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Mãe ficou um mês sem eletricidade, viveu com dois filhos em um abrigo, enfrentou duas horas de ônibus e sobreviveu a um atropelamento antes de concluir engenharia e trabalhar nos computadores da Estação Espacial Internacional
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 10/08/2026 às 18:18
Atualizado em 10/08/2026 às 18:19
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Após perder carro, renda e moradia durante a graduação, Mejean Cline concluiu engenharia de computação em 2018 e entrou, pela contratada Leidos, em uma equipe que programava e mantinha os sistemas usados nos computadores da Estação Espacial Internacional, a mais de 300 quilômetros da Terra
Mejean Cline concluiu engenharia de computação em 2018 depois de sustentar a família com trabalhos na área de segurança, perder a moradia e interromper a graduação. Quando retomou o curso, ela ainda carregava as consequências de um atropelamento, das dívidas e de um período vivido com o marido e os dois filhos em um abrigo.
Anos depois de passar um mês em casa sem eletricidade, Cline entrou em uma equipe que cuidava de computadores operados a mais de 300 quilômetros da Terra, dentro da Estação Espacial Internacional. A apuração foi publicada pela University of Houston Cullen College of Engineering, faculdade de engenharia que registrou a trajetória da ex-aluna.
Quando estudar ameaçou o orçamento familiar
Cline nasceu em Nova Orleans e entrou no Escritório do Xerife da Paróquia de Orleans depois do ensino médio. O objetivo imediato era ajudar nas despesas de casa. Após se mudar para Houston, em 2002, ela continuou trabalhando em empresas privadas de segurança, embora mantivesse o interesse por computadores e engenharia.
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A maternidade tornou a decisão de estudar mais urgente. Seu filho Elijah nasceu em 2004, e sua filha Naia, em 2007. Primeiro, Cline obteve uma formação de dois anos em ciências no Houston Community College. Em seguida, fez uma pausa de dois anos para trabalhar e criar os filhos.
Em 2012, ela iniciou a graduação em engenharia de computação na Cullen College. Cline passou a conciliar dois filhos, trabalho em tempo integral e aulas. A sobrecarga afetou suas notas, e o marido, Ray Roberts, propôs que ela reduzisse o trabalho e concentrasse energia na faculdade, mesmo com a necessidade de controlar cada gasto.
Ela também entrou no Programa de Domínio em Estudos de Engenharia, conhecido pela sigla Promes. Com a melhora das notas, voltou a trabalhar em tempo parcial no escritório do programa e recebeu a bolsa William A. Brookshire para o período letivo iniciado no fim de 2014. O benefício atendia estudantes com carga completa de disciplinas que também trabalhassem pelo menos 20 horas por semana.
A perda do carro veio antes do atropelamento
Em outubro de 2014, Roberts perdeu o emprego. Sem dinheiro para manter o carro, a família passou a depender do ônibus. Cline levava duas horas em um único sentido apenas para deixar os filhos na escola, enquanto o marido enfrentava outra longa rotina de transporte para chegar ao trabalho que conseguiu depois.
A mudança atingiu mais do que o tempo disponível. O deslocamento tornou cada tarefa doméstica, profissional e acadêmica mais difícil, num momento em que a casa já não tinha margem financeira para absorver qualquer novo problema.
Duas semanas depois do início da rotina de ônibus, Cline deixou as crianças na escola e saiu para tomar café antes de seguir para as próprias aulas. Uma motorista que saía de um estacionamento não a viu na travessia e a atingiu.
Cline recuperou a consciência oito horas depois, no Hospital Ben Taub. Os ferimentos a afastaram das aulas durante duas semanas. Roberts deixou o emprego para cuidar dela, pois a estudante precisava de ajuda até para realizar atividades básicas.
O mês sem eletricidade terminou em um abrigo
Sem a renda do marido e com Cline machucada, as contas saíram do controle. Ela chegou a usar o plano de refeições da universidade para alimentar a família. O dinheiro já não cobria aluguel, contas, comida e transporte, e a eletricidade do apartamento foi cortada.
A família permaneceu um mês sem energia antes de deixar o imóvel onde havia vivido por oito anos. Cline, o marido e os dois filhos foram acolhidos na residência familiar do Exército de Salvação. Voluntários mantinham as crianças ocupadas com jogos, música e outras atividades, enquanto os pais tentavam reorganizar a vida.
Ainda no abrigo, Cline voltou às aulas. Porém, precisava escolher entre pagar a passagem de ônibus e comprar comida. As notas caíram, as dívidas aumentaram e ela entrou em recuperação acadêmica, situação na qual a universidade acompanha o baixo rendimento e exige melhora para a continuidade dos estudos.
No fim daquele período, Cline recebeu um afastamento administrativo referente ao período letivo do fim de 2014. A interrupção não foi uma pausa planejada para descansar. Ela ocorreu quando a estudante estava ferida, endividada, sem moradia própria e tentando sustentar duas crianças.
A bolsa e uma conversa abriram o caminho de volta
Em 2015, um representante do comitê da bolsa procurou Cline para entender a situação. A família conseguiu sair do abrigo e voltar para um apartamento. Ela também encontrou outro emprego em segurança privada, mas decidiu usar o restante daquele ano para estabilizar a casa antes de tentar estudar novamente.
O receio continuou em 2016. Retornar à universidade significava correr o risco de enfrentar nova falta de dinheiro. Por isso, Cline chegou a considerar a desistência, imaginando que o sonho profissional poderia estar sendo colocado acima das necessidades dos filhos.
Na primavera de 2016, Cline participou de um almoço para beneficiários da bolsa. Ela pretendia agradecer pessoalmente a William A. Brookshire e comunicar que deixaria a faculdade. Brookshire ouviu sua história e disse que acreditava nela.
A conversa mudou a decisão. Cline retomou a graduação com o apoio do programa, dos mentores e da família. A University of Houston Cullen College of Engineering, faculdade de engenharia responsável pelo relato institucional, registrou que o encontro com Brookshire foi o motivo apontado por ela para voltar.
O retorno terminou com o diploma de engenharia
Os filhos também fizeram parte dessa retomada. Quando necessário, ela os levava ao campus, e a equipe do Promes ajudava como podia. Em vez de esconder a maternidade para caber na rotina universitária, Cline precisou integrar estudo, cuidado e trabalho até concluir a formação.
No verão de 2018, ela recebeu o diploma de engenharia de computação. Havia uma vaga esperando por ela em uma equipe ligada aos sistemas da Estação Espacial Internacional. O passo seguinte não apagou a crise anterior, mas transformou anos de estudo em uma função de grande responsabilidade técnica.
Dos ônibus de Houston aos computadores da estação espacial
Cline passou a trabalhar no Centro Espacial Johnson para a Leidos, empresa contratada que presta serviços ligados à NASA. Sua função reunia desenvolvimento em Linux e gerenciamento de configurações. Em palavras simples, ela ajudava a programar, organizar e manter versões corretas dos sistemas usados nos computadores da estação.
Ela integrava uma equipe responsável por programar e dar suporte aos sistemas de computação da Estação Espacial Internacional. São as máquinas vistas em imagens de astronautas trabalhando com computadores enquanto flutuam em órbita.
Esse trabalho exige atenção extrema. Uma pequena falha de programação pode afetar outros profissionais e sistemas, por isso cada alteração precisa ser controlada e verificada. A formação em engenharia preparou Cline para lidar com esse nível de precisão e com as consequências de um erro.
Há ainda uma diferença essencial: Cline não foi apresentada como funcionária direta da NASA. Ela atuava pela contratada Leidos, dentro de uma equipe localizada no Centro Espacial Johnson. Essa precisão evita transformar uma trajetória real em uma versão maior do que a documentação permite.
O que essa trajetória realmente mostra
A passagem da casa sem eletricidade para os computadores da estação espacial concentra o contraste mais forte da história. Porém, a conclusão do curso não resultou apenas de resistência individual. Bolsa, mentoria, apoio familiar e acolhimento deram condições concretas para que ela pudesse retornar.
Por isso, a trajetória não deve ser tratada como prova de que pobreza, exaustão ou sofrimento formam profissionais melhores. Ela mostra justamente o custo dessas barreiras e o papel do suporte para impedir que uma estudante capaz seja afastada da universidade pelas circunstâncias.
Você acredita que bolsas e apoio acadêmico podem impedir que outras mães abandonem a engenharia? Comente e compartilhe esta história.
Fonte
EGR
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

