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Levar icebergs gigantes aos desertos parecia loucura, mas um bloco de gelo saiu do Alasca, atravessou milhares de quilômetros de helicóptero, avião e caminhão refrigerado e virou teste de um plano para matar a sede dos países mais secos do mundo

Levar icebergs gigantes aos desertos parecia loucura, mas um bloco de gelo saiu do Alasca, atravessou milhares de quilômetros de helicóptero, avião e caminhão refrigerado e virou teste de um plano para matar a sede dos países mais secos do mundo

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Levar icebergs gigantes aos desertos parecia loucura, mas um bloco de gelo saiu do Alasca, atravessou milhares de quilômetros de helicóptero, avião e caminhão refrigerado e virou teste de um plano para matar a sede dos países mais secos do mundo

Escrito por Ana Alice

Publicado em 04/08/2026 às 23:15

Atualizado em 04/08/2026 às 23:16

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Em 1977, um bloco de gelo saiu do Alasca rumo a Iowa para apresentar o plano de levar icebergs a países afetados pela falta de água. (Imagem: Ilustrativa)

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Uma experiência realizada no fim dos anos 1970 reuniu gelo polar, engenharia e ambição internacional em torno de uma proposta que ainda desafia os limites do transporte e do abastecimento de água.

No início de outubro de 1977, um pedaço de gelo com mais de uma tonelada apareceu em Ames, uma cidade cercada por plantações no estado norte-americano de Iowa e localizada a centenas de quilômetros do oceano.

O bloco havia saído do Alasca preso a um helicóptero e ainda viajaria de avião e caminhão refrigerado antes de chegar ao campus da Universidade Estadual de Iowa.

A operação, que custou cerca de US$ 8,5 mil na época, não pretendia abastecer a população local.

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O gelo foi levado ao interior dos Estados Unidos para acompanhar uma conferência internacional dedicada a uma ideia de grandes proporções: rebocar icebergs da Antártida até países marcados pela escassez de água.

O encontro ocorreu entre 2 e 6 de outubro de 1977 e reuniu aproximadamente 175 cientistas, engenheiros e representantes de diferentes setores.

Entre os principais patrocinadores estavam o príncipe saudita Mohammed Al-Faisal, que destinou US$ 50 mil ao evento, e a Fundação Nacional da Ciência dos Estados Unidos, responsável por outros US$ 25 mil.

O pequeno iceberg não comprovava que um bloco gigantesco poderia cruzar oceanos sem se desfazer.

Sua função era tornar palpável uma proposta que, até então, existia principalmente em desenhos, cálculos e apresentações técnicas.

Os participantes poderiam observar o gelo, discutir formas de isolamento e avaliar métodos de corte, movimentação e derretimento.

Iceberg do Alasca atravessou os Estados Unidos

O bloco foi retirado da região de Portage Lake, no Alasca, após uma seleção que contou com mergulhadores ligados ao Laboratório de Pesquisa Naval do Ártico dos Estados Unidos.

Ele pesava aproximadamente 2.500 libras, ou 1.133 quilos, e media cerca de 1,8 metro de comprimento, 1,5 metro de largura e 1,2 metro de altura.

Para iniciar a viagem, o gelo foi preso a uma estrutura de transporte e levado por helicóptero.

Depois, seguiu de avião e completou o percurso terrestre em um caminhão refrigerado.

Camadas de isolamento e gelo seco ajudaram a reduzir o derretimento durante o deslocamento.

Já em Ames, o bloco foi guardado em uma câmara frigorífica no Memorial Union, edifício da universidade que recebeu parte da programação da conferência.

O episódio ganhou atenção da imprensa e foi descrito como o transporte do “cubo de gelo mais caro do mundo”.

Apesar do apelido, o objetivo não era testar em escala reduzida todas as dificuldades de uma travessia oceânica.

Um bloco levado por veículos e protegido dentro de uma estrutura refrigerada enfrentava condições muito diferentes das que um iceberg encontraria sendo arrastado por milhares de quilômetros entre ondas, correntes, ventos e águas tropicais.

Ainda assim, sua presença ajudava a transformar uma proposta abstrata em um objeto que podia ser tocado e examinado.

Arábia Saudita buscava novas fontes de água

O envolvimento saudita partia de um problema concreto.

A Arábia Saudita possui clima árido, pouca chuva e recursos hídricos naturais limitados, o que tornou a busca por novas fontes de água um tema estratégico para o país.

Mohammed Al-Faisal havia trabalhado durante anos em uma organização dedicada à água salgada e acompanhava a expansão das usinas de dessalinização.

Embora essa tecnologia permitisse retirar o sal da água do mar, exigia instalações complexas, consumo elevado de energia e investimentos contínuos.

O príncipe passou a considerar os icebergs uma reserva de água doce que poderia complementar ou competir com a dessalinização.

Em 1977, ele presidia a Iceberg Transport International, empresa criada para estudar a possibilidade de levar grandes blocos de gelo a regiões secas.

A Universidade Estadual de Iowa entrou no projeto por meio de Abdelfattah Husseiny, professor de engenharia nuclear e amigo de Al-Faisal.

A aproximação ajudou a levar a conferência para Ames, onde especialistas discutiram desde a seleção dos icebergs até as consequências políticas e ambientais de retirá-los das regiões polares.

Plano para rebocar icebergs começava na Antártida

Apesar de o bloco apresentado em Iowa ter vindo do Alasca, os projetos de abastecimento em grande escala estavam voltados principalmente aos icebergs antárticos.

Muitos deles têm formato tabular, semelhante a enormes plataformas flutuantes, o que parecia oferecer mais estabilidade para uma longa operação de reboque.

A proposta começava com a localização de um iceberg de dimensões adequadas.

Em seguida, navios precisariam envolvê-lo com cabos ou algum tipo de estrutura de contenção, protegê-lo parcialmente contra o calor e puxá-lo por uma rota calculada para aproveitar as correntes marítimas.

Ao chegar ao destino, o gelo teria de ser mantido perto da costa, fragmentado ou derretido.

A água resultante ainda precisaria ser captada, armazenada e distribuída por tubulações, reservatórios ou caminhões.

Na conferência, surgiram alternativas que iam de rebocadores convencionais a sistemas com rodas de pás instaladas nas laterais do iceberg.

Também foram debatidas propostas envolvendo submarinos de grande potência, imagens de satélite para selecionar blocos e diferentes materiais para diminuir a perda de gelo.

As discussões incluíram ainda dúvidas jurídicas.

Não estava claro quem poderia retirar um iceberg da Antártida, quem responderia por acidentes durante a travessia ou como seria tratada a passagem de uma massa gigantesca pelas rotas de navegação de diferentes países.

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Derretimento não era o único desafio do projeto

A imagem mais fácil de associar ao fracasso do plano é a de um iceberg desaparecendo em águas quentes.

Esse risco era real, mas fazia parte de um conjunto mais amplo de dificuldades.

Um iceberg não se comporta como um navio.

Grande parte de seu volume fica submersa, seu formato muda à medida que o gelo derrete e blocos podem se desprender durante o trajeto.

Ondas também desgastam as laterais, enquanto correntes e ventos podem empurrar a estrutura para direções diferentes.

O controle se torna ainda mais difícil porque o iceberg pode girar ou tombar quando perde estabilidade.

Cabos, pontos de fixação e embarcações teriam de resistir a forças variáveis durante semanas ou meses.

A chegada também não encerraria o problema.

Seria necessário retirar rapidamente a água antes que o gelo restante se perdesse no mar, sem provocar alterações indesejadas de temperatura e salinidade nos ecossistemas costeiros.

Essas questões impediram que a proposta saudita avançasse para uma operação de abastecimento.

Os arquivos da Universidade Estadual de Iowa indicam que, por volta de 1982, o interesse do príncipe e dos principais organizadores havia diminuído, em grande parte pela falta de apoio do governo da Arábia Saudita.

Transporte de icebergs continuou sendo estudado

O transporte de icebergs para regiões secas continuou aparecendo em estudos, propostas empresariais e simulações digitais.

Décadas de avanço em satélites, previsão oceânica, materiais resistentes e sistemas de navegação tornaram possível calcular rotas com um nível de detalhe que não existia durante a conferência de Iowa.

Em um estudo publicado na revista Scientific Reports, pesquisadores simularam o reboque de icebergs da Antártida até a Cidade do Cabo, na África do Sul, e os Emirados Árabes Unidos.

Os resultados indicaram que as duas rotas poderiam ser fisicamente simuladas, mas com diferenças expressivas de distância, tamanho do iceberg e quantidade de embarcações necessárias.

Na rota de aproximadamente 9 mil quilômetros até os Emirados Árabes Unidos, um iceberg sem proteção contra as ondas precisaria começar a viagem com cerca de dois quilômetros de comprimento e 600 metros de espessura.

A travessia modelada levaria 206 dias, exigiria de dez a vinte rebocadores e manteria o gelo por mais de cem dias em águas e temperaturas do ar entre 25 °C e 30 °C.

Mesmo um bloco com essas dimensões atenderia apenas a uma parcela limitada da demanda hídrica regional.

O estudo calculou que um iceberg protegido contra a erosão das ondas poderia fornecer o equivalente a sete ou oito dias do consumo doméstico total dos Emirados.

A simulação não incluiu todos os gastos da operação, como combustível, salários, manutenção das embarcações e infraestrutura para retirar a água.

Por isso, demonstrar que um iceberg poderia chegar ao destino não significa que a alternativa seria economicamente melhor do que dessalinização, reúso de água ou redução de perdas nas redes de abastecimento.

Experiência de 1977 não provou a viabilidade do plano

O bloco levado a Iowa mostrou que era possível retirar gelo do Alasca e preservá-lo durante uma viagem por diferentes meios de transporte.

No entanto, a demonstração não reproduziu a força das ondas, as longas distâncias, as temperaturas tropicais nem a dificuldade de controlar um iceberg de milhões de toneladas no oceano.

Ainda assim, a conferência deixou um acervo de estudos sobre circulação marítima, estabilidade, derretimento, seleção por satélite e formas de transporte.

Parte das pesquisas modernas sobre icebergs continua usando conhecimentos relacionados a esses temas, inclusive para proteger plataformas e outras estruturas marítimas contra colisões.

O episódio também registrou a escala das soluções imaginadas durante a crise energética e hídrica da década de 1970.

Para os responsáveis pelo projeto, a abundância de gelo nos polos parecia justificar a tentativa de conectar dois extremos do planeta: as regiões onde a água estava congelada e os países onde ela fazia falta.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

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