétrica portátil e sazonal conseguiram remover ou impedir a passagem de 99% das lampreias adultas que tentavam alcançar os trechos superiores do rio.
A barreira é utilizada durante o período de migração e dificulta o acesso dos animais aos habitats de reprodução. Ao mesmo tempo, as armadilhas retiram indivíduos do sistema. O conjunto cria uma espécie de corredor de controle que reduz drasticamente o número de adultos capazes de passar para montante.
Machos esterilizados também foram soltos acima das armadilhas e da barreira. A ideia é que eles acasalem com eventuais fêmeas que consigam atravessar o sistema, reduzindo as chances de produção de descendentes viáveis.
Segundo a GLFC, nenhuma nova larva de lampreia-marinha foi encontrada na parte superior do Black Mallard River desde que esses controles suplementares começaram a ser utilizados. O dado reforça o potencial de combinar diferentes métodos em vez de depender de apenas uma intervenção.
Machos esterilizados também reduziram reprodução em outro sistema
Outro teste ocorre na região superior do Cheboygan River, também em Michigan. Desde 2017, machos esterilizados vêm sendo liberados em uma população isolada de lampreias para diminuir o sucesso reprodutivo.
Nos rios Maple e Sturgeon, dois tributários monitorados, a comissão afirma que nenhuma nova larva foi detectada nos canais principais desde o início das liberações. No Pigeon River, um terceiro tributário, a abundância e a distribuição das larvas ficaram aproximadamente 90% abaixo das médias históricas.
O princípio é diferente daquele usado por uma barreira. Em vez de impedir fisicamente o deslocamento, a técnica interfere diretamente no resultado da reprodução ao colocar machos incapazes de gerar descendentes férteis em contato com as fêmeas.
Para o programa, esse tipo de intervenção pode funcionar como uma camada adicional de proteção em locais onde algumas lampreias conseguem ultrapassar armadilhas ou outras estruturas de contenção.
Lampricidas ainda são uma das principais armas contra a espécie
Apesar das pesquisas com odores, feromônios e esterilização, os controles suplementares não foram concebidos para substituir completamente os métodos já utilizados contra as lampreias invasoras. A própria GLFC destaca que as ferramentas principais continuam sendo os lampricidas e as barreiras.
Os lampricidas são usados para atingir a fase larval nos tributários. Segundo a comissão, as aplicações eliminam mais de 90% das larvas de lampreia-marinha na maioria dos rios tratados, embora a eficiência possa variar conforme acesso, química da água e presença de espécies sensíveis.
As barreiras, por sua vez, impedem que adultos em migração cheguem aos locais de desova e concentram os animais em pontos onde podem ser capturados. O problema é que estruturas desse tipo também podem dificultar o deslocamento de outras espécies de peixes que utilizam os rios para reprodução e desenvolvimento.
É justamente essa limitação que explica o interesse por métodos mais seletivos. Sinais químicos, armadilhas aperfeiçoadas e controles reprodutivos podem permitir intervenções adaptadas às características de cada tributário.
Programa pretende testar combinações em até 12 rios durante 12 anos
A iniciativa de controles suplementares, chamada SupCon, reúne agentes responsáveis pelo controle da lampreia-marinha, pesquisadores e representantes da Great Lakes Fishery Commission. O objetivo é avaliar quais combinações funcionam melhor em diferentes condições ambientais e operacionais.
De acordo com a comissão, o projeto prevê conduzir e avaliar estratégias de controle suplementar em até 12 cursos d’água ao longo de 12 anos. Entre as instituições participantes estão U.S. Geological Survey, Michigan State University, U.S. Army Corps of Engineers, U.S. Fish and Wildlife Service e Fisheries and Oceans Canada.
O trabalho parte da ideia de que nenhum método isolado funciona da mesma maneira em todos os rios. Alguns locais dificultam o uso de lampricidas, outros apresentam barreiras problemáticas para peixes nativos, enquanto características químicas e físicas da água também podem mudar a eficiência das técnicas.
A pesquisa inclui ainda ferramentas que podem chegar a testes de campo no futuro, como dispositivos automatizados capazes de reconhecer e separar peixes por imagens e inteligência artificial, além de técnicas direcionadas às lampreias jovens que migram rio abaixo.
A batalha contra as lampreias passa a explorar o próprio comportamento do invasor
O controle das lampreias invasoras nos Grandes Lagos deixou de depender apenas da eliminação direta dos animais. A nova frente tenta transformar características fundamentais da própria espécie, olfato, migração, escolha de parceiros e comportamento diante do perigo, em pontos vulneráveis.
O resultado de 99% no Black Mallard River mostra o potencial da combinação entre armadilhas, barreira elétrica e esterilização, enquanto os estudos com sinais de alarme e feromônios indicam caminhos para tornar essas operações ainda mais direcionadas.
A chamada “guerra química”, portanto, não significa abandonar os métodos tradicionais. Ela representa uma tentativa de acrescentar novas ferramentas a um programa que precisa controlar a espécie invasora sem criar impactos desnecessários sobre outros organismos dos rios.
O que mais chama sua atenção nessa estratégia: usar o “cheiro de morte” para provocar fuga, feromônios para conduzir lampreias até armadilhas ou machos esterilizados para interromper a reprodução? Conte nos comentários qual método parece mais surpreendente.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Carla Teles.

