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Leiloeira foi avaliar os móveis de uma idosa de mais de 90 anos antes da mudança, olhou acima do fogão e encontrou uma obra medieval raríssima de Cimabue, do século 13, que era tratada como simples imagem religiosa, mas na verdade valia 24,18 milhões de euros
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 06/08/2026 às 21:13
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Painel medieval atribuído a Cimabue ficou anos em uma cozinha em Compiègne, foi reconhecido em avaliação de rotina, vendido por 24,18 milhões de euros e incorporado ao Louvre como tesouro nacional francês.
Uma pequena tábua medieval atribuída a Cimabue, um dos nomes centrais da pintura italiana do século XIII, ficou por anos pendurada acima de uma área de cozinha em uma casa perto de Compiègne, no norte da França, sem que a proprietária soubesse do valor histórico da obra. A pintura, conhecida como “A Derisão de Cristo” ou “Christ Mocked”, media apenas 26 por 20 centímetros e foi reconhecida durante uma avaliação de rotina antes da mudança da moradora. Meses depois, em outubro de 2019, o painel foi vendido por 24,18 milhões de euros, com taxas incluídas.
Obra de Cimabue foi encontrada durante avaliação de rotina em uma casa na França
A história começou quando a proprietária, uma mulher na casa dos 90 anos, decidiu vender a residência e chamou uma especialista para avaliar móveis e objetos antes da mudança. O quadro, tratado pela família como um antigo ícone religioso sem grande valor, estava pendurado na área da cozinha.
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De acordo com o The Guardian, a peça ficava acima de uma placa de cozimento em uma casa da década de 1960 perto de Compiègne. O painel havia passado despercebido por anos e poderia ter sido descartado se não chamasse a atenção durante a avaliação dos pertences.
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A obra foi então encaminhada para análise especializada. O Cabinet Turquin, em Paris, examinou o painel e associou a pintura ao conjunto de pequenas obras devocionais atribuídas a Cenni di Pepo, conhecido como Cimabue.
Autenticação ligou a pintura medieval a um raro conjunto do século XIII
A atribuição ganhou força por meio de estudos técnicos e comparativos. Segundo o The Guardian, especialistas usaram reflectografia infravermelha para analisar a pintura e relacioná-la a um díptico maior, datado de cerca de 1280.
O Cabinet Turquin informa que a descoberta permitiu avançar na reconstrução de uma obra devocional de pequenas dimensões ligada a Cimabue. Antes do painel encontrado na França, duas outras cenas já eram conhecidas em instituições de grande importância.
Essas duas peças são “A Flagelação de Cristo”, da Frick Collection, em Nova York, e “A Virgem e o Menino com Dois Anjos”, da National Gallery, em Londres. A aparição do painel de Compiègne reforçou a ligação entre essas obras dispersas.
Quem foi Cimabue e por que a descoberta chamou tanta atenção no mercado de arte
Cimabue, nome pelo qual ficou conhecido Cenni di Pepo, nasceu em Florença por volta de 1240 e morreu em 1302. Ele é considerado uma figura decisiva da pintura italiana anterior ao Renascimento, em um período de transição entre a tradição dos ícones e uma representação mais expressiva do espaço, do corpo e das emoções.
O Ministério da Cultura da França destaca que “A Derisão de Cristo” marca uma etapa importante na história da arte, justamente por mostrar essa passagem da linguagem do ícone para a pintura.
A raridade também pesou: a instituição informa que são conhecidas cerca de 15 realizações de Cimabue, em grande parte afrescos.
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Essa escassez explica a comoção causada pela descoberta. Obras atribuídas com segurança ao pintor são raras, e o surgimento de um painel inédito, guardado por décadas em uma casa comum, transformou a avaliação doméstica em um acontecimento de alcance internacional.
Leilão em Senlis superou a estimativa inicial e alcançou valor recorde
O painel foi levado a leilão em 27 de outubro de 2019, em Senlis, ao norte de Paris, pela casa Actéon. A estimativa inicial ficava entre 4 milhões e 6 milhões de euros, valor já elevado para uma peça pequena, mas compatível com a raridade do autor e do conjunto.
A disputa foi muito além da previsão. O The Guardian registrou que a obra alcançou 19,5 milhões de euros no martelo e passou de 24 milhões de euros quando as taxas foram incluídas. O Cabinet Turquin informa o valor final de 24,18 milhões de euros, com despesas de venda.
A venda colocou o pequeno painel entre os grandes acontecimentos recentes do mercado de arte antiga. O próprio caso ganhou força porque reunia elementos incomuns: uma obra medieval raríssima, um autor de grande peso histórico, uma redescoberta doméstica e uma origem familiar que não pôde ser reconstruída com precisão.
Origem da tábua de Compiègne continuou sem explicação conhecida
Um dos pontos mais intrigantes do caso é a falta de documentação sobre a chegada da obra à casa da proprietária. Segundo o The Guardian, a mulher afirmou à casa de leilões que não sabia de onde o quadro vinha nem como ele havia entrado na família.
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O Cabinet Turquin também registra que não eram conhecidos a data nem o local de aquisição do painel pelos antigos proprietários, que o consideravam apenas um ícone religioso. Essa lacuna manteve em aberto parte essencial da trajetória da obra ao longo dos séculos.
A ausência de origem documentada aumentou o caráter excepcional do achado. Em vez de aparecer em uma coleção catalogada, em arquivo de museu ou em inventário histórico, a pintura surgiu em uma residência comum, durante uma avaliação feita antes do esvaziamento da casa.
França bloqueou a exportação e obra entrou nas coleções do Louvre em 2023
Após a venda, o Estado francês classificou o painel como tesouro nacional, medida usada para impedir temporariamente a saída de bens culturais considerados fundamentais para o patrimônio do país. O objetivo era dar tempo para reunir recursos e manter a obra em território francês.
O Ministério da Cultura da França anunciou em 2 de novembro de 2023 a entrada de “A Derisão de Cristo” nas coleções do Museu do Louvre, em Paris. O registro oficial do Louvre informa que a decisão de aquisição e a inscrição no inventário ocorreram em 25 de outubro de 2023.
Com isso, a pequena tábua que havia sido ignorada em uma cozinha passou a integrar o acervo de uma das instituições de arte mais importantes do mundo.
O caso se tornou um exemplo raro de como uma obra medieval de altíssimo valor pode permanecer desconhecida por gerações antes de ser reconhecida pelo olhar técnico correto.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

