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Menina que trabalhou na roça aos 8 anos em Cavalcante se torna a primeira quilombola doutora em Direito no Brasil pela UnB com tese sobre as normas do povo Kalunga

Menina que trabalhou na roça aos 8 anos em Cavalcante se torna a primeira quilombola doutora em Direito no Brasil pela UnB com tese sobre as normas do povo Kalunga

5 min de leitura

Menina que trabalhou na roça aos 8 anos em Cavalcante se torna a primeira quilombola doutora em Direito no Brasil pela UnB com tese sobre as normas do povo Kalunga

Escrito por Flavia Marinho

Publicado em 24/08/2026 às 21:25

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Vercilene Francisco Dias saiu da infância de trabalho no campo no território Kalunga (Imagem: Reprodução)

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Vercilene Francisco Dias saiu da infância de trabalho no campo no território Kalunga, atravessou barreiras de acesso ao ensino superior e defendeu uma tese sobre as normas criadas e preservadas dentro da própria comunidade.

Aos 8 anos, Vercilene Francisco Dias trabalhava na roça com a família no território Kalunga, na região de Cavalcante, em Goiás. Em 11 de agosto de 2026, ela defendeu uma tese na Universidade de Brasília, a UnB, e se tornou a primeira quilombola doutora em Direito no Brasil.

A informação foi publicada pelo Correio Braziliense, jornal brasileiro com cobertura de educação e atualidades. O título representa uma conquista acadêmica, mas também amplia a presença de pesquisadores quilombolas em espaços que durante muito tempo pouco ouviram essas comunidades.

Na tese, a advogada não estudou o povo Kalunga como alguém de fora. Ela levou para a universidade a experiência de quem nasceu no território e investigou como oralidade, convivência e memória ancestral ajudam a criar regras para organizar a vida coletiva e resolver divergências internas.

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Da roça aos 8 anos à defesa da tese na UnB

Vercilene nasceu na comunidade Vão do Moleque, dentro do território quilombola Kalunga. Ainda criança, ajudava os pais no campo. A distância entre essa rotina rural e uma banca de doutorado mostra uma mudança profunda, mas não apaga as dificuldades encontradas no caminho.

O território Kalunga fica no norte de Goiás, na região da Chapada dos Veadeiros. Ele ocupa áreas de Cavalcante, Monte Alegre de Goiás e Teresina de Goiás e reúne comunidades ligadas por história, ancestralidade, trabalho, parentesco e luta pela permanência na terra.

Chegar ao ensino superior exigiu atravessar barreiras que atingem muitas populações quilombolas. O acesso desigual à educação, os conflitos territoriais e a distância dos grandes centros ajudam a explicar por que as ações afirmativas de inclusão tiveram importância na formação de Vercilene.

O direito encontrado entre os vãos do território Kalunga

A tese recebeu o título Começo, Meio e Começo: O Direito Achado Entre os Vãos do Território Quilombola Kalunga. O trabalho analisou a existência de uma forma própria de produzir normas dentro da comunidade, construída no convívio e transmitida entre gerações.

Em 11 de agosto de 2026, Vercilene defendeu uma tese na Universidade de Brasília, e se tornou a primeira quilombola doutora em Direito no Brasil.

Essa ideia pode ser entendida de maneira simples. Além das leis escritas pelo Estado, uma comunidade também cria formas coletivas de decidir, organizar responsabilidades e tratar conflitos. No território Kalunga, essas práticas nascem da oralidade, das memórias dos mais velhos e do diálogo entre os moradores.

O Correio Braziliense, jornal brasileiro com cobertura de educação e atualidades, registrou que a pesquisa tratou o tema de dentro para fora. Vercilene investigou como essa maneira própria de organizar a vida pode ser reconhecida sem retirar do povo Kalunga sua autonomia e identidade coletiva.

O mestrado abriu caminho para uma pesquisa ainda mais profunda

O doutorado deu continuidade a um percurso acadêmico ligado à terra e aos direitos quilombolas. Em 2019, Vercilene se tornou a primeira quilombola a concluir o mestrado em Direito Agrário na Universidade Federal de Goiás, área que estuda questões jurídicas relacionadas à terra e ao campo.

No mestrado, ela pesquisou conflitos agrários internos no território Kalunga. No doutorado, ampliou o olhar para compreender as normas da própria comunidade. Assim, sua produção acadêmica manteve ligação direta com problemas que fazem parte da vida de seu povo.

A trajetória também avançou para a atuação profissional. Em agosto de 2026, Vercilene atuava como assessora e coordenadora jurídica da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, a Conaq, organização voltada à articulação das comunidades quilombolas brasileiras.

Por que o doutorado de Vercilene entrou para a história

O pioneirismo não está apenas no diploma. Uma pesquisadora quilombola passou a produzir conhecimento jurídico a partir das experiências, necessidades e formas de organização de seu próprio território. Isso muda quem ocupa a universidade e também quem pode explicar o direito dentro dela.

Vercilene resume o caráter coletivo dessa conquista ao afirmar: “Não cheguei aqui sozinha”. A família, as lembranças da infância e a relação mantida com o território acompanham sua carreira e impedem que o doutorado seja apresentado como uma vitória individual separada da comunidade.

As dificuldades estruturais continuam existindo para estudantes negros, rurais e quilombolas. Por isso, a conquista não prova que basta esforço para superar qualquer obstáculo. Ela mostra o que pode acontecer quando talento, apoio familiar, organização coletiva e políticas de inclusão conseguem abrir caminhos antes bloqueados.

O conhecimento produzido na universidade retorna ao território

A pesquisa defende o reconhecimento das organizações internas das comunidades quilombolas pelo Estado brasileiro. Esse reconhecimento envolve respeitar maneiras próprias de preservar a cultura, guardar a memória e tomar decisões coletivas, sem tratar o território apenas como uma área desenhada no mapa.

O trabalho também enfrenta estereótipos que reduzem povos quilombolas a imagens de dependência. Vercilene declarou que ocupar esses espaços é mostrar que sua comunidade reúne pessoas que resistem e batalham com determinação, sem abandonar a própria identidade para serem reconhecidas.

Da roça em Cavalcante à banca da UnB, o caminho de Vercilene liga infância, território, formação jurídica e compromisso coletivo. O doutorado se torna histórico porque leva o saber Kalunga para o centro da pesquisa em Direito e ajuda a devolver esse conhecimento à comunidade que o tornou possível.

Para você, o que a trajetória de Vercilene revela sobre a importância de ampliar o acesso de estudantes quilombolas às universidades? Deixe sua opinião e compartilhe esta história para que mais pessoas conheçam essa conquista.

Fonte

Correio Braziliense


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

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