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Merendeira que não havia concluído o ensino médio trabalhava na mesma creche da filha, voltou a estudar, passou pelo Encceja, fez formação de professores e encarou 3 anos de faculdade até sair licenciada para ensinar na Educação Infantil
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 10/08/2026 às 00:22
Atualizado em 10/08/2026 às 00:23
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Trajetória reúne trabalho em creche, retomada dos estudos e formação superior em uma sequência marcada por mudanças profissionais e familiares. O percurso de Keila Maria de Araújo Alves mostra como diferentes etapas da educação se conectaram à rotina dentro da mesma rede de ensino.
A cozinha de uma creche municipal do Rio de Janeiro foi a porta de entrada de Keila Maria de Araújo Alves para uma trajetória profissional que acabaria levando ao ensino superior.
Sem ter concluído o ensino médio quando começou a trabalhar no local, ela aceitou uma vaga de merendeira na mesma unidade frequentada pela filha pequena.
A partir dali, vieram novas etapas.
Keila retomou os estudos, obteve a certificação escolar pelo Encceja, fez formação de professores e depois cursou três anos de Normal Superior com habilitação em Magistério da Educação Infantil.
Merendeira transformou experiência na creche em formação docente
Relatada pela própria Keila em seu trabalho de conclusão de curso, a sequência está registrada em documento publicado pelo Instituto Superior de Educação Pró-Saber.
No texto, intitulado “Presença, afeto e conhecimento: a cozinha como espaço educador”, ela reconstrói a passagem da cozinha para a formação docente.
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Mais do que registrar a mudança profissional, o trabalho mostra como o ambiente da creche se tornou também o lugar em que surgiu a decisão de voltar a estudar.
O vínculo com a instituição, porém, havia começado por uma necessidade familiar.
Depois do nascimento prematuro de sua segunda filha, Maria Eduarda, Keila precisava retornar ao mercado de trabalho e colocar a menina em uma creche quando ela tinha um ano de idade.
Foi nesse contexto que recebeu a oportunidade de trabalhar como merendeira justamente na unidade frequentada pela própria filha, mesmo sem experiência anterior em cozinha.
A escolha permitia conciliar o emprego com a rotina de levar e buscar a criança, mas existia uma barreira para qualquer tentativa de atuar em sala de aula.
Naquele momento, Keila ainda não havia concluído o ensino médio.
Embora já tivesse pensado diversas vezes em retomar a escolaridade, o longo período distante da escola vinha acompanhado de insegurança e desmotivação.
O impulso que faltava acabaria surgindo dentro do próprio ambiente de trabalho.
Convivência com educadores incentivou a volta aos estudos
Cercada por profissionais que faziam graduação e pós-graduação, Keila passou a acompanhar de perto diferentes trajetórias acadêmicas.
Entre elas estava a de Jurema Reis, agente educadora que, segundo o relato, tinha mais de 60 anos e cursava Pedagogia.
Ver uma colega mais velha continuar investindo na própria formação ajudou a transformar uma intenção antiga em decisão concreta.
Em 2017, Keila se inscreveu no Encceja Nacional e conseguiu concluir o ensino médio.
Obtida a certificação, abriu-se a possibilidade de avançar na formação profissional.
No ano seguinte, colegas comentaram sobre a existência de um curso Normal Pós-Médio no Centro Educacional Victor e Wladimir, com duração de um ano, e ela decidiu ingressar na preparação para o magistério.
Encceja abriu caminho para uma nova etapa de formação
Concluir o curso normal não encerrou o percurso educacional.
Com o ensino médio regularizado e uma formação docente já em andamento, Keila passou a considerar também a possibilidade de chegar ao ensino superior.
Foi nesse momento que recebeu de uma amiga, Márcia de Assis, a indicação do Pró-Saber.
Como a colega já estudava na instituição, passou a incentivá-la a disputar uma vaga para a turma seguinte, mesmo diante da insegurança que Keila relata ter sentido ao se imaginar em um processo seletivo ao lado de professores e auxiliares de ensino.
Depois de fazer a prova, Keila não foi pessoalmente buscar o resultado porque acreditava que não teria sido aprovada.
A confirmação veio por intermédio da amiga, que enviou uma foto da lista de selecionados e mostrou que seu nome estava entre os classificados.
Ainda havia, porém, uma segunda etapa a cumprir.
Os candidatos precisavam escrever um memorial sobre a própria infância escolar, parte do processo que antecedeu a entrada definitiva no curso.
Três anos de faculdade levaram à habilitação em Educação Infantil
A aprovação abriu uma formação de três anos no ensino superior.
Keila passou a cursar Normal Superior com habilitação voltada ao Magistério da Educação Infantil, mantendo ao mesmo tempo sua ligação com o cotidiano da creche.
Ao longo dessa etapa, a experiência profissional passou a dialogar diretamente com a formação acadêmica.
O trabalho apresentado no fim do curso registra que o aprendizado foi construído a partir de experiências, registros reflexivos, documentos produzidos nas aulas e memórias reunidas durante o percurso.
Segundo os registros acadêmicos do Instituto Superior de Educação Pró-Saber, Keila ingressou no curso em agosto de 2019 e concluiu a formação em julho de 2022.
O diploma foi posteriormente expedido e registrado pela instituição, confirmando a conclusão do ensino superior iniciada depois da passagem pelo Encceja e pelo curso Normal Pós-Médio.
Apoio da família ajudou a sustentar a rotina de estudos
Conciliar trabalho, família e faculdade também exigiu mudanças dentro de casa.
Nos agradecimentos de seu trabalho acadêmico, Keila registra que o filho João Vitor assumiu cuidados com a irmã para que ela pudesse frequentar o curso.
O apoio não ficou restrito a ele.
Ela também menciona o marido, Francivaldo, a filha Maria Eduarda, familiares, amigos, colegas de trabalho e integrantes da equipe da Creche Municipal Arco-Íris como pessoas presentes durante a formação.
Ao longo dos três anos de estudos, os filhos precisaram lidar com períodos de ausência enquanto a mãe cumpria a rotina acadêmica.
O marido, por sua vez, aparece no relato como um dos responsáveis por apoiar a decisão de retomar a escolaridade.
Dentro da própria creche, colegas também acompanharam a transformação profissional.
Keila agradece a pessoas que estiveram próximas desde a época em que sua rotina estava concentrada na cozinha até a conclusão da formação superior.
Creche Municipal Arco-Íris marcou diferentes fases da trajetória
Localizada no bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, a Creche Municipal Arco-Íris ocupa posição central nessa história.
Foi ali que Keila trabalhou como merendeira, permaneceu próxima da filha pequena e conviveu diariamente com profissionais que continuavam estudando.
O lugar que inicialmente atendia a uma necessidade prática de conciliar emprego e maternidade acabou assumindo outra função em sua trajetória.
A convivência com educadores e colegas em formação ajudou a alimentar a decisão de recuperar a escolaridade e avançar profissionalmente.
Durante a graduação, até mesmo a cozinha passou a ser observada sob outro ponto de vista.
Keila transformou a própria experiência como merendeira no tema de seu trabalho de conclusão de curso, analisando como aquele espaço poderia ser usado não apenas para preparar refeições, mas também para interações educativas com as crianças.
No início, segundo seu relato, o contato com os alunos acontecia principalmente à distância.
Aos poucos, porém, ela passou a estabelecer maior proximidade durante as refeições e nos momentos em que as crianças se aproximavam da cozinha.
A experiência cotidiana acabou servindo como base para reflexões sobre alimentação, convivência e aprendizagem.
Cheiros, sabores, cores e outros elementos presentes naquele ambiente passaram a fazer parte da análise desenvolvida durante sua formação.
Da cozinha à formação superior para ensinar crianças
Ao longo do percurso, a escolaridade acumulada modificou a condição profissional que Keila tinha quando chegou à creche.
Naquele primeiro momento, ela não havia terminado o ensino médio e tampouco possuía a formação necessária para trabalhar em sala de aula.
Depois vieram a certificação pelo Encceja, um ano de curso Normal Pós-Médio e três anos de ensino superior.
Cada uma dessas etapas ampliou a formação iniciada quando ela decidiu voltar a estudar enquanto já estava inserida na rotina de uma instituição de Educação Infantil.
Ao final do curso, Keila obteve o grau de Normal Superior, com habilitação em Magistério da Educação Infantil.
A mulher que havia aceitado trabalhar na cozinha para permanecer perto da filha e conseguir retornar ao mercado de trabalho passou a ter formação superior direcionada justamente à educação de crianças pequenas.
Que peso uma oportunidade de retorno aos estudos pode ter na trajetória de quem já trabalha diariamente dentro de uma escola?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

