Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

Mulher saiu da zona rural sem concluir o ensino fundamental, trabalhou como diarista para permanecer na faculdade, estudou durante as madrugadas, passou na OAB antes da formatura aos 30 anos e manteve vivo o sonho de finalmente se tornar juíza

Mulher saiu da zona rural sem concluir o ensino fundamental, trabalhou como diarista para permanecer na faculdade, estudou durante as madrugadas, passou na OAB antes da formatura aos 30 anos e manteve vivo o sonho de finalmente se tornar juíza

7 min de leitura

Mulher saiu da zona rural sem concluir o ensino fundamental, trabalhou como diarista para permanecer na faculdade, estudou durante as madrugadas, passou na OAB antes da formatura aos 30 anos e manteve vivo o sonho de finalmente se tornar juíza

Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges

Publicado em 17/08/2026 às 21:18

Atualizado em 17/08/2026 às 21:20

Curiosidades

Canal

Faculdade mudou a trajetória de Maria Aloísia, que deixou a zona rural, voltou aos estudos, trabalhou como diarista e passou na OAB antes da formatura.

1 pessoa reagiu a isso.

Prefira o CPG no Google

Maria Aloísia deixou Valença aos 17, concluiu os estudos pelo supletivo e obteve financiamento pelo Fies para cursar Direito em Salvador. Entre emprego, estágio, faxinas nos fins de semana e estudos nas madrugadas, chegou à faculdade, concluiu a graduação sem reprovações e venceu o Exame da Ordem antes da formatura.

Segundo o G1, Maria Aloísia Jesus dos Santos conciliou a faculdade de Direito com uma rotina de trabalho que conhecia desde a infância. Nascida na zona rural de Valença, no Baixo Sul da Bahia, ela chegou aos 30 anos aprovada na OAB e formada em Direito em Salvador.

A conquista encerrou uma etapa iniciada quando Maria ainda não havia completado o ensino fundamental. Antes do diploma, houve mudança de cidade, supletivo, emprego formal para conseguir o Fies, serviços gerais, estágio e retorno às faxinas nos fins de semana. A aprovação veio antes da formatura, mas foi construída ao longo de anos de estudo e trabalho.

Trabalho começou aos sete anos na zona rural de Valença

Maria Aloísia começou a fazer faxinas aos sete anos, enquanto vivia com a família na zona rural de Valença. O trabalho entrou cedo em sua rotina e dividiu espaço com uma escolarização interrompida. Aos 17 anos, ela ainda não havia concluído o ensino fundamental e enxergava poucas possibilidades profissionais no lugar onde havia crescido.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

A mãe sustentava uma família numerosa, formada por 12 filhos, e quatro irmãos de Maria já viviam em Salvador. Essa presença familiar na capital baiana ofereceu um ponto de apoio para a mudança, mas não eliminou a necessidade de trabalhar. Sair do campo representou o começo de outra fase, não o fim das dificuldades econômicas e escolares.

Mudança para Salvador ocorreu quando Maria tinha 17 anos

Maria Aloísia ao lado da casa da mãe no sítio em Valença, na bahia — Foto: Arquivo Pessoal

Em 2004, aos 17 anos, Maria deixou a mãe e a cidade natal para morar em Salvador. Na capital, continuou trabalhando em casas de família e passou a conviver com jornadas que deixavam pouco tempo para estudar. A experiência também foi marcada por patrões que atrasavam ou deixavam de pagar salários e por situações de tratamento humilhante.

Esses episódios reforçaram a percepção de que seria necessário reconstruir a própria trajetória profissional. Maria não tinha diploma escolar, renda para uma mensalidade particular nem preparação suficiente para disputar imediatamente uma vaga em universidade pública. A decisão de voltar a estudar nasceu da necessidade concreta de ampliar suas escolhas.

Supletivo permitiu concluir a educação básica em 2011

O primeiro passo foi retomar os estudos por meio do supletivo. Maria concluiu o ensino fundamental e avançou até terminar o ensino médio em 2011. Durante parte desse período, ainda trabalhava como doméstica e dormia na casa das famílias, o que limitava o tempo disponível para aulas, exercícios e descanso.

Na metade do ensino médio, ela passou a atuar como diarista e começou a direcionar mais atenção ao projeto de entrar na faculdade. Testes vocacionais ajudaram a organizar as possibilidades, e o curso de Direito ganhou força pelo interesse em trabalhar diretamente com problemas enfrentados por outras pessoas. Concluir a educação básica abriu uma porta que permanecia fechada desde a adolescência.

Emprego com carteira assinada abriu caminho para o Fies

Maria Aloísia (calça preta e blusa branca) com os colegas da faculdade em Salvador — Foto: Arquivo Pessoal

Mesmo com o ensino médio concluído, a mensalidade de uma instituição particular permanecia fora do orçamento. Maria procurou então um emprego fixo em uma empresa de limpeza para ter a primeira carteira de trabalho assinada e comprovar renda. O vínculo formal permitiu que ela solicitasse o Fundo de Financiamento Estudantil.

Com o financiamento integral do curso, Maria conseguiu ingressar na faculdade de Direito. O Fies resolveu a barreira imediata da mensalidade, mas a permanência ainda dependia do salário, do controle das despesas e da capacidade de conciliar trabalho e aulas. A matrícula foi viabilizada pelo financiamento, enquanto o emprego sustentava a rotina necessária para continuar estudando.

Transferência do shopping para um banco melhorou os estudos

No começo da graduação, Maria trabalhava com serviços gerais em um shopping. A extensão da jornada e o desgaste físico começaram a afetar as notas. Em vez de abandonar o curso, ela apresentou a situação à empresa, explicou que estudava Direito e mostrou que o desempenho acadêmico havia caído.

A empresa a transferiu para um banco, ambiente menor e com horário de funcionamento mais curto. A mudança reduziu o cansaço e devolveu tempo à preparação para as aulas. A adaptação do posto de trabalho foi decisiva para que a faculdade continuasse compatível com a renda e com os estudos.

Estágio durante a semana foi combinado com faxinas aos sábados e domingos

Em junho de 2015, Maria deixou o emprego de serviços gerais para buscar experiência na área jurídica. O estágio aproximava a estudante da profissão escolhida, mas a bolsa não cobria sozinha as despesas. Para completar a renda, ela voltou a fazer diárias nos fins de semana.

De segunda a sexta-feira, a rotina era dividida entre estágio e faculdade; aos sábados e domingos, as faxinas voltavam a ocupar o calendário. O trabalho doméstico, que ela pretendia superar profissionalmente, tornou-se temporariamente o apoio financeiro para avançar no Direito. Maria não retornou às diárias por abandonar o novo caminho, mas para conseguir permanecer nele.

Madrugadas foram reservadas à preparação para a OAB

Ao descobrir que poderia participar do Exame da Ordem antes de receber o diploma, Maria transformou a aprovação em uma meta. Organizou cadernos, ampliou as horas de estudo e passou a utilizar as madrugadas para revisar conteúdos depois das obrigações de trabalho e da faculdade.

O esforço não ficou restrito às semanas anteriores à prova. A preparação aproveitou conhecimentos acumulados durante o curso e uma disciplina acadêmica reconhecida pelos colegas. Maria fez o exame no início de 2017 e foi aprovada meses antes da formatura. A OAB deixou de ser uma etapa futura e passou a representar a primeira confirmação profissional de todo o percurso.

Aprovação permitiu deixar as últimas diárias antes da formatura

Depois do resultado no Exame da Ordem, a bolsa do estágio aumentou. Com a renda maior, Maria conseguiu interromper as faxinas realizadas nos fins de semana e concentrar a rotina na transição para a advocacia. A mudança ocorreu cerca de dois meses antes de concluir os cinco anos do curso.

Em 26 de julho de 2017, ela participou da formatura em Direito aos 30 anos. A Folha Nobre identificou a instituição como a unidade Pituba da UNINASSAU, em Salvador. O diploma chegou quando Maria já havia vencido o exame exigido para exercer a advocacia.

Dedicação na faculdade também ajudou outros estudantes

Maria Aloísia (no meio de cabelo curto) com a mãe (de vestido lilás) e os irmãos na casa da família em Valença, na Bahia — Foto: Arquivo Pessoal

Durante os cinco anos da graduação, Maria não foi reprovada em nenhuma disciplina. Sua organização aparecia nos cadernos completos, frequentemente procurados pelos colegas perto das avaliações. O material servia de apoio coletivo e refletia uma rotina de atenção às aulas, mesmo depois de jornadas de trabalho e noites reduzidas de sono.

Vinícius Maia, professor e coordenador do curso, destacou a concentração, a determinação e a disposição de Maria para ajudar a turma. A estudante que precisou reconstruir a própria formação básica tornou-se uma referência acadêmica entre os colegas. O desempenho na faculdade não se resumiu à aprovação final e esteve presente durante toda a graduação.

Direito foi escolhido como instrumento para servir à sociedade

Maria encontrou no Direito uma possibilidade de trabalhar com situações que atingem diretamente a vida das pessoas. Entre suas referências estava Luislinda Valois, reconhecida por sua trajetória pioneira como magistrada negra. O exemplo fortaleceu a ideia de que a origem social não precisava determinar o limite de sua carreira.

A aprovação na OAB e o diploma não encerraram o projeto profissional. Aos 30 anos, Maria dizia que pretendia seguir estudando para chegar à magistratura, embora ainda não tivesse escolhido uma área específica. A advocacia representava o início da carreira, enquanto o objetivo de tornar-se juíza permanecia como etapa seguinte.

Trajetória de Maria Aloísia une estudo, trabalho e permanência

A passagem da zona rural à faculdade não ocorreu por uma mudança isolada. Maria precisou concluir duas etapas da educação básica, conquistar o primeiro emprego formal, acessar o Fies, adaptar o local de trabalho, buscar um estágio e retomar as diárias quando a bolsa não bastava para as despesas.

Ao passar na OAB antes da formatura, ela transformou esse conjunto de decisões em uma conquista profissional concreta.

Qual parte dessa trajetória mais chama sua atenção: a volta aos estudos, o trabalho para permanecer na faculdade, as madrugadas de preparação ou a aprovação antes do diploma? Conte nos comentários qual dessas etapas melhor representa a persistência de Maria Aloísia


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

Sair da versão mobile