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Mergulhadores acharam garrafas de cerveja de 162 anos num naufrágio no Canal da Mancha, e o mais impressionante é que a bebida pode ainda estar boa para beber, cientistas na Bélgica agora analisam o conteúdo e sonham em recriar a receita original

Mergulhadores acharam garrafas de cerveja de 162 anos num naufrágio no Canal da Mancha, e o mais impressionante é que a bebida pode ainda estar boa para beber, cientistas na Bélgica agora analisam o conteúdo e sonham em recriar a receita original

7 min de leitura

Mergulhadores acharam garrafas de cerveja de 162 anos num naufrágio no Canal da Mancha, e o mais impressionante é que a bebida pode ainda estar boa para beber, cientistas na Bélgica agora analisam o conteúdo e sonham em recriar a receita original

Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges

Publicado em 10/08/2026 às 11:16

Ciência e Tecnologia

Canal

Mergulhadores acharam garrafas de cerveja de 162 anos em naufrágio no Canal da Mancha, e um laboratório belga quer recriar a receita original.

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Uma caixa de garrafas escuras estava no meio da carga de um veleiro que afundou em 1864 a três milhas de Dover. Um mergulhador belga subiu com uma delas, enxaguou o gargalo e leu no selo intacto o nome de uma cervejaria que existe até hoje.

Mergulhadores encontraram garrafas de cerveja com 162 anos nos destroços do navio Mindoro, no Canal da Mancha, e o conteúdo pode ainda estar próprio para consumo, segundo reportagem publicada pelo jornal Extra em 10 de agosto de 2026, assinada por Fernando Moreira. O fotógrafo subaquático belga Stefan Panis, de 47 anos, localizou o material no compartimento de carga da embarcação durante mergulho realizado em 2025.

Amostras de uma das garrafas do século XIX foram enviadas a microbiologistas da universidade de pesquisa KU Leuven, na Bélgica. A intenção declarada vai além de identificar o que há dentro do vidro, e envolve a possibilidade de recuperar o DNA da levedura usada na fabricação para tentar refazer a mesma cerveja produzida na década de 1860.

O navio que saiu de Londres rumo a Vancouver

A identificação do naufrágio veio de um sino encontrado no local, que apontou a embarcação como sendo o Mindoro, uma barca a vela. O navio partiu de Londres com destino a Vancouver em 20 de novembro de 1864, carregando mercadorias.

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A viagem durou uma semana. Em 27 de novembro daquele ano, ao atravessar um trecho considerado traiçoeiro do Canal da Mancha, o Mindoro colidiu com outro veleiro, o Khersonese, e afundou a cerca de três milhas da costa de Dover, na Inglaterra. A carga desceu junto e ficou parada no fundo do mar por mais de um século e meio.

A garrafa que subiu com o selo intacto

Stefan Panis encontrou garrafas de cerveja de 162 anos em naufrágio no Reino Unido — Foto: Reprodução/Instagram(Stefan Panis)

Havia dezenas de garrafas espalhadas ao redor do navio afundado, e a maior parte delas estava com o lacre comprometido. Uma, porém, chamou atenção por estar diferente das demais.

Panis conta que recuperou o objeto e que, ao chegar à superfície, um enxágue rápido revelou o que estava escrito no selo. O gargalo apareceu limpo e legível, com a inscrição que identifica a cervejaria irlandesa e a origem londrina do produto. Ele descreveu o momento como espanto, e explicou que encontrar algo com o lacre preservado é raro nesse tipo de sítio. É esse detalhe que separa a peça de qualquer outra garrafa antiga: com o selo intacto, existe a chance real de o líquido nunca ter tido contato com a água do mar.

Por que o fundo do mar preservou a bebida

Stefan Panis encontrou garrafas de cerveja de 162 anos em naufrágio no Canal da Mancha — Foto: Reprodução/Instagram(Stefan Panis)

As condições do local ajudaram. O ponto onde o Mindoro afundou é frio, escuro e mantém temperatura relativamente constante ao longo do ano, combinação que funciona como uma espécie de adega natural.

A comparação usada pelos pesquisadores envolvidos é doméstica e direta: o ambiente equivale ao fundo de uma geladeira. Luz e calor são os dois maiores inimigos da conservação de cerveja, porque aceleram reações químicas que degradam sabor e estrutura da bebida. No fundo do Canal da Mancha, nenhum dos dois existe. Some-se a isso a ausência de oxigênio livre em contato com o líquido, e o resultado é um cenário de preservação melhor do que a maioria dos porões de superfície conseguiria oferecer.

O truque do gargalo para baixo

Há um segundo fator que pode ter sido decisivo, e ele tem a ver com a posição em que a caixa parou no leito marinho. Panis relata que o engradado ficou virado, com os gargalos apontados para baixo.

Segundo o historiador cervejeiro Edward Bourke, essa posição pode ter impedido a entrada de água do mar através da rolha. A explicação é de física simples: com a garrafa de cabeça para baixo, o ar preso dentro dela forma uma bolha que cria um selo pressurizado contra o líquido externo, dificultando a infiltração. Foi um acidente de posicionamento que pode ter salvado o conteúdo.

Essa é exatamente a dúvida que a análise precisa resolver. Panis afirma que a questão central é saber se a água do mar entrou pelas rolhas, e que, caso não tenha entrado, é muito provável que a cerveja ainda esteja própria para consumo.

O que o laboratório na Bélgica vai procurar

Stefan Panis encontrou garrafas de cerveja de 162 anos em naufrágio no Reino Unido — Foto: Reprodução/Instagram(Stefan Panis)

As amostras foram enviadas ao laboratório de leveduras e fermentação da KU Leuven, dirigido pelo pesquisador Kevin Verstrepen. O objetivo é analisar o conteúdo e verificar o que restou da fórmula original.

Verstrepen avalia que, se a garrafa realmente manteve a água do mar do lado de fora, há chance de o líquido ainda ser bebível, porque o próprio álcool da cerveja teria impedido o crescimento de microrganismos ao longo dos 162 anos. Ele pondera, no entanto, que a bebida produzida naquela época provavelmente não seria tão agradável ao paladar quanto as versões modernas, já que os cervejeiros do século XIX não trabalhavam com o mesmo padrão de esterilização usado hoje.

Por que a levedura original não sobreviveu

O plano de recriar a receita esbarra em uma limitação biológica que os pesquisadores já anteciparam. Levedura de cerveja não tem vida longa depois do engarrafamento, e a expectativa é de que os organismos originais não estejam mais vivos dentro da garrafa.

A saída é genética, não biológica. O laboratório pretende buscar traços de DNA da levedura no líquido e, a partir do sequenciamento, localizar a posição exata daquela cepa na árvore genealógica das leveduras conhecidas. Com essa posição definida, o passo seguinte é procurar parentes vivos próximos, cepas modernas descendentes da mesma linhagem, e usá-las para reproduzir uma fermentação equivalente à de 1864. Panis resume o objetivo dizendo que, se o DNA completo for recuperado, será possível fazer uma pequena nova produção da cerveja exata encontrada nos destroços.

Uma caixa de 24 e o plano de voltar ao naufrágio

A garrafa analisada não estava sozinha. Pelo tamanho do engradado localizado no fundo, Panis avalia que se trata de uma caixa com 24 unidades, e suspeita que possa haver mais caixas enterradas ao redor do naufrágio.

Ele mergulhou acompanhado de Eddie Huzzey, de 68 anos, e o grupo planeja retornar ao local para recuperar mais quatro garrafas, duas destinadas ao laboratório belga e duas à cervejaria. A única garrafa já resgatada está guardada na garagem do fotógrafo, submersa em água e em local escuro, na tentativa de manter as mesmas condições que a preservaram por um século e meio. A cervejaria também foi procurada pela equipe antes da divulgação do achado, o que explica por que a descoberta feita em 2025 só se tornou pública em 2026.

Não é a primeira vez que uma bebida antiga aparece no fundo do mar

Um dos integrantes do grupo já tinha vivido situação parecida. Pawel Truszynski, parceiro de Panis, participou da equipe que em 2024 localizou um naufrágio do século XIX no mar Báltico, a cerca de 20 milhas náuticas da costa da Suécia.

Aquela embarcação estava carregada de artefatos históricos, incluindo cerca de 100 garrafas de champanhe, além de vinho, água mineral e porcelana. Naufrágios em mares frios funcionam como cápsulas do tempo, e é por isso que descobertas de bebidas preservadas se concentram justamente no Báltico, no mar do Norte e no Canal da Mancha, onde a temperatura baixa e estável favorece a conservação.

Se der para beber, ele diz que bebe

Panis não esconde qual seria a atitude dele caso a análise autorize. Ele afirmou que experimentaria um gole da bebida se recebesse permissão para prová-la.

O detalhe curioso é que ele mesmo admite não ser grande apreciador do estilo. Stout é uma cerveja de alta fermentação e cor escura, marcada por aromas e sabores intensos de café, cacau e chocolate amargo, que vêm do malte torrado usado na produção. O interesse dele, portanto, é menos gastronômico e mais histórico: trata-se de provar algo fabricado quando o Brasil ainda era império e a fotografia dava os primeiros passos.

E você, tomaria um gole de uma cerveja engarrafada em 1864 se um laboratório garantisse que ela está própria para consumo, ou nem com laudo científico encostaria a boca na garrafa? Conta nos comentários o que você faria com uma peça dessas nas mãos.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

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