9 min de leitura
Mais de 700 vagões aposentados do metrô de Nova York foram lançados no fundo do Atlântico a cerca de 28 metros de profundidade e, duas décadas depois, viraram um recife artificial de 3,4 km² tomado pela vida marinha
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 30/08/2026 às 00:18
Atualizado 30/08/2026 às 00:19
Curiosidades
Canal
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Mais de 700 vagões do metrô de Nova York foram afundados no Atlântico e hoje integram o Redbird Reef, recife artificial de 3,4 km² em Delaware.
Durante décadas, os vagões vermelhos do metrô de Nova York transportaram milhões de passageiros por túneis e linhas elevadas da maior cidade dos Estados Unidos. Quando começaram a ser aposentados, porém, centenas deles receberam um destino improvável. Em vez de terminarem imediatamente desmontados em ferros-velhos, foram esvaziados, preparados, carregados em enormes barcaças e levados para o Atlântico.
Segundo o Departamento de Recursos Naturais e Controle Ambiental de Delaware, o DNREC, mais de 700 desses antigos “Redbirds” estão hoje no Reef Site 11, cerca de 26 quilômetros ao largo do Indian River Inlet, local que acabou recebendo justamente o nome de Redbird Reef.
No fundo, o cenário lembra uma estação de metrô abandonada depois de uma catástrofe imaginária. Há vagões parcialmente cobertos por organismos marinhos, peixes atravessando portas onde antes entravam passageiros e estruturas metálicas espalhadas por uma área de aproximadamente 3,4 km², em águas que chegam a cerca de 28 metros de profundidade.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Cada Redbird tinha aproximadamente 15,5 metros de comprimento
O impacto visual dos vagões debaixo d’água fica mais fácil de compreender quando se observa o tamanho de cada unidade.
Documentação oficial do Departamento de Proteção Ambiental de Nova Jersey, estado que também recebeu antigos vagões de Nova York para seus próprios recifes, registra que cada Redbird possuía aproximadamente 51 pés de comprimento, pouco mais de 15,5 metros, e cerca de 2,7 metros de largura e altura.
Os carros pertenciam a diferentes séries do metrô nova-iorquino e ficaram conhecidos coletivamente como Redbirds por causa da pintura vermelho-escura adotada nos últimos anos de operação.
Quando centenas dessas estruturas são colocadas juntas sobre o fundo oceânico, a dimensão deixa de ser comparável à de alguns veículos abandonados. Forma-se praticamente uma paisagem construída.
São corredores, janelas, portas, espaços internos e superfícies de aço distribuídos por uma área onde antes predominavam areia e sedimentos.
Antes de entrar no mar, cada vagão precisava ser preparado
Os trens não eram simplesmente retirados dos trilhos e lançados no Atlântico.
Antes da implantação, os antigos vagões passavam por uma preparação específica para retirar materiais inadequados ao ambiente marinho. Documentos oficiais de programas de recifes artificiais que receberam os Redbirds registram a remoção de tanques, plásticos, materiais degradáveis e graxas antes da submersão.
Esse processo era indispensável porque a finalidade declarada era criar habitat, e não utilizar o oceano como destino indiscriminado para resíduos.
A MTA de Nova York arcava com os custos de preparação, transporte e implantação dos vagões destinados aos programas estaduais participantes. Depois da limpeza, os carros eram transportados por barcaças até coordenadas previamente definidas.
Só então acontecia a etapa que produziu algumas das fotografias mais impressionantes de todo o projeto.
Os vagões eram empurrados das barcaças e desapareciam no Atlântico
No oceano, enormes barcaças transportavam fileiras de vagões completamente esvaziados.
Ao chegar aos pontos estabelecidos pelos programas estaduais, as estruturas eram movimentadas até a borda e lançadas ao mar. Fotografias produzidas durante essas operações mostram vagões inteiros suspensos por alguns instantes entre a embarcação e a superfície antes de atingir a água.
Assista o vídeo
Depois do impacto, o aço afundava até alcançar o fundo.
Em Delaware, os veículos passaram a formar concentrações dentro do Reef Site 11. Um estudo da University of Delaware descreve o Redbird Reef como uma área de aproximadamente 3,4 km² localizada a cerca de 30,5 quilômetros a leste do Indian River Inlet, com estruturas instaladas em águas de aproximadamente 28 metros.
Era o começo da segunda vida de máquinas projetadas originalmente para operar justamente no ambiente oposto.
O fundo arenoso ganhou paredes, portas, tetos e milhares de cavidades
A razão ecológica para utilizar estruturas desse tipo está relacionada à própria geografia submarina da região.
Grandes áreas do fundo do Atlântico Médio são dominadas por areia e sedimentos relativamente planos. Para determinadas espécies, superfícies verticais, cavidades e abrigos são recursos muito menos abundantes do que em regiões dominadas por rochas naturais.
Um vagão modifica imediatamente essa geometria. A carroceria acrescenta paredes duras onde organismos podem aderir. Portas e janelas criam passagens. O interior oferece abrigo. Espaços entre um vagão e outro aumentam a complexidade física do habitat.
O DNREC explica que materiais duráveis e estáveis colocados em seus recifes artificiais criam superfícies e espaços usados por invertebrados e peixes, além de sustentar pesca recreativa e mergulho.
O metrô que antes organizava o deslocamento humano pela cidade começou, de certa forma, a organizar espaços para organismos no fundo oceânico.
Mexilhões, esponjas e outros organismos passaram a ocupar o aço
Um vagão recém-afundado não se transforma instantaneamente em um recife biologicamente complexo. Primeiro vem a colonização das superfícies.
Organismos capazes de se fixar em substratos rígidos começam a utilizar o aço disponível. Com o passar do tempo, a estrutura passa a abrigar comunidades de invertebrados e, consequentemente, atrai espécies que procuram alimento e proteção.
Registros dos programas estaduais associados aos vagões mencionam mexilhões, esponjas, cracas e organismos semelhantes a corais entre os colonizadores observados nesses recifes artificiais.
Peixes como o black sea bass, espécie importante para a pesca na costa nordeste dos Estados Unidos, também usam estruturas complexas como abrigo.
Assim, um objeto concebido para transportar passageiros durante décadas passa a exercer uma função totalmente diferente depois de aposentado: oferecer relevo artificial onde o fundo natural oferecia pouca estrutura vertical.
O recife ganhou até 86 tanques e veículos blindados
Os vagões podem ter dado nome ao Redbird Reef, mas eles não estão sozinhos. O inventário oficial divulgado pelo DNREC registra também 86 tanques e outros veículos blindados aposentados do Exército dos Estados Unidos no local.
Há ainda oito rebocadores, embarcações comerciais e outras estruturas.
A combinação produz um cenário quase surreal. Um mergulhador pode encontrar, na mesma região, aquilo que restou de uma composição de metrô e, pouco depois, a estrutura de um veículo militar.
Em anos recentes, o recife continuou recebendo novas peças. Em 2022, por exemplo, o DNREC afundou ali o Texas Star, embarcação de aproximadamente 55 metros que havia funcionado anteriormente como cassino flutuante e depois como barco comercial.
O local, portanto, continua sendo desenvolvido muito tempo depois dos primeiros vagões.
Um antigo navio de passageiros de 65 metros também foi parar entre os trens
Outra peça gigantesca acrescentada ao Redbird Reef foi um antigo navio de passageiros utilizado na baía de Chesapeake.
O DNREC registra uma embarcação de 215 pés de comprimento, aproximadamente 65,5 metros, entre os componentes do recife.
Essa mistura mostra como os programas de recifes artificiais trabalham com escalas completamente diferentes.
Assista o vídeo
Um único navio cria grande relevo vertical e espaços internos volumosos. Vagões, por outro lado, podem ser distribuídos em grupos por uma área muito maior.
Ao reunir ambos, o Redbird Reef ganhou uma paisagem submarina heterogênea, formada por objetos que jamais teriam se encontrado durante suas vidas operacionais.
Trens de Nova York, tanques do Exército, rebocadores e antigos navios agora ocupam o mesmo fundo oceânico.
Alguns vagões também mostraram que nem todo aço se comporta igual debaixo d’água
A experiência com trens submersos produziu uma descoberta importante sobre durabilidade. Um estudo publicado na revista Continental Shelf Research, com participação de pesquisadores ligados à University of Delaware, analisou mudanças do fundo marinho no Redbird Reef e observou como as estruturas interagiam com sedimentos, correntes e tempestades.
Os pesquisadores concluíram que vagões implantados no local chegaram a uma condição relativamente estável em relação ao ambiente após aproximadamente seis a sete anos, embora correntes e tempestades produzissem erosão localizada e alterações nos sedimentos ao redor das estruturas.
Outras experiências com diferentes gerações de vagões mostraram que a composição do material importava muito.
Os Redbirds começaram a chegar ao fundo do mar em 2001
O programa de recifes artificiais de Delaware é anterior aos trens. O estado começou a desenvolver seu sistema em 1995, utilizando inicialmente materiais como concreto e unidades construídas especificamente para criar relevo submarino.
Os Redbirds chegaram depois.
A implantação dos antigos vagões de Nova York começou em 2001, quando a retirada dessa geração de trens criou uma quantidade enorme de material disponível ao mesmo tempo.
A escala era perfeita para uma operação desse tipo. Nova York precisava dar destino a uma frota inteira aposentada, enquanto estados costeiros procuravam grandes estruturas de aço para ampliar seus recifes artificiais.
O resultado foi um dos projetos de reaproveitamento mais visualmente extraordinários da história recente do transporte público americano.
Mais de duas décadas depois, o recife continua recebendo novas estruturas
O fato de os primeiros vagões terem sido depositados há cerca de um quarto de século não significa que o projeto tenha terminado.
Em julho de 2024, o DNREC acrescentou ao Redbird Reef duas novas embarcações históricas: o antigo barco de combate a incêndios Mayor J. Harold Grady, de Baltimore, e o rebocador TD-21, construído durante a Segunda Guerra Mundial.
Naquele anúncio, o departamento voltou a descrever o local como o mais popular ou um dos mais procurados entre seus 14 recifes artificiais para pesca e mergulho.
A transformação, portanto, permanece ativa.
O que começou com estruturas espalhadas sobre um trecho do fundo oceânico tornou-se uma concentração enorme de objetos de diferentes épocas da engenharia americana.
De metrô lotado em Nova York a abrigo para peixes no fundo do Atlântico
Talvez nenhuma imagem resuma melhor a transformação do que uma porta aberta de um vagão submerso.
Décadas atrás, milhares de passageiros atravessavam aquela abertura diariamente em Manhattan, Queens, Brooklyn ou Bronx. Depois vieram a aposentadoria, a desmontagem dos interiores, a limpeza, o transporte por barcaça e a queda no Atlântico.
Hoje, ninguém entra naquele vagão para chegar ao trabalho.
Peixes atravessam as janelas. Organismos aderem às superfícies metálicas. O sedimento se acumula ao redor das rodas e da estrutura inferior. O oceano modifica lentamente aquilo que originalmente foi construído para suportar milhões de quilômetros sobre trilhos.
O Redbird Reef ocupa aproximadamente 3,4 km² de fundo marinho e seus componentes estão a dezenas de metros abaixo da superfície. Mais de 700 vagões Redbird permanecem associados ao local nos inventários oficiais atuais, acompanhados por tanques, veículos blindados, rebocadores e navios.
É difícil imaginar uma mudança de função mais radical.
Depois de passar décadas transportando seres humanos sob uma das cidades mais movimentadas do planeta, centenas de vagões foram levados para alto-mar, lançados no Atlântico e convertidos em parte de uma paisagem submarina onde o próximo passageiro pode ser um peixe entrando pela mesma porta que um dia se abriu em uma plataforma de Nova York.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

