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Mergulhadores encontram a até 12 metros de profundidade uma aldeia de cerca de 9 mil anos onde ainda sobrevivem fundações de casas de pedra, um poço de 5,7 metros, estruturas megalíticas e dezenas de sepulturas humanas
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 13/08/2026 às 23:48
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Atlit-Yam, assentamento neolítico submerso no Mediterrâneo, está entre 8 e 12 metros de profundidade e preserva fundações de casas, poços construídos em pedra, estruturas megalíticas, sepulturas humanas e vestígios de uma comunidade que combinava agricultura, criação de animais e pesca há cerca de 9 mil anos.
Entre 200 e 400 metros da costa do Mediterrâneo, ao sul de Haifa, mergulhadores e arqueólogos estudam um assentamento pré-histórico hoje escondido entre 8 e 12 metros abaixo do nível do mar. Atlit-Yam ocupa aproximadamente 40 mil m² e foi datado por radiocarbono aproximadamente entre 9.400 e 8.000 anos antes do presente.
O que torna o sítio excepcional não é apenas sua idade. Debaixo da água permanecem fundações de moradias retangulares, pisos de pedra, paredes, áreas de armazenamento, poços, estruturas megalíticas e numerosos enterramentos humanos. Décadas de levantamentos subaquáticos permitiram aos pesquisadores reunir essas peças e reconstruir boa parte da organização daquela comunidade neolítica.
Aldeia de 40 mil m² está hoje entre 8 e 12 metros abaixo do Mediterrâneo
Atlit-Yam está na baía de Atlit, aproximadamente 10 quilômetros ao sul de Haifa. O levantamento arqueológico situa o assentamento entre 200 e 400 metros da costa atual, em profundidades que variam de aproximadamente 8 a 12 metros.
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O local pertence ao Neolítico Pré-Cerâmico C e representa uma fase em que comunidades do Levante já combinavam agricultura, criação de animais e exploração intensiva de recursos marinhos.
A Israel Antiquities Authority descreve Atlit-Yam como um dos exemplos mais antigos conhecidos de uma aldeia mediterrânea cuja economia dependia simultaneamente da terra e do mar.
Grande parte do sítio permanece normalmente coberta por cerca de 1 a 2 metros de areia. Tempestades removem temporariamente esses sedimentos, revelando setores que precisam ser documentados rapidamente antes que correntes, ondas e erosão voltem a afetar os vestígios.
Fundações de casas revelam moradias, pátios e áreas de armazenamento
Os arqueólogos identificaram fundações de várias moradias retangulares construídas com duas fileiras de pedras de kurkar, uma formação rochosa comum na costa da região.
Também existem lareiras, pisos pavimentados, paredes e cerca de 20 estruturas circulares revestidas de pedra interpretadas como áreas de armazenamento.
O desenho geral mostra grupos de unidades domésticas formados por moradias, pátios, depósitos e espaços abertos.
Segundo a reconstrução arqueológica, algumas dessas áreas livres poderiam ter sido utilizadas para cultivo ou para manter animais domésticos próximos das casas.
Algumas paredes encontradas no sítio chegam a dezenas de metros de extensão. Há ainda evidências de construção com tijolos de barro e superfícies pavimentadas, mostrando que a aldeia possuía uma organização arquitetônica muito mais complexa do que um simples acampamento temporário de pescadores.
Poço de 5,7 metros atravessava o solo para alcançar água doce
Entre os achados mais impressionantes estão poços circulares revestidos de pedras. Três estruturas desse tipo foram escavadas e identificadas como poços de água, estando entre os exemplos construídos mais antigos conhecidos desse tipo de infraestrutura.
O maior, denominado poço 11, possui aproximadamente 5,7 metros de profundidade e 1,5 metro de diâmetro. Sua parte superior era revestida por cerca de 28 camadas de pedras não trabalhadas, enquanto a base foi escavada aproximadamente 1,5 metro dentro da rocha para alcançar o aquífero de água doce.
Quando a estrutura foi localizada, as três fileiras superiores de pedras ainda permaneciam em sua posição original no fundo do mar.
Dentro do poço também foram encontrados restos vegetais, ossos de animais, artefatos de pedra e sílex e outros materiais depositados durante diferentes fases de utilização.
Subida do nível do mar começou a tornar a água do poço salgada
O próprio poço preservou evidências de uma transformação que posteriormente ajudaria a tornar Atlit-Yam um sítio submarino.
Durante a ocupação, o nível do Mediterrâneo continuava subindo e a infiltração de água salgada começou progressivamente a afetar o aquífero utilizado pelos moradores.
Camadas de grandes pedras encontradas nos aproximadamente dois metros inferiores do poço foram interpretadas como uma tentativa de elevar sua base para continuar alcançando a parte menos salina do lençol freático. É uma evidência direta de adaptação humana a uma costa que estava mudando durante a existência do assentamento.
A estratégia, porém, não funcionou indefinidamente. O poço deixou de fornecer água doce e passou a receber restos de alimentos e outros resíduos. Com a continuidade da elevação do nível do mar, a população acabou abandonando o assentamento.
Estruturas megalíticas têm pedras de até 1,8 metro de altura
Atlit-Yam também preserva duas estruturas megalíticas. Uma delas é formada por grandes pedras verticais organizadas em círculo, algumas chegando a aproximadamente 1,8 metro de altura, acompanhadas por grandes lajes horizontais.
Dezenas de pequenas cavidades escavadas nas pedras foram identificadas dentro e ao redor desse conjunto, além de indícios de vegetação associada a água doce.
Pelo contexto arqueológico, os pesquisadores consideram provável que a estrutura tivesse utilização ritual relacionada à água, embora sua função exata não possa ser estabelecida com certeza absoluta.
Uma segunda estrutura megalítica possui três grandes pedras de aproximadamente 1,7 metro de comprimento.
Cada uma teria peso estimado entre 450 e 550 quilos, e duas apresentam formas interpretadas pelos pesquisadores como antropomórficas, com sulcos delimitando algo semelhante a uma cabeça.
Dezenas de sepulturas ficaram preservadas entre casas e estruturas da aldeia
Outro aspecto extraordinário de Atlit-Yam é a quantidade de restos humanos. Uma síntese arqueológica calcula aproximadamente 63 indivíduos representados no sítio, com sepultamentos encontrados em diferentes partes da aldeia, principalmente próximos às construções.
Um estudo específico sobre os costumes funerários registrou ossos humanos em 91 pontos do assentamento, dos quais 46 apresentavam características de sepulturas escavadas na argila.
A maioria dos enterramentos estava concentrada em áreas determinadas e frequentemente próxima de paredes ou instalações.
Os mortos eram normalmente colocados em covas simples, sem estruturas externas monumentais. Alguns enterramentos continham mais de uma pessoa, enquanto 15 sepulturas apresentavam objetos associados, incluindo machados de sílex, instrumentos de pedra, artefatos de osso e outros materiais.
Mulher e bebê preservaram DNA de tuberculose de aproximadamente 9 mil anos
Entre os esqueletos encontrados em Atlit-Yam estavam uma mulher e uma criança pequena enterradas juntas. Pesquisadores observaram alterações nos ossos compatíveis com tuberculose e submeteram amostras dos dois indivíduos a análises moleculares.
O estudo, publicado na PLOS ONE, identificou DNA de Mycobacterium tuberculosis nos restos ósseos dos dois indivíduos, além de biomarcadores lipídicos específicos do complexo bacteriano. Os pesquisadores dataram os restos entre aproximadamente 9.250 e 8.160 anos atrás.
A descoberta tornou Atlit-Yam importante não apenas para a arqueologia marítima, mas também para o estudo da história das doenças infecciosas.
O caso forneceu evidência molecular de tuberculose em uma das primeiras comunidades sedentárias que já praticavam agricultura e criação de animais.
Mais de 8 mil ossos de animais e 6 mil restos de peixes mostram como os moradores viviam
As condições de preservação permitiram recuperar mais de 8 mil ossos de vertebrados terrestres. Entre eles aparecem cabras, ovelhas, bovinos, porcos e cães domésticos, além de animais selvagens como gazelas, javalis, gamos e raposas.
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Os arqueólogos também encontraram mais de 6 mil restos de peixes, entre ossos, escamas e dentes, pertencentes a diferentes famílias de peixes mediterrâneos. Instrumentos relacionados à pesca e a distribuição dos restos indicam que o mar fazia parte importante da alimentação e da economia da população.
Parte dos peixes encontrados era de espécies pelágicas, que vivem em águas mais abertas. Associada a outros vestígios, essa evidência levou pesquisadores a considerar que os habitantes utilizavam embarcações e redes para pescar além da faixa imediatamente próxima da costa.
Costa ficava até 2,5 quilômetros mais distante quando Atlit-Yam era habitada
A paisagem que cercava Atlit-Yam há cerca de 9 mil anos era completamente diferente da atual. Reconstruções indicam que, no início da ocupação, a linha costeira podia estar entre aproximadamente 1,5 e 2,5 quilômetros a oeste de sua posição moderna.
Durante o período de ocupação dos assentamentos neolíticos da região, o nível do mar subia rapidamente.
Uma reconstrução publicada por pesquisadores aponta uma taxa aproximada de 11 a 13 milímetros por ano naquele intervalo, suficiente para modificar de forma contínua poços, áreas habitáveis e a posição da costa ao longo de gerações.
Já foi levantada a hipótese de que um tsunami associado a atividade vulcânica do Etna teria contribuído para o abandono de Atlit-Yam.
Areia e água ajudaram a preservar uma aldeia desaparecida durante nove milênios
Depois que Atlit-Yam foi abandonada e inundada, parte dos vestígios acabou protegida por sedimentos e condições pobres em oxigênio.
Isso favoreceu a preservação incomum não apenas de pedras e ossos, mas também de madeira, fibras vegetais, sementes, juncos e outros materiais orgânicos que raramente sobrevivem durante períodos tão longos em sítios terrestres.
Hoje, os arqueólogos não encontram uma cidade intacta com edifícios elevados acima do solo marinho. O que sobrevive é algo cientificamente mais preciso e igualmente extraordinário: o traçado de uma comunidade neolítica preservado por suas fundações, paredes, pisos, pátios, poços, sepulturas, estruturas megalíticas e objetos deixados pelos moradores.
Atlit-Yam funciona, assim, como uma fotografia arqueológica de uma das primeiras comunidades costeiras sedentárias do Mediterrâneo.
Há cerca de nove milênios, seus habitantes criavam animais, cultivavam plantas, pescavam em águas abertas, cavavam poços, construíam casas e enterravam seus mortos no mesmo espaço que, atualmente, mergulhadores precisam alcançar descendo até 12 metros sob o Mediterrâneo.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

