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Moçambique fechou o rio Zambeze com duas comportas de 220 toneladas, ergueu uma barragem de 171 metros, escondeu cinco turbinas na rocha e enviou energia por 1.414 quilômetros até a guerra destruir a ligação
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 10/08/2026 às 19:30
Atualizado em 10/08/2026 às 19:37
Indústria
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A barragem de Cahora Bassa transformou o Zambeze em um lago de 270 quilômetros, instalou uma usina subterrânea de cerca de 2.000 megawatts e enviou eletricidade até a África do Sul. A guerra civil destruiu parte da transmissão, paralisou o sistema por anos e obrigou uma ampla reconstrução concluída em 1997.
Em 6 de dezembro de 1974, duas comportas acionadas por pressão, com aproximadamente 220 toneladas cada, fecharam o curso do rio Zambeze. A operação marcou o início da formação do imenso reservatório da barragem de Cahora Bassa, em Moçambique.
A obra ergueu uma parede de concreto com 171 metros de altura, criou um lago com cerca de 270 quilômetros e instalou cinco turbinas dentro de uma caverna escavada na rocha. A eletricidade produzida era transportada por 1.414 quilômetros até a África do Sul.
A Eskom, companhia estatal de eletricidade da África do Sul, registra os principais dados técnicos do empreendimento. O sistema reuniu barragem, usina subterrânea, estações conversoras e duas extensas linhas de transmissão.
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Uma parede de 171 metros passou a controlar o Zambeze
Cahora Bassa foi construída em uma passagem estreita do Zambeze, aproximadamente 120 quilômetros acima da cidade de Tete. O local permitiu apoiar a estrutura nas formações rochosas existentes nas duas margens do rio.
A parede possui uma dupla curvatura, formato semelhante ao de um arco. Essa característica ajuda a transferir para as laterais do vale parte da enorme pressão exercida pela água armazenada.
A barragem alcança 171 metros de altura, possui 303 metros de extensão em sua parte superior e utilizou aproximadamente 450 mil metros cúbicos de concreto. A fundação chega a 21,5 metros de largura em seu ponto mais espesso.
O fechamento do Zambeze formou um reservatório com cerca de 270 quilômetros de comprimento, até 30 quilômetros de largura e profundidade próxima de 140 metros. Sua capacidade alcança aproximadamente 52 bilhões de metros cúbicos de água.
Cinco turbinas gigantes ficaram escondidas dentro da rocha
A principal casa de força de Cahora Bassa não aparece ao lado da barragem. Engenheiros escavaram uma grande caverna na margem sul do Zambeze e instalaram nela os equipamentos responsáveis pela geração de eletricidade.
Cinco tubulações levam a água do reservatório até as turbinas. Cada passagem possui aproximadamente 170 metros de comprimento e 9,7 metros de diâmetro, permitindo que uma enorme quantidade de água desça sob pressão.
O movimento da água faz as cinco turbinas verticais girarem. Elas acionam os geradores e transformam a força do Zambeze em energia elétrica. Depois desse processo, a água retorna ao rio por dois túneis.
O conjunto possui capacidade instalada próxima de 2.000 megawatts. Essa potência colocou Cahora Bassa no centro de uma rede energética criada para atender não apenas Moçambique, mas também grandes consumidores da África Austral.
A eletricidade precisava atravessar 1.414 quilômetros
A energia produzida dentro da rocha saía inicialmente em corrente alternada. Transformadores elevavam sua tensão para 220 mil volts antes de enviá la até a estação de Songo, localizada a seis quilômetros da usina.
Em Songo, a eletricidade era convertida para corrente contínua de alta tensão, sistema conhecido pela sigla inglesa HVDC. A conversão era necessária para tornar mais eficiente e controlável o transporte de grandes volumes de energia por uma distância superior a 1.400 quilômetros.
A corrente contínua reduz alguns tipos de perda presentes na transmissão em corrente alternada por trajetos muito extensos. Embora as estações conversoras sejam caras e complexas, a economia alcançada ao longo de uma linha tão grande justificava o investimento.
Duas linhas separadas por aproximadamente um quilômetro transportavam cerca de 1.920 megawatts até a estação Apollo, próxima de Pretória. Após as perdas da viagem e das conversões, aproximadamente 1.800 megawatts chegavam à rede elétrica da África do Sul.
O sistema elétrico usou uma tecnologia pioneira para sua época
Na estação Apollo, a corrente contínua voltava a ser transformada em corrente alternada. A energia podia então entrar na rede de 275 mil volts e seguir para cidades, indústrias e outros pontos de consumo.
A Eskom, companhia estatal de eletricidade da África do Sul, detalha que Cahora Bassa esteve entre os primeiros grandes sistemas totalmente projetados com tiristores. Esses componentes eletrônicos controlavam a passagem e a conversão da corrente.
A estação Apollo reunia 22.656 tiristores, além de transformadores, filtros e equipamentos de proteção. Os filtros eram necessários para eliminar distorções elétricas produzidas durante o processo de conversão.
O primeiro conjunto gerador entrou em operação em 25 de março de 1975. A primeira transmissão de energia até Apollo ocorreu em 19 de maio daquele ano. As demais unidades começaram a funcionar gradualmente, e a quinta entrou em serviço em 22 de junho de 1979.
A guerra destruiu torres e interrompeu a ligação elétrica
A guerra civil moçambicana transformou a longa rota de transmissão em um alvo vulnerável. Torres, cabos e outros equipamentos foram atacados em diferentes pontos do percurso, principalmente dentro do território de Moçambique.
A partir de 1985, a ligação deixou de transportar regularmente a energia de Cahora Bassa até a África do Sul. Mesmo com água disponível e equipamentos de geração instalados, a eletricidade não podia chegar ao seu principal mercado sem as linhas.
Não existe um único total seguro de torres afetadas. Diferentes registros contam de maneiras distintas as estruturas completamente destruídas, substituídas ou apenas reparadas. Por isso, transformar esses levantamentos em um número definitivo poderia produzir uma informação imprecisa.
A presença de minas terrestres também dificultou o trabalho. As equipes precisavam tornar os corredores seguros, recuperar estradas de acesso e transportar peças pesadas antes de reconstruir cabos e torres.
A reconstrução alcançou cerca de 900 quilômetros de linhas
A recuperação não se limitou a levantar novas estruturas. Condutores, isoladores, peças responsáveis por controlar a vibração dos cabos e sistemas de proteção precisaram passar por inspeção.
A reabilitação envolveu aproximadamente 900 quilômetros de linha dupla dentro de Moçambique. Muitas torres tiveram de ser reconstruídas, enquanto acessos tomados pela vegetação ou danificados pelo abandono precisaram ser novamente abertos.
As estações de Songo e Apollo também receberam controles mais modernos. Esses sistemas passaram a coordenar geração, conversão e transmissão, além de responder rapidamente quando uma falha era identificada.
Após anos de trabalho, a ligação retomou suas operações em 1997. Cahora Bassa voltou a enviar eletricidade para a África do Sul e recuperou sua função econômica dentro da rede energética regional.
A eletricidade cruzava a fronteira enquanto os impactos permaneciam no vale
O projeto começou a ser definido em 1969, ainda durante o domínio colonial português sobre Moçambique. Naquele período, a África do Sul possuía o mercado industrial capaz de comprar grande parte da energia e justificar financeiramente a construção.
A venda de eletricidade deveria gerar receitas para apoiar projetos agrícolas e industriais em Moçambique. Após a independência, os contratos foram renegociados em 1984 para incluir formalmente o governo moçambicano.
A barragem, porém, também transformou a vida ao redor do Zambeze. O reservatório ocupou terras, modificou o fluxo do rio e alterou atividades ligadas à agricultura, à pesca e às cheias naturais. Os benefícios energéticos alcançavam regiões distantes, enquanto os impactos mais diretos ficavam concentrados no vale.
Cahora Bassa atravessou colonialismo, independência, guerra e reconstrução. Sua história mostra que uma grande obra não depende apenas de concreto e tecnologia, mas também da maneira como energia, receitas e impactos são distribuídos.
Uma barragem pode ser considerada um sucesso quando produz energia para milhões, mas deixa seus maiores impactos com as comunidades que vivem ao redor dela? Comente e compartilhe.
Fonte
Eskom
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

