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Mulheres inglesas fabricavam correntes pesadas em galpões apertados nos quintais, recebiam apenas 5 xelins por 50 horas de trabalho e fizeram uma greve de dez semanas que quase dobrou seus salários
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 04/08/2026 às 17:09
Atualizado em 04/08/2026 às 17:10
Economia
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Em Cradley Heath, cerca de 800 fabricantes de correntes deixaram as forjas domésticas, arrecadaram quase £4 mil e elevaram o pagamento semanal de 5 para quase 11 xelins.
Em 1910, cerca de 800 mulheres de Cradley Heath, na Inglaterra, interromperam a fabricação manual de correntes. Elas passavam até 50 horas semanais em galpões apertados, cercadas por fornos, fumaça, martelos e ferro aquecido.
O trabalho exigia força e precisão, mas rendia apenas 5 xelins por semana. Após dez semanas de greve, os empregadores aceitaram um pagamento mínimo que aproximou a remuneração semanal de 11 xelins.
A informação foi publicada pelo Modern Records Centre da Universidade de Warwick, arquivo histórico da biblioteca da universidade britânica. Os registros mostram como a paralisação ganhou apoio popular e pressionou os fabricantes a cumprir o novo valor.
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As forjas domésticas de Cradley Heath colocavam fogo e fumaça ao lado das casas
Cradley Heath se tornou um importante centro britânico de fabricação de correntes durante o século XIX. A atividade ocupava fábricas maiores, mas também avançava pelos quintais e anexos das residências.
Os homens concentravam a produção das correntes pesadas e médias dentro das fábricas. As mulheres e as crianças trabalhavam principalmente nos modelos menores, produzidos manualmente com martelos em pequenas forjas construídas perto das casas.
Mesmo menores, essas correntes exigiam um trabalho pesado. Cada elo precisava ser aquecido, moldado e fechado com golpes repetidos, enquanto a trabalhadora permanecia diante do forno por várias horas.
A divisão da produção permitia que as grandes fábricas e as oficinas domésticas funcionassem ao mesmo tempo. As indústrias cuidavam dos modelos maiores, enquanto as mulheres atendiam às encomendas de correntes menores feitas à mão.
O pagamento por peça mantinha as fabricantes de correntes presas aos baixos salários
As mulheres não recebiam um salário estável calculado apenas pelo tempo de trabalho. O pagamento dependia da quantidade de correntes produzidas, o que aumentava a pressão para fabricar mais elos durante a semana.
Intermediários repassavam as encomendas e controlavam os valores pagos por peça. Como cada trabalhadora negociava a partir da própria oficina doméstica, havia pouca força individual para contestar a remuneração.
Uma jornada de 50 horas semanais rendia perto de 5 xelins para muitas fabricantes. O valor era baixo mesmo diante do esforço físico, da exposição constante ao calor e da fumaça presente nos galpões.
Esse tipo de atividade era tratado como trabalho explorado. A expressão definia ocupações realizadas dentro ou perto das casas, com pagamentos muito baixos e pouca proteção para quem produzia.
Uma lei criou o salário mínimo, mas parte dos patrões recusou o pagamento
Em 1909, uma lei britânica criou conselhos responsáveis por estabelecer valores mínimos em quatro atividades marcadas pela exploração. A fabricação manual de correntes estava entre os setores incluídos.
Na primavera de 1910, o conselho do setor anunciou uma taxa de 2,5 pence por hora. Para muitas trabalhadoras, esse valor representava quase o dobro do pagamento recebido anteriormente.
Os estabelecimentos usados para a produção deveriam exibir o aviso com a nova taxa. Depois do período aberto para contestações, encerrado em agosto de 1910, muitos empregadores ainda se recusavam a aplicar o aumento.
A existência da regra não garantiu o dinheiro no bolso das mulheres. Sem o cumprimento por parte dos fabricantes, o ganho continuava perto de 5 xelins semanais, apesar do mínimo já definido para a atividade.
A greve de cerca de 800 mulheres paralisou as pequenas forjas por dez semanas
A Federação Nacional das Mulheres Trabalhadoras convocou a greve diante da resistência dos empregadores. Cerca de 800 fabricantes de correntes interromperam a produção e deixaram os fornos apagados.
A paralisação durou dez semanas. Sem as correntes produzidas nos quintais, os fabricantes passaram a enfrentar pressão para assinar um compromisso de pagamento do novo valor.
O Modern Records Centre da Universidade de Warwick, arquivo histórico da biblioteca da universidade britânica, preserva documentos sobre mulheres de diferentes idades que participaram da mobilização.
Entre elas estava Patience Round, de 79 anos, uma das trabalhadoras mais velhas da greve. Ela conciliava o trabalho diante da forja com os cuidados prestados ao marido com deficiência e afirmou que nunca imaginou viver para reivindicar os direitos das mulheres.
Jornais, reuniões e cinema levaram a greve para fora da cidade
Mary Macarthur, fundadora da Federação Nacional das Mulheres Trabalhadoras, levou a situação das fabricantes de correntes às reuniões públicas e aos jornais. A campanha apresentou ao público as condições encontradas dentro das forjas domésticas.
O cinema, ainda uma novidade naquele período, também foi utilizado para divulgar a mobilização. As imagens permitiam que pessoas distantes de Cradley Heath conhecessem a rotina de fogo, fumaça e marteladas enfrentada pelas mulheres.
A repercussão atraiu contribuições de trabalhadores, sindicatos, políticos, empresários, integrantes da aristocracia e grupos religiosos. Ao final da paralisação, o fundo da greve havia recebido quase £4 mil.
As doações ajudaram a sustentar as famílias durante as dez semanas sem produção. O dinheiro alcançou tanto mulheres sindicalizadas quanto trabalhadoras que ainda não faziam parte da entidade.
A vitória elevou os salários e deixou um instituto para trabalhadores
Dentro de um mês, 60% dos empregadores já haviam assinado o compromisso de pagar a nova taxa. A greve terminou em 22 de outubro de 1910, quando o último fabricante aceitou o valor.
Com a aplicação do mínimo, o pagamento semanal passou de cerca de 5 para quase 11 xelins. A mudança quase dobrou a remuneração de mulheres que continuariam executando um trabalho manual pesado e repetitivo.
A maior parte das doações foi usada para manter as famílias durante a paralisação. O dinheiro restante financiou a construção do Workers’ Institute, chamado em português de Instituto dos Trabalhadores, em Cradley Heath.
A greve mostrou que criar uma regra não bastava quando os patrões se recusavam a cumpri la. Foi preciso interromper a produção, conquistar apoio público e manter centenas de famílias unidas durante dez semanas para fazer o salário mínimo chegar às forjas.
Se o pagamento mínimo já existia, mas não era respeitado, a greve era o único caminho possível para essas mulheres? Deixe sua opinião nos comentários.
Fonte
Warwick
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

