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Mulheres ficam fora da herança de antigas ilhas agrícolas astecas entregues aos homens, compram as próprias terras e retiram lixo, televisores e poltronas dos canais da Cidade do México
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 22/08/2026 às 18:42
Atualizado em 22/08/2026 às 18:43
Meio Ambiente
Canal
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Em Xochimilco, Jasmín Ordóñez e Cassandra Garduño recuperam chinampas abandonadas, reabrem canais cheios de lixo, usam filtros de plantas e enfrentam uma tradição que durante gerações concentrou a herança das terras nas mãos dos homens
Em um labirinto percorrido por barcos de madeira, televisores, pedaços de poltronas e garrafas de cerveja apareceram onde a água deveria irrigar antigas ilhas agrícolas. Mulheres que ficaram fora da herança familiar passaram a comprar e recuperar essas chinampas de Xochimilco, na Cidade do México. A informação foi publicada pela Associated Press, agência internacional de notícias responsável pela reportagem.
Jasmín Ordóñez e Cassandra Garduño fazem parte de um grupo pequeno, mas crescente, de agricultoras que retomam terrenos pressionados pela poluição, pelo turismo de massa e pelo avanço urbano. O trabalho começa com a retirada do lixo, a abertura dos canais e a recuperação de um solo que voltou a produzir milho, acelga, couve, abóbora e brócolis.
As chinampas não são jardins que flutuam soltos sobre a água. Elas são ilhas artificiais construídas com lama e matéria vegetal, cercadas por canais e integradas ao terreno alagado. A paisagem reúne uma técnica agrícola antiga e problemas sanitários muito atuais, entre eles esgoto, metais pesados, óleos, detergentes e pesticidas na água.
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A engenharia agrícola asteca transformou lama do lago em solo fértil
A técnica das chinampas criou áreas cultiváveis no sistema de lagos que cercava a antiga Tenochtitlan. A lama retirada do fundo era acumulada com matéria vegetal para formar terrenos de cultivo. Por isso, o nome popular de jardins flutuantes pode enganar: essas áreas não navegam nem ficam à deriva.
O lodo dos canais também funciona como fertilizante. Ele reúne minerais e cinzas dos vulcões que cercam a Cidade do México. Quando esse material volta aos canteiros, o agricultor devolve nutrientes ao solo e reduz a necessidade de produtos químicos no cultivo.
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A produtividade ajuda a explicar a permanência do sistema. Uma chinampa pode alcançar até 8 ciclos de cultivo por ano, enquanto outros modelos chegam a 2 ou 3. A variedade de plantas reduz o risco de uma geada destruir tudo, e as flores atraem insetos para longe de hortaliças como repolho e couve.
Terras herdadas por homens obrigaram agricultoras a comprar as próprias áreas
Os antepassados de Jasmín Ordóñez possuíam chinampas, mas as mulheres da família não receberam essas terras. A maior parte da herança ficava com os homens. Em 2025, ela cultivava uma área comprada três anos antes e tentava obter um selo de produção sustentável.
Cassandra Garduño também cresceu perto da chinampa do avô, mas não herdou o terreno. Após cursar a faculdade e participar de trabalhos de conservação no Equador, ela voltou a San Gregorio Atlapulco em 2021. A agricultora economizou durante 1 ano, comprou uma chinampa e encontrou a área tomada pelo abandono.
A barreira não terminou com a compra. Pouquíssimas mulheres trabalham nas chinampas de Xochimilco e San Gregorio Atlapulco, onde o cultivo permanece dominado por homens. Garduño enfrentou desconfiança de vizinhos, mesmo conhecendo desde a infância o uso do lodo, a mistura de culturas e o controle natural de insetos.
O lixo retirado dos canais revela uma crise que vai além da paisagem
A limpeza feita na área de Garduño encontrou pedaços de poltronas, televisores e garrafas de cerveja. Os resíduos bloqueavam canais necessários para circular e manter o sistema agrícola. Associated Press, agência internacional de notícias responsável pela reportagem, registrou que a agricultora reabriu essas passagens antes de iniciar o plantio.
O lixo volumoso é apenas a parte visível. Os canais também recebem esgoto ligado ao crescimento urbano, resíduos de estações de tratamento e substâncias usadas em áreas agrícolas. Foram identificados ferro, cádmio e chumbo, além de óleos, detergentes e pesticidas.
O turismo interfere nesse equilíbrio. Aos fins de semana, centenas de visitantes circulam em barcos coloridos chamados trajineras, muitas vezes para beber, enquanto outras chinampas foram transformadas em campos de futebol. A ocupação voltada ao lazer reduz o espaço dedicado à agricultura e aumenta a pressão sobre o ambiente.
Para enfrentar parte do problema, produtores ligados à universidade instalam filtros feitos com plantas aquáticas. Eles ajudam a limpar a água e bloqueiam carpas e tilápias introduzidas na região na década de 1980. Esses peixes invasores atacam o axolote, anfíbio semelhante a uma salamandra que está perto da extinção.
Produzir alimentos dentro da metrópole pode gerar renda, mas enfrenta limites
As chinampas funcionam dentro de uma metrópole, cercadas por avenidas, bairros e atividades turísticas. Para o leitor brasileiro, elas lembram cinturões verdes e áreas agrícolas preservadas dentro de grandes cidades. A comparação ajuda a entender a função produtiva, embora o sistema mexicano dependa de canais e de uma engenharia própria do terreno alagado.
A agricultura gera produtos para venda, mas o cultivo sustentável procura melhorar o preço recebido. O selo chamado Etiqueta Chinampera identifica quem usa lodo como fertilizante e evita agroquímicos. Os alimentos certificados podem ser vendidos por valores mais altos.
Em 2025, apenas 16 agricultores tinham obtido esse selo, e 4 eram mulheres. Os dados mostram uma oportunidade de renda, mas não garantem que o cultivo seja suficiente para sustentar cada família. Não há valor de faturamento ou lucro divulgado para as propriedades de Ordóñez e Garduño.
O abandono não nasce de uma única causa. Níveis mais baixos da água, contaminação, expansão urbana, troca do cultivo por lazer e pouca presença de novos agricultores aparecem ao mesmo tempo. Recuperar uma chinampa exige, portanto, limpar, reconstruir canteiros, cuidar da água e encontrar compradores dispostos a pagar pela produção.
Preservar Xochimilco também ajuda a conter calor e alagamentos
O que resta de Xochimilco corresponde a apenas 3% da extensão original dos lagos que ocupavam o Vale do México. Mesmo reduzida, a área ajuda a regular o clima da capital. O desaparecimento desse sistema poderia elevar a temperatura média da cidade em até 2 graus Celsius.
As chinampas e o terreno alagado também reduzem alagamentos durante a estação das chuvas, armazenam carbono e abrigam centenas de espécies. Garças, rãs e o axolote dependem desse ambiente. Conservar a agricultura significa conservar o próprio ecossistema, porque os canais e os terrenos cultivados funcionam juntos.
Ao comprar áreas que não receberam como herança, essas mulheres recuperam mais que uma técnica agrícola. Elas reabrem canais, devolvem alimentos ao solo urbano e disputam espaço com o lixo, a poluição e outros usos do terreno.
O trabalho não transforma Xochimilco em um cenário perfeito. Ele mostra que uma infraestrutura agrícola antiga ainda pode produzir dentro da metrópole, desde que a água, o solo e o acesso das mulheres à terra sejam tratados como parte do mesmo problema.
Você acredita que grandes cidades brasileiras deveriam proteger mais áreas agrícolas dentro do espaço urbano? Deixe sua opinião nos comentários e compartilhe esta história.
Fonte
Associated Press
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

