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Menina deixou a escola na quarta série e começou a cortar cana aos 12 anos para ajudar a família, trabalhou como lavadeira e empregada doméstica, chegou a dormir nas ruas de Belo Horizonte e estudou com apostilas retiradas do lixo até passar em concurso, formar-se em Direito na UFMG e se tornar juíza criminal na Bahia

Menina deixou a escola na quarta série e começou a cortar cana aos 12 anos para ajudar a família, trabalhou como lavadeira e empregada doméstica, chegou a dormir nas ruas de Belo Horizonte e estudou com apostilas retiradas do lixo até passar em concurso, formar-se em Direito na UFMG e se tornar juíza criminal na Bahia

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Menina deixou a escola na quarta série e começou a cortar cana aos 12 anos para ajudar a família, trabalhou como lavadeira e empregada doméstica, chegou a dormir nas ruas de Belo Horizonte e estudou com apostilas retiradas do lixo até passar em concurso, formar-se em Direito na UFMG e se tornar juíza criminal na Bahia

Escrito por Alisson Ficher

Publicado em 01/08/2026 às 20:01

Curiosidades

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Trajetória marcada por trabalho infantil, racismo, falta de moradia e obstáculos educacionais mostra como materiais descartados ajudaram uma jovem do Vale do Jequitinhonha a atravessar concursos públicos, concluir a graduação em Direito e alcançar uma das funções mais respeitadas do Judiciário brasileiro.

Antônia Marina Aparecida de Paula Faleiros deixou a escola ainda na quarta série, trabalhou no corte de cana-de-açúcar aos 12 anos e enfrentou períodos sem moradia antes de construir uma carreira no serviço público e chegar à magistratura baiana.

Depois de estudar com folhas descartadas por um cursinho, ela passou em um concurso para oficial de Justiça, formou-se em Direito na Universidade Federal de Minas Gerais e assumiu o cargo de juíza no Tribunal de Justiça da Bahia.

Nascida na zona rural de Serra Azul de Minas, no Vale do Jequitinhonha, Antônia precisou interromper os estudos porque a escola pública disponível na localidade não oferecia as séries seguintes, impedindo que as crianças da região avançassem normalmente na educação formal.

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Sem acesso à continuidade escolar naquele momento, começou a trabalhar nas lavouras de cana-de-açúcar da região de Curvelo para contribuir com a renda familiar, assumindo ainda na infância uma atividade fisicamente exigente e incompatível com a proteção prevista para sua idade.

Trabalho infantil e retorno à escola no Vale do Jequitinhonha

A entrada precoce no trabalho rural não ocorreu como preparação profissional ou escolha pessoal, mas como consequência das dificuldades econômicas enfrentadas pela família e da ausência de uma estrutura educacional que permitisse à menina continuar frequentando regularmente a escola.

Durante o período nos canaviais, a rotina de trabalho passou a ocupar o espaço deixado pelas aulas interrompidas, submetendo Antônia a jornadas pesadas justamente na fase em que deveria estar protegida do trabalho infantil e dedicada ao desenvolvimento escolar.

Encerrada uma das safras, ela retornou à cidade e começou a lavar roupas, enquanto aguardava uma oportunidade de retomar a formação interrompida e reconstruir um caminho educacional que, até então, parecia limitado pelas condições existentes na comunidade rural.

Quando a quinta série foi finalmente implantada na região, Antônia voltou à sala de aula com o incentivo da mãe, que trabalhava como costureira e enxergava nos estudos uma possibilidade concreta de ampliar as escolhas profissionais disponíveis para a filha.

Com recursos reunidos pela família, a jovem conseguiu estudar em um internato religioso localizado em Serro, também em Minas Gerais, onde cursou o Magistério e avançou em uma formação que havia sido interrompida anos antes pelas limitações do ensino rural.

Racismo e falta de moradia em Belo Horizonte

Ao se mudar para Belo Horizonte, Antônia encontrou novas possibilidades de trabalho e estudo, porém também passou a enfrentar dificuldades relacionadas à sobrevivência, à moradia e ao preconceito racial presente nos processos de contratação disponíveis para mulheres negras.

Durante a procura por emprego na capital mineira, ela relatou ter sofrido racismo, inclusive por causa do cabelo, utilizado por possíveis empregadores como um marcador para restringir oportunidades e reforçar barreiras que ultrapassavam sua experiência ou capacidade profissional.

Em um dos períodos mais difíceis dessa trajetória, Antônia foi despejada da casa de uma parente e passou a permanecer durante a noite em um ponto de ônibus, sem revelar às pessoas que não possuía outro lugar para dormir.

Para esconder a falta de moradia, mantinha livros e materiais escolares por perto e passava horas estudando, construindo a aparência de que apenas aguardava o transporte ou revisava conteúdos enquanto enfrentava, silenciosamente, a ausência de um endereço seguro.

Diante da necessidade de garantir renda e abrigo, procurou trabalho como empregada doméstica, ocupação que oferecia um salário e também um lugar onde pudesse dormir, depois de experiências anteriores no corte de cana e na lavagem de roupas.

Apostilas descartadas ajudaram na preparação para concurso

Algum tempo depois, um anúncio de concurso público apresentou uma possibilidade de estabilidade, mas a preparação esbarrava na falta de dinheiro para comprar apostilas ou frequentar regularmente um cursinho voltado aos conteúdos cobrados no processo seletivo.

O material necessário apareceu de maneira incomum, entre folhas borradas e páginas rejeitadas que seriam descartadas por um estabelecimento especializado na preparação de candidatos para concursos públicos.

Segundo a Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 1ª Região, Antônia recolhia no lixo de um cursinho as cópias rejeitadas pela funcionária responsável pela copiadora e, gradualmente, organizava aquelas páginas para formar sua própria apostila de Direito.

Percebendo o interesse da estudante pelo material descartado, a funcionária teria começado a separar as folhas borradas em um cesto específico, permitindo que Antônia continuasse recolhendo o conteúdo sem precisar pedir ajuda diretamente ou passar por uma situação constrangedora.

A partir das páginas reunidas, ela estudou para o concurso de oficial de Justiça do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, transformando materiais considerados inutilizáveis em uma ferramenta de preparação para a primeira grande mudança de sua trajetória profissional.

A aprovação ocorreu em 1984 e marcou sua entrada efetiva no Judiciário, oferecendo estabilidade financeira e contato cotidiano com procedimentos, decisões e atividades ligadas ao sistema de Justiça.

Graduação em Direito na UFMG ampliou a carreira

Mesmo depois de conquistar o cargo público, Antônia manteve o projeto de ampliar sua formação e ingressou no curso de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais, uma das principais instituições públicas de ensino superior do país.

A graduação foi concluída em 1991, abrindo novas possibilidades profissionais para a antiga trabalhadora rural, que havia iniciado os estudos jurídicos utilizando folhas retiradas do descarte de um cursinho preparatório.

Nos anos seguintes, ela exerceu diferentes funções na área jurídica, trabalhando como advogada, delegada e procuradora do Instituto Nacional do Seguro Social, além de ocupar outros postos antes de buscar uma vaga na magistratura estadual da Bahia.

Cada mudança profissional exigiu formação adequada e aprovação em processos seletivos próprios, fazendo com que a carreira fosse construída por etapas sucessivas, sem eliminar a necessidade de continuar estudando mesmo depois das primeiras conquistas no serviço público.

Concurso levou Antônia à magistratura baiana

A posse como juíza do Tribunal de Justiça da Bahia ocorreu em 2002, quando Antônia passou a integrar a magistratura estadual depois de atravessar experiências profissionais que iam do trabalho rural às diferentes funções jurídicas.

Lotada na 1ª Vara Criminal de Lauro de Freitas, município da Região Metropolitana de Salvador, ela passou a atuar em processos criminais, audiências e decisões relacionadas à aplicação da legislação penal no âmbito da Justiça estadual.

Paralelamente às atividades no Judiciário, a antiga cortadora de cana ampliou sua formação acadêmica e tornou-se mestre em Segurança Pública, Justiça e Cidadania pela Universidade Federal da Bahia, passando também a atuar como professora e palestrante.

Ao compartilhar conhecimentos jurídicos e aspectos de sua trajetória, Antônia manteve contato com estudantes e profissionais interessados nos temas ligados à Justiça, à educação e às barreiras sociais enfrentadas por pessoas que vivem em condições de vulnerabilidade.

Embora tenha alcançado a magistratura, o percurso profissional não apagou as experiências relacionadas à pobreza, ao trabalho infantil, ao racismo e à falta de moradia vividas antes de sua entrada definitiva no sistema de Justiça.

Em entrevistas sobre a própria história, Antônia afirmou que procura evitar o distanciamento em relação às pessoas vulneráveis e que participa de ações sociais direcionadas a comunidades carentes, mantendo essas experiências presentes em sua atuação pública.

O trabalho desenvolvido também recebeu reconhecimento por meio do Prêmio Maria Felipa, concedido a mulheres negras que se destacam na defesa dos direitos da população negra e no enfrentamento ao racismo.

Entre as páginas rejeitadas que formaram sua primeira apostila e os processos analisados na magistratura criminal, a educação apareceu primeiro como possibilidade interrompida, depois como alternativa retomada e, finalmente, como requisito para a construção de uma carreira jurídica.

O que mais chama sua atenção nessa trajetória: o retorno à escola, o material encontrado no lixo ou a sequência de concursos que levou uma antiga cortadora de cana até a magistratura?

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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

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