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Mãe Migrante: a mulher fotografada por Dorothea Lange em 1936 virou símbolo da Grande Depressão, mas passou décadas incomodada com a história contada sobre sua própria imagem
Escrito por Viviane Alves
Publicado em 01/08/2026 às 23:04
Atualizado em 01/08/2026 às 23:05
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Retrato feito em um acampamento da Califórnia transformou Florence Owens Thompson em símbolo mundial da crise, embora sua relação com a fotografia fosse muito mais complexa.
Uma fotografia produzida durante a Grande Depressão nos Estados Unidos atravessou décadas e se tornou um dos registros documentais mais reconhecidos do século XX.
A imagem conhecida como “Mãe Migrante” foi feita por Dorothea Lange em março de 1936, em um acampamento de trabalhadores rurais localizado em Nipomo, na Califórnia.
No centro do retrato estava Florence Owens Thompson, então com 32 anos, acompanhada dos filhos enquanto sua família atravessava um período de dificuldades econômicas.
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Com o passar dos anos, a fotografia passou a representar pobreza, insegurança e resistência durante a Grande Depressão.
A história de Florence, no entanto, revela que a mulher transformada em símbolo nacional não via aquela imagem da mesma maneira que o público.
Florence já enfrentava dificuldades muito antes da fotografia
Florence nasceu como Florence Leona Christie em 1º de setembro de 1903, no então chamado Território Indígena, atual Oklahoma.
Ela tinha ascendência Cherokee e cresceu na cidade de Tahlequah.
Aos 17 anos, Florence se casou com Cleo Owens, com quem teve cinco filhos.
A estrutura da família mudou profundamente em 1931, quando Cleo morreu de tuberculose enquanto Florence estava grávida do sexto filho.
Naquele período, os Estados Unidos enfrentavam o agravamento da Grande Depressão e da Dust Bowl, com seca intensa e devastação agrícola.
Florence precisou, portanto, encontrar diferentes formas de garantir o sustento das crianças.
Na Califórnia, ela trabalhou na colheita de algodão e ervilhas, além de passar por bares e hospitais.
Segundo sua filha Katherine McIntosh afirmou posteriormente à CNN, Florence priorizava os filhos mesmo quando os recursos eram extremamente limitados.
Família passou a acompanhar colheitas pela Califórnia
Após o nascimento do sétimo filho, Florence conheceu Jim Hill.
O casal teve mais três crianças e passou a depender do trabalho agrícola itinerante.
A família acompanhava diferentes períodos de colheita pelo estado da Califórnia em busca de oportunidades.
Esse deslocamento constante acabou levando Florence até o cenário onde seria produzida a fotografia que marcaria sua história.
Na primavera de 1936, a família seguia para uma colheita de alface quando o automóvel apresentou problemas mecânicos.
Jim Hill saiu em busca de peças.
Florence permaneceu com os filhos em um acampamento de colhedores de ervilha em Nipomo.
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Viviane Alves
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Dorothea Lange encontrou Florence durante viagem de trabalho
Dorothea Lange trabalhava naquele período para a Administração de Reassentamento dos Estados Unidos.
A fotógrafa registrava as condições enfrentadas por trabalhadores migrantes durante a crise econômica.
Lange retornava para casa depois de outro trabalho quando percebeu uma indicação para o acampamento de Nipomo.
Inicialmente, ela continuou a viagem.
Pouco depois, porém, decidiu retornar ao local.
A fotógrafa encontrou Florence sentada sob um abrigo improvisado junto aos filhos.
Lange realizou uma sequência de fotografias enquanto se aproximava gradualmente da família.
Uma dessas imagens se tornaria posteriormente conhecida como “Mãe Migrante”.
Relato da fotógrafa ajudou a construir a história da imagem
Anos depois, Lange descreveu o encontro em um relato preservado pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.
Segundo a fotógrafa, Florence aparentava estar faminta e desesperada.
Lange também afirmou que Florence informou ter 32 anos naquele momento.
O relato acrescentava que a família sobrevivia com vegetais encontrados nos campos próximos e pássaros capturados pelas crianças.
A fotógrafa afirmou ainda que Florence teria vendido pneus do automóvel para conseguir alimentos.
Décadas depois, essa parte da narrativa seria contestada pelos familiares de Florence.
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Viviane Alves
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Publicação provocou repercussão imediata
Pouco tempo depois, a fotografia apareceu no San Francisco News.
A divulgação chamou atenção para as condições enfrentadas pelos trabalhadores rurais instalados no acampamento.
A repercussão levou o governo dos Estados Unidos a anunciar o envio de 20 mil libras de alimentos para auxiliar aquelas famílias.
Florence e seus filhos, no entanto, já haviam deixado o local quando os mantimentos chegaram.
A imagem continuou circulando e rapidamente ganhou importância histórica.
A identidade da mulher fotografada, porém, permaneceu desconhecida durante muitos anos.
Florence seguiu sua vida longe da notoriedade criada pelo retrato.
Posteriormente, ela se estabeleceu em Modesto, conseguiu trabalho em um hospital e se casou com George Thompson.
Florence revelou sua identidade décadas depois
Somente em 1978, Florence Owens Thompson revelou publicamente ser a mulher retratada por Dorothea Lange.
A declaração foi feita ao jornal Modesto Bee.
Florence deixou claro que não guardava uma relação confortável com a fotografia.
Ela afirmou que preferia que Lange nunca tivesse feito aquele registro.
Florence também reclamou por não ter recebido qualquer valor pela imagem.
Dorothea Lange também não recebeu pagamento direto pela fotografia, já que o trabalho havia sido produzido durante sua atuação para o governo federal.
A imagem, entretanto, contribuiu para ampliar o reconhecimento profissional da fotógrafa.
Família contestou detalhes apresentados por Lange
Os familiares de Florence também questionaram algumas informações associadas à história de “Mãe Migrante”.
Um dos principais pontos envolvia a suposta venda dos pneus do automóvel para comprar comida.
Em 2002, Troy, filho de Florence, falou sobre o assunto ao San Luis Obispo New Times.
Segundo ele, a família não poderia ter vendido os pneus porque posteriormente deixou o local utilizando o próprio veículo.
Troy afirmou não acreditar que Lange tivesse mentido intencionalmente.
Para ele, a fotógrafa poderia ter confundido histórias diferentes ou preenchido detalhes que não possuía.
Fotografia atravessou décadas e se tornou símbolo da Grande Depressão
Dorothea Lange morreu em 1965.
Florence Owens Thompson morreu em 16 de setembro de 1983, aos 80 anos.
A imagem produzida em Nipomo, entretanto, permaneceu profundamente ligada à memória visual da Grande Depressão norte-americana.
O próprio túmulo de Florence passou a destacar essa dimensão histórica.
Sua lápide a identifica como “Mãe Migrante” e apresenta sua figura como símbolo da força da maternidade americana.
A trajetória também revela uma contradição importante.
Enquanto milhões de pessoas conheceram o rosto de Florence, poucos conheciam a história da mulher que existia além daquele instante registrado pela câmera.
O que existe por trás de uma das fotografias mais famosas da história?
A fotografia “Mãe Migrante” continua sendo lembrada como um retrato das dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores durante a Grande Depressão.
A história de Florence Owens Thompson, porém, acrescenta outra dimensão ao registro.
A mulher eternizada pela câmera seguiu vivendo durante décadas enquanto sua imagem circulava sem que sua identidade fosse amplamente conhecida.
Sua revelação pública em 1978 mostrou que uma fotografia histórica também pode carregar versões diferentes sobre o momento em que foi produzida.
O desconforto de Florence e as contestações de seus familiares ajudam, portanto, a compreender a complexidade existente por trás de um dos retratos mais famosos do século XX.
Você imaginava que a mulher da fotografia “Mãe Migrante” havia passado décadas praticamente anônima e que sua família contestaria parte da história associada ao retrato?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Viviane Alves.

