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Mulher que abandonou os estudos aos 16 anos, trabalhou como faxineira e guarda-costas para pagar as contas, concluiu a faculdade perto dos 40, virou arqueóloga e liderou a pesquisa da USP que examinou os restos mortais de D. Pedro I, Leopoldina e Amélia
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 14/08/2026 às 12:24
Atualizado em 14/08/2026 às 12:25
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Trajetória marcada por abandono escolar, trabalhos distantes do universo acadêmico e sucessivas mudanças profissionais levou uma brasileira até uma pesquisa científica envolvendo personagens centrais da história nacional, depois de uma retomada dos estudos que transformou completamente o rumo de sua vida profissional.
Antes de se tornar pesquisadora e participar de uma investigação científica sobre os restos mortais de D. Pedro I e das imperatrizes Leopoldina e Amélia, Valdirene Ambiel passou anos longe da escola e exerceu trabalhos sem ligação aparente com uma carreira acadêmica.
Ela abandonou os estudos aos 16 anos, trabalhou como recepcionista, motorista, guarda-costas, segurança, auxiliar de serviços gerais e faxineira, retomou a formação já adulta e concluiu o curso de História perto dos 40 anos, depois de sucessivas mudanças profissionais.
A trajetória ganhou uma dimensão incomum quando Valdirene chegou à Universidade de São Paulo e se tornou responsável pelo projeto que analisou remanescentes humanos de personagens centrais da história brasileira, aproximando uma experiência de vida improvável do ambiente científico.
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Ao longo da formação acadêmica, o trabalho colocou diante dela os restos mortais do primeiro imperador do Brasil e de suas duas esposas, transformando um interesse antigo pela história em pesquisa científica conduzida dentro de uma das principais universidades do país.
Valdirene Ambiel abandonou os estudos aos 16 anos
Segundo perfil publicado pelo UOL Universa, Valdirene perdeu a mãe, Zenaide, quando tinha apenas sete meses e foi criada pelo pai, Alfredo, motorista de caminhão de entrega de botijões de gás, em uma infância marcada também por outra ausência.
Quando tinha oito anos, o tio materno desapareceu e a família nunca soube o que ocorreu com ele, episódio que permaneceria presente em sua memória e, décadas mais tarde, ganharia uma conexão inesperada com uma das possíveis aplicações de sua pesquisa.
Na escola, Valdirene acumulava reprovações e não construiu uma trajetória acadêmica precoce, mas, aos 15 anos, entrou em uma escola de equitação para civis ligada ao Regimento de Polícia Montada 9 de Julho, em São Paulo, porque sonhava com a carreira militar.
Um ano depois, deixou os estudos antes de concluir a etapa escolar em que estava e conseguiu emprego como recepcionista no Consulado de Mônaco, iniciando uma sequência de ocupações que a levaria por áreas muito diferentes antes da universidade.
De guarda-costas e segurança às tentativas de entrar na Polícia Militar
O interesse pelo automobilismo também surgiu naquele período, quando ela guardava parte do salário para pagar um curso de pilotagem em Interlagos e chegou a dirigir um carro preparado para as aulas, até que a falta de patrocínio encerrou a tentativa.
Da experiência ao volante veio outra oportunidade: depois de fazer um curso de segurança, Valdirene passou a trabalhar como motorista no consulado e acumulou a função de guarda-costas, unindo atividades que ainda mantinham seu projeto profissional distante do meio acadêmico.
A carreira militar continuava no horizonte e, ao deixar o consulado, Valdirene ingressou na escola de educação física da Polícia Militar como civil, representando a instituição em competições de atletismo, corrida e natação enquanto buscava cumprir os requisitos para prestar concurso.
Como precisava completar a escolaridade interrompida anos antes, mas não tinha dinheiro para frequentar as aulas de um curso supletivo, fez apenas as provas necessárias e conseguiu o diploma exigido para seguir tentando uma vaga na corporação.
A aprovação, entretanto, não veio: Valdirene passou pelas etapas de conhecimento e pelos exames médicos, mas foi eliminada na avaliação psicológica, repetiu a tentativa em outras ocasiões e, depois da sexta reprovação, abandonou definitivamente o plano de entrar na Polícia Militar.
Vieram então novos trabalhos como segurança e motorista particular, além de passagens por lojas, salões de beleza e pelo serviço de direção para um executivo, enquanto uma graduação em educação física também acabaria interrompida pela dificuldade de conciliar trabalho e estudo.
Faxina, bicos e uma nova interrupção dos estudos
Em uma fase de instabilidade, viveu de bicos, passeou com cachorros, passou roupa e limpou casas de vizinhos para obter renda, período que coincidiu com uma depressão profunda relatada por ela após sucessivas tentativas frustradas no automobilismo, na área militar e no esporte.
Ainda nesse percurso, passou nove meses como vocacionada no hospital Santa Marcelina, etapa inicial de uma possível formação religiosa, antes de concluir que não seguiria a vida de freira e buscar outra alternativa profissional para manter a própria renda.
Depois, conseguiu emprego como auxiliar de serviços gerais no gabinete de um deputado estadual, onde dirigia, atendia pessoas que procuravam o parlamentar e executava tarefas variadas por pouco mais de um salário mínimo, até que a História voltou a ocupar espaço central.
Embora tivesse enfrentado dificuldades na escola, Valdirene lembrava que se destacava justamente nas aulas de História e carregava uma memória de infância ligada aos passeios com o pai pelo Parque da Independência, em São Paulo, onde fica a Cripta Imperial.
Retomada dos estudos levou Valdirene à História
É nesse local que estão depositados os restos mortais de D. Pedro I, Leopoldina e Amélia, personagens que mais tarde deixariam de ser apenas referências históricas para se tornar o objeto central de uma pesquisa conduzida por ela.
A primeira tentativa de ingressar em História na USP terminou sem aprovação, mas o deputado para quem trabalhava ofereceu pagar as mensalidades de uma instituição particular, desde que Valdirene mantivesse notas acima de sete durante a graduação.
Ela cursou História no Centro Universitário Assunção, terminou a graduação entre as melhores alunas da turma e escolheu a imperatriz Leopoldina como tema do trabalho de conclusão de curso, aproximando de maneira concreta sua formação acadêmica do universo da família imperial.
Ainda durante a graduação, matriculou-se como aluna especial em uma disciplina de arqueologia oferecida pela USP no Museu de Arqueologia e Etnologia, experiência que mudou sua direção profissional e abriu caminho para o trabalho direto com vestígios humanos preservados.
Arqueologia colocou a pesquisadora diante de restos humanos
Na sequência, conseguiu uma vaga como auxiliar de pesquisa no Mosteiro da Luz, e a primeira experiência diante de um corpo preservado ocorreu no Museu de Arte Sacra, em São Paulo, muito diferente dos mortos preparados para sepultamento que conhecia de velórios.
Um colega sugeriu que ela encarasse aquele corpo como um livro capaz de fornecer informações sobre alguém que já não podia contar a própria história, comparação que passou a acompanhá-la na carreira e ajudou a definir sua relação com a arqueologia.
Dois anos depois, Valdirene conseguiu ingressar no mestrado da USP e obteve autorização da família imperial para analisar os remanescentes humanos de D. Pedro I, Leopoldina e Amélia, levando técnicas de arqueologia forense para questões históricas cercadas por versões antigas.
O trabalho fez dela a primeira pesquisadora a estudar os restos mortais da família imperial brasileira e permitiu investigar, por meio de evidências materiais, episódios que durante décadas foram conhecidos principalmente por relatos históricos, documentos e interpretações transmitidas ao longo do tempo.
Pesquisa examinou D. Pedro I, Leopoldina e Amélia
Entre esses episódios estava a narrativa de que a imperatriz Leopoldina teria sofrido uma fratura no fêmur após uma agressão de D. Pedro I e de que a lesão estaria relacionada à morte dela, versão confrontada diretamente pela análise dos restos mortais.
Segundo a pesquisa descrita pelo UOL Universa, o exame mostrou que não havia fratura no fêmur da imperatriz, informação que ajudou a ajustar a compreensão daquele episódio específico sem apagar os registros históricos de violência atribuídos ao primeiro imperador brasileiro.
A investigação continuou no doutorado, defendido na Faculdade de Medicina da USP, quando Valdirene retomou os dados obtidos com os restos mortais e trabalhou com cerca de 20 mil imagens de tomografia computadorizada, além de registros médicos.
A partir desse material, desenvolveu aproximações faciais de D. Pedro I, Leopoldina e Amélia, ampliando uma pesquisa que havia começado com os remanescentes humanos e passou a reunir recursos de arqueologia, história, medicina e reconstrução digital.
Pesquisa científica também se conecta ao tema dos desaparecidos
Ao UOL Universa, Valdirene também relacionou esse campo de estudo a outra possibilidade de aplicação, ao afirmar que o aperfeiçoamento de tecnologias de aproximação facial pode auxiliar famílias na tentativa de identificar restos mortais de pessoas desaparecidas.
A ligação alcança sua própria história porque o desaparecimento do tio, ocorrido quando ela tinha oito anos, permaneceu sem resposta para a família, conectando uma experiência vivida na infância a uma tecnologia estudada décadas depois dentro da universidade.
Quantas carreiras científicas poderiam surgir de trajetórias improváveis se mais pessoas que interromperam os estudos encontrassem condições reais para voltar à sala de aula e transformar experiências acumuladas fora da universidade em caminhos possíveis para a pesquisa?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

