6 min de leitura
Muro de concreto vai atravessar um vale inteiro em Santa Catarina para segurar a água das cheias de uma vez e blindar 200 mil pessoas, e a licitação de R$ 105 milhões acabou de sair
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 07/08/2026 às 14:54
Atualizado em 07/08/2026 às 15:01
Construção
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
O Governo de Santa Catarina lançou na quinta-feira, 6 de agosto de 2026, o edital da barragem de Mirim Doce, no Alto Vale do Itajaí. O muro de concreto ficará no nível mínimo no dia a dia e só entrará em operação durante eventos extremos de chuva, segurando o pico das cheias.
Um muro de concreto plantado no meio do Alto Vale do Itajaí para funcionar quase sempre vazio. É essa a lógica da barragem de Mirim Doce, cuja licitação foi lançada pelo Governo do Estado na quinta-feira, 6 de agosto de 2026, com valor estimado em R$ 105 milhões, conforme reportagem assinada por Yasmim Eble e publicada pelo ND Mais na mesma data. A expectativa é que a obra beneficie cerca de 200 mil pessoas na região.
O prazo para envio de propostas abriu no dia 6 e segue até 4 de novembro de 2026, data prevista para a abertura dos envelopes, informou a Secretaria de Estado da Proteção e Defesa Civil. A estrutura não vai represar água para consumo nem gerar energia: ela existe para o dia em que o rio subir. Nos demais, permanece no nível mínimo.
O edital que saiu depois de meses travado
O lançamento do edital encerra um período de paralisia no processo. Em abril, uma medida cautelar determinou a suspensão da contratação da empresa responsável pelos projetos e pela construção da estrutura. O processo ficou parado enquanto a questão era analisada.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
A liberação veio em julho, quando o Tribunal de Contas de Santa Catarina revogou a cautelar. A decisão foi tomada depois de o TCE realizar fiscalização no projeto e na redução dos custos da contratação. Não foi um destravamento automático, foi resultado de revisão técnica com corte de orçamento. Entre as mudanças adotadas está a revisão da estrutura de produção de concreto, que sozinha gerou economia de R$ 3,9 milhões.
Como funciona uma barragem que fica vazia
A ideia por trás do projeto é diferente da imagem que a maioria das pessoas tem de barragem. Não há lago permanente nem reservatório cheio esperando uso. A estrutura foi planejada para atuar como um grande regulador do volume de água, e no cotidiano permanece no nível mínimo.
O acionamento acontece apenas em eventos extremos de chuva. Nesses momentos, o muro de concreto retém grandes volumes de água e reduz o pico da cheia, o que impede que a força do rio avance sobre áreas urbanas, ruas, empresas e residências. A obra não elimina a enchente, ela corta o topo dela. Segurar a água por algumas horas no ponto certo da bacia muda o que chega às cidades rio abaixo.
Esse desenho explica por que a estrutura fica no interior do vale, longe dos centros urbanos que pretende proteger. O ponto de retenção precisa estar acima das cidades atingidas, na parte da bacia onde o volume ainda pode ser contido antes de se espalhar.
Quais cidades entram na conta das 200 mil pessoas
A proteção direta alcança dois municípios: Mirim Doce, onde a barragem será construída, e Taió. São as cidades imediatamente ligadas à estrutura e as primeiras a sentir o efeito da retenção.
O alcance, porém, se estende bacia abaixo. A obra também vai influenciar Rio do Oeste, Laurentino, Agronômica, Rio do Sul e Lontras, ampliando a segurança hídrica em toda a região do Alto Vale. É a soma dessas populações que forma a estimativa de 200 mil pessoas beneficiadas. O empreendimento ainda integra o conjunto de obras voltadas a reduzir os impactos das cheias em Blumenau e em todo o Vale do Itajaí, o que insere a barragem em um sistema maior, e não como solução isolada.
Os 28 meses que separam o edital da obra pronta
O cronograma contratual previsto é de 28 meses, divididos em duas etapas com funções distintas. Os quatro primeiros meses são destinados à revisão e à elaboração dos projetos. Os cerca de 24 meses restantes ficam reservados para a execução da obra propriamente dita.
Antes disso, há um percurso administrativo a cumprir. A abertura e a análise das propostas acontecem em 4 de novembro de 2026. Depois dessa etapa, o processo segue para análise da documentação, homologação do resultado e assinatura do contrato, junto com a emissão da ordem de serviço. O relógio dos 28 meses só começa a contar quando a ordem de serviço sair, e a reportagem não informa data prevista para esse marco.
O que o edital ainda não esclarece
Alguns pontos relevantes ficam de fora do material publicado e merecem registro. A reportagem não traz as dimensões da estrutura: não informa altura, extensão, volume de água que a barragem será capaz de reter nem a área que será ocupada pelo reservatório em situação de cheia. Também não há dados sobre desapropriações, número de propriedades atingidas ou situação fundiária da área.
Há ainda uma divergência de valores no acervo do próprio veículo. As matérias anteriores citadas ao longo do texto trazem a mesma obra com orçamentos de R$ 109 milhões e R$ 110 milhões, enquanto o edital atual aparece com R$ 105 milhões e, em outro trecho, R$ 105,1 milhões. A economia de R$ 3,9 milhões obtida com a revisão do concreto ajuda a explicar parte da diferença, mas a reportagem não detalha a composição de cada valor. Sem as dimensões e sem a memória de cálculo, o número que se conhece é o do contrato, não o da capacidade de retenção.
Um terceiro ponto pede atenção. Ao descrever a cautelar de abril, o texto se refere à “barragem de Taió, em Mirim Doce”, nomenclatura que mistura os dois municípios. No restante da reportagem, a obra é tratada como barragem de Mirim Doce. Taió aparece como cidade protegida, não como local da construção.
Uma região que já sabe o que é enchente
O Vale do Itajaí carrega um histórico de cheias que dispensa apresentação para quem mora ali. As referências a alagamentos e enxurradas frequentes no Alto Vale aparecem na própria reportagem como justificativa do projeto, e é esse repertório que dá peso ao investimento de R$ 105 milhões.
Obras de contenção, no entanto, costumam ser avaliadas apenas quando a chuva chega. Uma estrutura que passa anos no nível mínimo não produz resultado visível no intervalo entre um evento extremo e outro. O teste real desse muro de concreto só acontece no pior dia possível. Até lá, o que existe é cronograma, contrato e prazo.
E você, acredita que a obra sai no prazo?
A barragem de Mirim Doce já passou por suspensão judicial, fiscalização do Tribunal de Contas e revisão de orçamento antes mesmo de a licitação ser lançada. Agora tem edital aberto, data marcada para novembro e um cronograma de 28 meses pela frente.
Conta nos comentários: quem mora no Vale do Itajaí acha que essa obra muda a história das cheias na região, ou o problema exige um conjunto de intervenções muito maior do que uma barragem? E na sua experiência com obras públicas por aí, 28 meses de prazo contratual costumam virar quantos na prática?
Tags
Barragem
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

